Crianças e adolescentes criam jogos digitais para refletir sobre a cidade onde vivem - PORVIR
Crédito: Iuliia Zavalishina / iStockPhoto

Diário de Inovações

Crianças e adolescentes criam jogos digitais para refletir sobre a cidade onde vivem

Durante projeto realizado em Florianópolis (SC), oficinas exploram a visão dos estudantes sobre o espaço urbano e inclusão

por Ketherin Laris Freitas ilustração relógio 21 de janeiro de 2020

Sou arquiteta e urbanista e, através do meu projeto no mestrado profissional em Práticas Transculturais pelo Centro Universitário Facvest (Unifacvest), em Lages (SC), consegui interligar três áreas: arquitetura e urbanismo, tecnologia e educação. Envolvendo estes três conhecimentos, surgiu a ideia de falar sobre o meio urbano com crianças e adolescentes para fomentar a participação deles em debates consistentes sobre a cidade em que vivem, pois futuramente eles assumiram novos papeis de agentes modificadores deste espaço.

Ao mesmo tempo que encontrei a necessidade de debater tais assuntos, houve uma preocupação em como abordá-los. Meu desejo era que o conhecimento não fosse imposto, mas que acontecesse de forma natural. Por isso, optei por uma metodologia ativa de aprendizagem: a criação de um jogo digital.

Para desenvolver o projeto, procurei por uma parceria que trabalhasse com as tecnologias necessárias. Por intermédio da minha orientadora, Doutora Arceloni Neusa Volpato, cheguei até a professora Márcia Regina Batistella, coordenadora do Projeto Novos Talentos SC Games, em Florianópolis (SC), que busca a inclusão digital de crianças e jovens.

Ela se mostrou interessada em apoiar a ideia e abriu as portas do projeto para trabalhar com o tema proposto durante a semana da oficina de férias de julho de 2019. Foi, então, que eu lancei para os alunos o tema “Cidades para Todos”, com a proposta de conhecer a visão deles sobre a cidade. A oficina aconteceu do período de 22 a 26 de julho de 2019, das 13h30 às 16h30, com 16 alunos e 2 professores.

No primeiro dia de oficina, foi proposta a temática a ser trabalhada para que então os alunos pudessem pensar na criação do jogo. A partir das discussões, nasceu o conceito de um município que seria habitado por duas espécies distintas: humanos e alienígenas. Após criarem o enredo da história, os alunos foram divididos em dois grupos que trabalharam em salas separadas.

Sete participantes ficaram responsáveis pelas ilustrações que utilizaram matérias de desenho e em seguida o Piskel, um software de edição de imagens. A programação ficou por conta de nove alunos que usaram o programa Engine Construct 2. Ainda que separados, a comunicação entre os grupos acontecia sempre que necessário, afinal, ela se fazia indispensável para o produto final que os alunos esperavam.

O jogo foi apresentado no último dia de oficina pelos próprios participantes, que o batizaram de Alimano. De acordo com eles, o nome representa uma mistura entre as palavras alienígenas e humanos, pois a cidade deveria ser habitada por ambos.

Ao iniciar o game, o jogador encontrará uma cidade destruída, e o Robô Zetris tem o objetivo de reconstruí-la para manter o nível de satisfação dos habitantes. Um ponto que me chamou atenção foi a escolha do personagem do jogador ser um robô, e não um cidadão de Alimano. O argumento dado pelos alunos foi que não queriam que fosse humano ou alienígena porque o jogador precisava ser imparcial e não favorecer nenhum dos moradores da cidade, o que mostra um senso de justiça e igualdade necessário para que todos tenham as mesmas oportunidades.

O jogo não possui vilão. Questionei os alunos, eles responderam que poderia ser uma pessoa ou um alienígena. Com isso, pude compreender que eles sabem o que é certo e errado. Eles têm a noção de que existe violência na cidade e que o mal não vem de fora, mas que está absorvido dentro da própria sociedade. No mundo real, eles entendem que as adversidades da cidade, como a violência, a poluição e as discriminações, são praticadas pelos próprios moradores.

Feita a apresentação, organizamos um bate papo com a turma. Em seguida, solicitei que eles pensassem na cidade em que moravam, então os questionei: “vocês acham que ela é para todos?” De maneira unânime, eles disseram que não, alegando que o município precisa ser melhorado. Como exemplos, eles apresentaram a situação dos moradores de rua, mostrando-se complacentes com a situação de vulnerabilidade social e clamando por transformação em busca de uma cidade mais justa.

O resultado mostra que as crianças e adolescentes possuem uma visão de cidade semelhante à nossa. Eles compreendem as necessidades, desafios e problemas presentes na vida urbana. Precisamos apenas de paciência e vontade para melhores interpretações da imaginação infantil.

Ao interligar a tecnologia, a educação e arquitetura e urbanismo de maneira interdisciplinar, criamos um campo vasto para discussões que podem contribuir para um olhar coletivo em torno das cidades brasileiras e da efetiva participação frente ao planejamento urbano.


Ketherin Laris Freitas

Cursa Mestrado Profissionalizante em Práticas Transculturais pelo Centro Universitário Unifacvest, conclusão em 2020. Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário Unifacvest (2018). Trabalha com projetos arquitetônicos e de interiores no âmbito residencial e comercial.

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educação mão na massa, jogos, tecnologia

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