Dentro e fora da sala de aula, a força de um projeto de literatura marca os 10 anos do Porvir - PORVIR
Crédito: Facebook Primeiro Livro/Divulgação

Inovações em Educação

Dentro e fora da sala de aula, a força de um projeto de literatura marca os 10 anos do Porvir

Luis Junqueira relembra a trajetória do Primeiro Livro, que começou em escolas, partiu para ações de impacto social e, hoje, transformou-se em empreendedorismo com base em tecnologia

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 25 de março de 2022

Porvir 10 anos.

“É uma experiência única e motivacional para toda a vida. Você aprofunda seus conhecimentos com a escrita, desenvolve autonomia e acredita em si. Para o Luis, sua equipe e o projeto Primeiro Livro, minha gratidão.” Essas palavras são de Laryssa Silva, uma das estudantes que participou do Projeto Primeiro Livro, desenvolvido por Luis Junqueira.

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Ao longo da história do Porvir, Luis foi personagem de muitas reportagens. Na primeira matéria, em 2014, o repórter Vinícius Bopprê nos leva até o ano de 2006, bem no início da trajetória de Luis na Escola do Sítio, em Campinas (SP): ali, o educador já dava mostras que gostaria de alcançar inúmeras salas de aula Brasil afora. Por isso, usou princípios como autonomia e liberdade como guias para criar o Primeiro Livro, uma proposta pedagógica que, ao longo de um ano letivo, incentiva que estudantes do ensino fundamental e médio possam escrever e pensar na diagramação de uma obra própria, desenvolvendo habilidades de escrita durante esse percurso.

Entre 2008 e 2013, o professor se dedicou ao trabalho em sala de aula, principalmente na capital paulista, incentivando que cada vez mais estudantes pudessem colocar em prática sua criatividade e, com isso, criar personagens, histórias, cenários e múltiplos enredos. “Em 2012, eu tinha certeza que eu queria expandir meus horizontes. Em vez de estar dentro de um quadrado de sala de aula, comecei a pensar em maneiras de olhar para diversos espaços ao mesmo tempo. Essa vontade de expansão resultou na criação de um negócio social.”

Assista ao vídeo de divulgação do projeto, de 2015.

Conexão São Paulo-Alagoas 
Em 2015, Luis colocou sua ideia na mala. Com o apoio da empresa InterCement (multinacional produtora de cimento), do Instituto Inspirare e da prefeitura de São Miguel dos Campos (AL), levou a iniciativa para o município alagoano, com pouco mais de 60 mil habitantes.

Valdirene Cavalcante, à época professora na Escola Municipal Rui Palmeira, conta que, quando Luis apresentou o projeto, logo de cara topou participar. Segundo a educadora, trata-se de uma proposta diferenciada, marcada na memória dos jovens que tiveram a oportunidade de escrever seu primeiro livro.

“Os alunos se sentiram partícipes do projeto. Para muitos deles, um ponto alto foi fazer as produções no Google Drive aqui em São Miguel, e a equipe do Primeiro Livro acompanhar o processo de São Paulo. Eles ficavam encantados com essa questão do feedback (retorno avaliativo) de forma instantânea”, explica Valdirene, hoje responsável pela formação de professores na Secretaria Municipal de Educação de São Miguel dos Campos.

Esse encantamento se estendeu a outras docentes e também às famílias dos estudantes, que participaram da noite de autógrafos, quando os jovens montaram uma exposição e puderam vender e presentear os visitantes com suas produções. Valdirene conta que, apesar de algumas histórias fictícias, predominaram as histórias reais. Um dos livros de destaque foi o “Mutilações”, que, posteriormente, os professores descobriram pela própria autora que ela se mutilava, pois não aceitava seu corpo e a cor de sua pele.

“O professor Luis Junqueira, o Instituto Inspirare e o projeto Primeiro Livro ficaram marcados em São Miguel com o desenvolvimento de uma iniciativa tão bela quanto essa”, reforça Valdirene.

Fundação Casa
Outro ponto alto da caminhada do professor Luis foi levar o Primeiro Livro para a Fundação Casa. Entre 2015 e 2016, ele teve a oportunidade de propor a escrita da obra para adolescentes cumprindo medidas socioeducativas em São Paulo. Segundo ele, esse foi um dos marcos que apoiou a construção de sua identidade. “Nesse movimento de transcender a sala de aula, entramos em um contexto que percebemos a existência de muitos tipos de salas de aula, e algumas delas são tabus.”

O professor comenta sobre sua insegurança e incerteza quanto à implementação da iniciativa, com todos os seus valores de liberdade de expressão e autonomia para escrita. Com o passar do tempo, ele e toda a equipe do projeto puderam ver que tudo isso também dava certo em um contexto delicado, mesmo com muitas críticas e entraves no meio do caminho.

Um dos participantes do projeto na Fundação foi Igor Abraão. À época com 18 anos, Igor, que se descreve como “um cara bastante otimista, persistente e carismático”, escreveu o livro “Dupla Realidade”.

“Meu livro retrata a minha vida, coloquei um resumo para que os leitores conhecessem o Igor. A escrita foi bem da hora. Mesmo com pouco tempo e com minha liberdade limitada, consegui me expressar bem. O Luis me ajudou com diversas ideias, lendo meu texto e me auxiliando nas pontuações, mostrando que a educação é a única saída”, comenta Igor, hoje com 24 anos.

