Creche sem espaço? O parquinho infinito resolve - PORVIR
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Inovações em Educação

Creche sem espaço? O parquinho infinito resolve

Projeto baseado em formas da natureza propõe brinquedos multiuso, que desenvolvem relacionamento e narrativa

por Tatiana Klix ilustração relógio 15 de março de 2013

Um playground sem balanços, escorregadores, gangorras ou outros brinquedos pode parecer um espaço desinteressante para crianças brincarem. Mas esse é o projeto criado pelo arquiteto croata Marko Brajovic, em conjunto com outros profissionais, para uma área de 38 metros quadrados em uma creche no centro de São Paulo. E ele promete: embora pequeno, o espaço vai ser infinito – o que pode ser uma solução criativa para creches de grandes centros urbanos, que não contam com espaços amplos nem áreas verdes à vontade.

Baseado no conceito da biomimética, ciência multidisciplinar que busca inspiração na natureza para criar espaços sustentáveis, o projeto chamado de Playground Infinito prevê o uso interligado de formas e elementos já existentes no meio ambiente – como montanha, caverna, areia, água – para estimular a aprendizagem, em vez de distribuir objetos tradicionais de parquinhos na restrita área. Por exemplo, o tobogã de plástico que está integrado em um morro e serve como escorregador foi desenhado de maneira que também é possível usá-lo para escalar. As paredes não são apenas para delimitar espaços, mas, pintadas com tinta lousa, oferecem a possibilidade de se tornarem cenários de diferentes ambientes. Assim, um canto do parque vira campo de futebol com uma goleira pintada na parede.

À esquerda o desenho do Parquinho Infinito, à direita inspirações de outros projetos de praças e parques

“Os produtos de mercado, como gangorras, já definem o tipo de brincadeira que as crianças devem praticar. É monótono. No playground infinito elas mesmas vão definir como vão usar os espaços”, explica Brajovic, que acredita que o brincar é a prática mais relevante para o aprendizado na primeira infância.

Para construir as formas presentes na natureza, que, segundo o arquiteto, estimulam as crianças a desenvolverem aptidões como narrativa, inter-relacionamento, noção territorial e equilíbrio, foram projetadas estruturas de madeira plástica revestidas de borracha absorvedora de impacto. Parte do piso é feita em concreto pintado de azul. E há detalhes simples como uma caixa de areia, uma horta e uma pia com tanque, que completam o ambiente.

“Estudamos as origens do brincar e desenhamos formas primitivas, como uma cova, onde os usuários do playground vão poder construir seus próprios conceitos de lar, em vez de fazer uma casinha em estilo suíço ou colonial pré-determinado”, diz o líder do projeto.

São experiências sensoriais livres que não são possíveis quando você limita a possiblidade de uso do brinquedo

A topografia também é preparada para atender crianças de diferentes idades. Com formas de elevações variadas, a experiência da criança em cada ponto é distinta. Os menores, de 1 e 2 anos, vão poder subir até um ponto da “montanha”. Quando crescerem, terão o chance de ir além. Esses desafios, para Brajovic, vão marcar mudanças em suas vidas. Outra característica destacada por ele é a possibilidade que a paisagem dá a crianças de observarem o que está acontecendo de cima. “São experiências sensoriais livres que não são possíveis quando você limita a possiblidade de uso do brinquedo”.

Todas essas sensações sempre puderam ser experimentadas na natureza, como quando as crianças brincam no mato, sobem em árvores, tomam banho de rio. O diferencial, segundo os idealizadores do Playground Infinito, é oferecer isso num espaço tão pequeno, construído, que estará acessível aos alunos da creche. Segundo Brajovic, os professores da escola infantil não precisarão ser treinados para ajudar as crianças a usarem a área de forma adequada. “Não é necessário manual de inscrições. É natural, fazemos uma arquitetura que se explica sozinha. Ninguém precisa ser ensinado a interagir com a paisagem”, diz entusiasmado.

Além disso, o projeto estará disponível pela licença Creative Commons, para que possa ser replicado em outros lugares.

Financiamento

Para o parquinho inédito no Brasil – mas inspirado em projetos inovadores de países nórdicos – se tornar realidade ainda é necessário investimento. Assim como o projeto é revolucionário, sua concepção não foi realizada de forma tradicional. Para desenhá-lo, 10 profissionais, entre arquitetos, designers de produtos, designers gráficos, historiadores da arte, jornalistas, empreendedores e curadores de conhecimento se reuniram durante cinco dias em torno de uma mesa liderados por Brajovic, numa iniciativa da Mesa&Cadeira, uma empresa também inovadora que desenvolve projetos com essa dinâmica.

Com a proposta pronta, para financiar a primeira etapa, o Coletivo Amor de Madre, responsável por viabilizar a construção do playground, buscou recursos via crowdfunding (Catarse) e leilões beneficentes. O conjunto de doações foi suficiente para nivelar o chão, preparar as paredes, fazer um tanque de areia, uma lousa e um tanque de água na creche São Miguel Arcanjo, segundo Olivia Yassudo Faria, do coletivo. “Agora, a meta é começar a construir a topografia em abril”, diz ela, que ainda trabalha para angariar doações que viabilizem a obra.


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brincadeiras, educação infantil, novos espaços

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ÉrikaÉrikaKarenRômulo Quem acabou de comentar
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Rômulo
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Rômulo

Bom, fico pensando o real motivo deste projeto, não vejo uma intenção focada no desenvolvimento de uma criança, mas sim em apenas fazer um projeto ser aceito e comercializado após a instalação do “parquinho”. Acredito que outros meios de incentivar as brincadeiras, a socialização e desenvolvimento das crianças no brincar, sejam mais efetivos e mais barato. Todavia espero que nesta creche a utilização do parquinho venha a colaborar, a somar.

Karen
Visitante
Karen

Correção: Acredito qua exista um erro no destaque entre aspas. Não seria “istruções” onde está escrito “inscrições”?
“Não é necessário manual de inscrições”.

Karen
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Karen

Desculpe-me “instruções”

Érika
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Érika

Gostaria de saber se atendem o RJ?

Érika
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