Economia e mundo do trabalho do amanhã dependem da matemática - PORVIR
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Inovações em Educação

Economia e mundo do trabalho do amanhã dependem da matemática

O uso da matemática no ambiente profissional traz um impacto na economia, pois muitas profissões requerem habilidades como estabelecer padrões e perceber índices de acerto.

Parceria com Mentalidades Matemáticas

por Ruam Oliveira ilustração relógio 7 de dezembro de 2021

A matemática não está somente nas continhas de dividir ou multiplicar. Ela está também na sua ida ao supermercado, na conversa que tem em um café com um amigo ou amiga, ou naquela receita de família que leva dois ovos, meia xícara de farinha de trigo e 200ml de leite. A matemática está, também, nas profissões onde menos se imagina encontrá-la.

No jornalismo, por exemplo, é comum ter que lidar com muitos dados, porcentagens e números de pesquisas. Em todos esses casos, é com a matemática que se faz necessário conversar para tentar explicar o mundo.

É quase como um lugar comum dizer o quanto a pandemia acelerou alguns processos. Entre eles, processos ligados à área econômica e profissional tiveram um crescimento e mudança perceptíveis. O uso da matemática no ambiente profissional traz um impacto na economia, pois muitas profissões requerem a habilidade de estabelecer padrões, correlações, margens de erro e índices de acerto. Os benefícios são perceptíveis em diferentes áreas e também estão ligados a uma maior geração de renda.


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Olhar para as muitas possibilidades que a matemática oferece é um jeito de avançar em direção ao futuro, em direção aos desafios que estão sendo apresentados neste momento para jovens e adolescentes – quer sejam aqueles recém-chegados ao mercado de trabalho, quer ainda estejam nas salas de aula de escolas e ou universidades.

Em outras palavras, a matemática é uma maneira de estruturar raciocínios sobre problemas ou situações ao redor. “Basicamente todas as profissões visam, em algum aspecto, resolver um problema. Diante disso elas se perguntam quais variáveis afetam esse problema, como elas estão relacionadas e de que forma que eu posso, ao longo do tempo, avaliar se as minhas soluções estão resolvendo o problema para o qual se propuseram”, afirma Carolina da Costa, sócia da Mauá Capital para Finanças Sustentáveis e Impacto.

O Center for the future of Work, da multinacional Cognizant, examina cenários possíveis em relação ao futuro do trabalho e destaca a presença cada vez maior da tecnologia na vida profissional de muitas pessoas. Anualmente, a instituição destaca uma lista de 21 profissões do futuro, entre elas estão algumas como gerente de negócio em inteligência artificial, investigador de dados, técnico em saúde informatizada. Em uma previsão para 2028 é que surjam outras profissões difíceis de imaginar atualmente, como curador de memória pessoal ou controlador de tráfego autônomo. Em todos esses casos, há a presença massiva de tecnologia e algoritmos que, portanto, carecem de matemática.

Então pensar a matemática não deve ser algo descolado da realidade ou que fica apenas preso a determinado tema ou assunto. Olhar a receita de bolo e enxergar matemática, faz bem na hora de construir um pensamento e uma mentalidade matemática.

“A base da matemática está em todo o processo humano de construção de entendimento dos problemas, construção de teorias e previsões de forma geral de como a gente, no final das contas, comunica essas ideias. Quanto mais clara estrutura mental, melhor vai ser a comunicação”, afirma Carolina.

Matemática no cotidiano, mesmo. Ter clareza desse cenário faz com que as pessoas enxerguem toda essa área do conhecimento com maior amplitude de possibilidades. O presidente do Conselho do Comércio Eletrônico da FecomercioSP e presidente da ABO20, Vitor Magnani, afirma que a ideia de compartimentalizar a matemática é algo que foi sendo construído desde a segunda revolução industrial, com a necessidade de que as pessoas fossem cada vez mais especializadas. Mas hoje essa postura é considerada ultrapassada.

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“Se a minha tendência é para a comunicação, se a minha e a minha vontade é de seguir uma carreira em biologia, não importa, você vai precisar da matemática para começar a construir e muito mais do que construir a resolução do problema, é dialogar com as outras pessoas”, diz Vitor, que participou do 3º Seminário de Mentalidades Matemáticas, ocorrido em outubro de 2021.

E como fica a economia?
Sabendo que a matemática está integrada em tudo, como olhar então para os aspectos profissionais e econômicos que ela pode suscitar? Qual o papel da matemática para alavancar a economia?

De um ponto de vista macro, para encarar um cenário de crise econômica é preciso formação. Carolina explica que o Brasil atualmente possui uma escassez muito grande não apenas de recursos para políticas sociais e inclusivas ou até suprimentos, como também há uma escassez de pessoas com as competências necessárias para gerar inovações capazes de ampliar a produtividade e propiciar uma redução de custos, o que tiraria o país do cenário de crise, por exemplo.