Ele conta que a participação no projeto ajudou a vencer o desafio de superar o crime. “Hoje eu posso dizer não para o roubo e sou melhor por isso, porque nada vale a liberdade e seu direito de ir e vir.” O jovem também conta sobre a dificuldade que alguns amigos, presos depois da maioridade, enfrentam para conseguir emprego depois da passagem pelo sistema.

“Alguns até conseguem emprego e trabalham certo, mas quando pedem os antecedentes criminais, tiram a pessoa, alegando qualquer outra coisa, mas nós sabemos que por causa da passagem.”

Reunião de boas histórias 
Desenvolver o projeto Primeiro Livro durante tantos anos permitiu que Luis e sua equipe conhecessem pessoas que, mesmo jovens, são inspiradoras e têm muita história para contar. É o caso de João, que, em 2015, também estava cumprindo medida socioeducativa em um dos centros da Fundação Casa. Luis acompanhou seu processo de escrita de perto, e vivenciou sua “paixão inabalável” para escrever, rascunhar, editar e projetar a identidade visual de sua obra com empenho e carinho.

“Eu considerava muito bonita a forma como ele conseguia controlar seus hábitos. Nós naturalmente sentimos preguiça e desmotivação, mas ele foi uma pessoa que teve uma coragem muito grande de se posicionar e aproveitar aquele momento para de fato escrever o que tinha para dizer para o mundo. Também achei muito simbólico que a noite de autógrafos [realizada na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo] foi o último dia dele na Fundação. Depois disso ele saiu com a família. Foi bonito poder ver isso”, relembra Luis.

Outra pessoa que emociona o professor é Silas, que participou do projeto em uma organização de jovens com HIV. Mesmo vindo de um contexto desafiador e de violência, tendo, inclusive, que ir morar em um abrigo, Luis conta que Silas é uma das pessoas com mais ternura que já conheceu.

“Ele já sabia que sua doença estava em um grau avançado e por isso estava próximo da morte. A escrita do seu livro foi muito associada a esse processo da morte também. Com o que ele sofreu na vida, era para ter todo o tipo de rancor, mas ele conseguia viver e ter relações muito bonitas. Pudemos acompanhar sua força no hospital, sempre rodeado de pessoas que o amavam. Foi muito bonito ter conseguido escrever o livro até o final e projetar todas as partes. Logo depois ele faleceu. Para mim, o Silas é uma figura iluminada e, vira e mexe, penso nele para sentir força.”

Relembre a participação de Luis no TEDx São Paulo, no qual ele fala sobre os detalhes do projeto.

Primeiro Livro vira Letrus
Luis conta que, ao corrigir os textos de estudantes de uma sala de aula, por exemplo, é possível, ao longo do processo, identificar padrões de escrita. Entretanto, ler um texto de cada vez é um trabalho extra, demorado e, muitas vezes, não remunerado – porém necessário e que gera bons resultados em termos de aprendizagem para os estudantes.

Por isso, Luis e sua equipe construíram uma inteligência digital de leitura e revisão das produções textuais, encontrando erros comuns e padrões, com o objetivo de automatizar essa correção e otimizar o trabalho com a escrita de jovens.

Todo o esforço para desenvolver a Letrus – plataforma de produções de textos para o empoderamento dos professores e personalização da aprendizagem dos estudantes – rendeu frutos. Em 2019, como um projeto piloto, a ferramenta foi utilizada por metade das escolas estaduais de Ensino Médio do Espírito Santo como um esquema de preparação do texto dos alunos para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

A proposta deu mais do que certo: dados numéricos comprovaram que a experiência conseguiu reduzir a desigualdade de desempenho entre alunos de escolas particulares e estaduais. Durante cinco meses, o software mobilizou 400 professores e 12 mil alunos do 3º ano do ensino médio em 121 escolas públicas no Espírito Santo. De acordo com a Letrus, 90% tiveram um aumento nas notas das redações.

A experiência rendeu, ainda, um novo contrato para a empresa: a partir de 2022, a Letrus estará em todas as escolas estaduais de ensino médio do Espírito Santo em uma parceria direta com o governo. “Foram sete anos de trajetória para conseguirmos efetivamente nos tornarmos parte de uma política pública. Para mim foi algo como ‘nossa, está realmente dando certo, faz sentido o que estamos fazendo’”, comenta Luis.

O reconhecimento, entretanto, não é apenas nacional. O programa Letrus se tornou a primeira iniciativa brasileira a ganhar o Prêmio Rei Hamad Bin Isa-Al Khalifa, entregue desde 2005 pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para abordagens inovadoras de educação que usam novas tecnologias para expandir as oportunidades de aprendizagem para todos.

Próximos passos 
Impossível dizer o que o futuro reserva. Mas Luis, hoje empreendedor, compartilha algumas de suas metas. Uma delas é tornar todo o processo mais leve, dosando trabalho e cuidados com sua saúde. Já do ponto de vista profissional, delegar e entender o seu papel são dois grandes objetivos.

Para o Luis estagiário, que começou em uma única sala de aula, o professor dá a dica: confie no processo. “Vão surgir inseguranças no meio do caminho e incertezas que geram paralisações. Mas acho que, em certa medida, são inevitáveis. Olhando de onde estamos hoje, diria que essas coisas precisam acontecer, assim como o controle da ansiedade, confiando que você está no caminho certo.”


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leitura, ​​Porvir em 10 anos, projeto de vida

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