“A matemática vai ser cada vez mais chamada como ferramenta crucial para que se consiga gerar as soluções mais eficientes para os problemas que vão ser demandados aí soluções, principalmente nesse momento pós-covid que vai trazer escassez, vai trazer aumento de custo por justamente a escassez de alguns ingredientes”, pontua Carolina.

Vitor concorda quanto a necessidade de formação. Para ele, os saltos em inovação estão cada vez mais curtos do ponto de vista temporal, o que vai demandar ainda mais gente capacitada para operar ou desenvolver novas tecnologias. “Grande parte dessas tecnologias partem, sim, de conhecimentos matemáticos, como o desenvolvimento de sistemas, ciência da computação, profissionais que se formam em física ou matemática também”, disse.

A matemática como base para a ciência de dados e a integração de conhecimentos

Um outro ponto de contato entre a matemática e o cotidiano e que Carolina destaca, trata-se da importância de olhar cada vez mais para os impactos sociais e ambientais e pensar em soluções sustentáveis para o planeta.

“A matemática é crucial para que a gente consiga fazer previsões, calcular preços, calcular o impacto”, afirma. Carolina afirma que entender quais são as demandas e como compreender esses dados é o que fará com a sociedade crie uma perspectiva de crescimento, de desenvolvimento e, por conseguinte, de prosperidade.

A matemática ajuda em termos de economia porque também simplifica processos, destaca José Alberto Cuminato, diretor do CeMEAI (Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria/USP). Aproxima serviços úteis, como os vistos durante a pandemia de covid em relação à educação, ao comércio e à saúde. Todos eles trabalham dados, estatísticas e algoritmos. Ou seja, matemática.

“Estamos trabalhando num projeto com a cidade de Canaã dos Carajás, no Pará, para o desenvolvimento de um sistema inteligente de coleta de dados e aplicação de inteligência artificial, em que dados sobre saúde, sobre trânsito, sobre todas as atividades das cidades serão coletados e processados através de algoritmos de otimização e de estatística, para entregar ao cidadão informações sobre esses serviços e facilitar o acesso dos cidadãos aos serviços prestados pelo município”, diz José. “Nós temos um projeto em que estamos trabalhando esta vertente das ciências matemáticas no auxílio da cidadania”

Interpretar dados e relacionar a profissão na solução de problemas, também diz respeito à construção da cidadania.

Matemática e tecnologia
Em todos os lugares, claro que ela também estaria presente na tecnologia, convertida em algoritmos, códigos e os mais diversos comandos tecnológicos. Falar sobre inclusão digital, sobre como não apenas ter acesso a essas ferramentas tecnológicas como computadores e tablets, mas compreender a lógica que está por trás delas, é um elemento que favorece uma expansão de mentalidade e de leitura do mundo.

“Para lidar com o mundo contemporâneo é disso que os nossos alunos precisam. A educação digital é importante porque ela permite ao aluno galgar vários degraus intelectuais, permite o aluno processar dados, avaliar se aquela informação que está sendo apresentada a ele faz sentido ou não. Uma série de coisas que estão cada vez mais presentes na nossa vida social e também no mercado de trabalho”, afirma o professor Roberto Imbuzeiro, pesquisador do Instituto de Matemática Pura Aplicada (IMPA).

“Inclusão digital então é fruto de uma preocupação com a empregabilidade, com certeza, mas talvez de forma ainda mais fundamental, ela é fruto e se impõe porque é fundamental para a cidadania no século 21.”

A construção do indivíduo passa também por essa construção de cidadania. E entender o papel da matemática nesse contexto é uma forma de ampliar o potencial de cada estudante, assim como do próprio país.

Carolina alerta, no entanto, que o Brasil possui falhas estruturais no ensino da matemática, principalmente quando associados ao discurso de ensino de programação, visto que em muitos casos não há um ensino de base matemática. “Sem essa base de formação, fica muito difícil a gente evoluir para uma capacitação mais ampla de pessoas no que diz respeito às competências digitais. Ainda que a gente saiba que a evolução tecnológica vai ser a base, inclusive de recuperação econômica, pós pandemia”, diz Carolina. “A gente, como país, não vai conseguir competir, já existem rankings que mostram o quanto a gente está atrasado do ponto de vista de proporção da população com a mínima base para poder aprender as linguagens computacionais.”, completa.

Ela afirma que, sem um esforço massivo de formação de base e de mudança de mentalidade matemática, incluindo essa perspectiva ampla, o país tende a ficar ainda mais atrás.

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aplicativos, carreira, competências para o século 21, ensino médio, ensino superior, tecnologia

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