Em aula de Projeto de Vida, professora adapta jogo da 'batata quente' para ensinar direitos e deveres - PORVIR
Crédito: SrdjanPav/iStock

Diário de Inovações

Em aula de Projeto de Vida, professora adapta jogo da ‘batata quente’ para ensinar direitos e deveres

Em uma escola localizada em Biguaçu, município a 28 km de Florianópolis (SC), professora se baseia na Constituição e no ECA na disciplina de Projeto de Vida

por Ana Paula Schmitt Santiago ilustração relógio 9 de setembro de 2022

Eu sou uma professora nada tradicional. Busco, constantemente, despertar meus alunos para a aprendizagem. Por isso, costumo adaptar todas as minhas práticas pedagógicas, tanto da língua portuguesa quanto no Projeto de Vida, com três turmas, cerca de 95 alunos do ensino médio da Escola de Educação Básica Professora Tânia Mara F. E Silva Locks, localizada em Biguaçu (SC).

Uma dessas adaptações é a “Batata quente dos direitos e deveres”. Fiz uma releitura da famosa brincadeira da infância para trabalhar a dimensão social em Projeto de Vida. O primeiro passo foi consultar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) em quadrinhos, disponível no site Plenarinho, da Câmara dos Deputados. Também consultamos os artigos 5º, 6º e 7º da Constituição Federal, que dispõem sobre os direitos individuais, coletivos e sociais. Usamos tanto o documento online quanto com o livro impresso. Também trabalhei com a versão da Constituição disponível em áudio no site do Senado Federal.

Em grupos, durante quatro aulas, realizamos um mapa conceitual sobre a legislação, com foco nos direitos e deveres. O mapa foi elaborado em grupos, em folhas A4, com base na leitura e na pesquisa tanto do ECA quanto da Constituição. Os alunos analisaram os materiais de maneira livre, retirando dos textos os principais pontos. 

A partir dos debates nos grupos, fizemos uma grande roda de socialização para trocas. Grande parte dos alunos ainda não tinha manuseado a Constituição Federal, não sabia onde buscar e ter acesso à legislação e relatou “se sentir distante” do documento. Mas o acesso proporcionou aos alunos a sensação de pertencimento e participação do que é assegurado por lei a todos nós. Em relação ao ECA, o formato em quadrinhos facilitou bastante a compreensão. 

Após a leitura e a troca entre os alunos, surpreendi a turma com uma atividade lúdica, diagnóstica de aprendizagem. Trouxe uma bola de plástico para a sala de aula com vários papéis colados com cola quente e fita adesiva. Em cada um, havia um direito ou um dever. Eram 35 papeizinhos, relacionados à realidade e ao contexto escolar, como: respeitar a si e ao próximo, convivência familiar e comunitária, liberdade, saúde, acesso à cultura e à moradia, frequentar a escola…

Voltamos a nos organizar em uma grande roda. A bola circulava enquanto eu controlava uma playlist (lista de reprodução) musical, com canções que eles próprios escolheram. Quando eu parava a música, o aluno que estava com a bola lia um dos papéis em voz alta para o grupo, e precisava responder se aquilo era um direito ou um dever. Se não soubesse, os demais o ajudavam. A música seguia e a bola voltava a ser compartilhada. Criamos, assim, a “batata quente dos direitos e deveres”.

Resultados

Notei um ponto importantíssimo com a atividade da aula de Projeto de Vida: as relações que eles conseguem estabelecer com suas vivências e realidades. Com o exercício, muitos passaram a questionar e querer saber os “porquês” de termos tantos direitos e pouca efetividade ou cumprimento dos mesmos – isso tanto em relação à saúde pública oferecida na comunidade quanto a quantidade de aulas vagas por trimestre letivo. 

Acredito muito que com essa troca de conhecimentos, reconhecimentos, novos saberes, construiremos uma sociedade com maior equidade, justa, igualitária… para todos. Foi uma experiência incrível! Eles brincaram, aprenderam, debateram, se divertiram muito. 

Infelizmente, ainda temos uma distância muito grande entre o que temos garantido como cidadãos no texto constitucional e a realidade prática visualizada na nossa sociedade. Mas, com a abertura preconizada pelas dimensões do Projeto de Vida, é possível inserir, trabalhar e dar subsídios para que nossos estudantes possam se fortalecer com o básico de seus direitos e deveres. 

Acredito que práticas pedagógicas significativas, prazerosas aproximem os alunos da sala de aula, da escola. E o olhar do professor precisa estar nesse diferencial, nesse “termômetro” do encantamento e do prazer pela aprendizagem. Alguns chegam e dizem: “Nunca pensei que eu fosse gostar de Projeto de Vida!” ou “pensava que o Projeto de Vida seria chato, falaria sobre o que vou ser e não, é leve, divertido, passa muito rápido e eu já me reconheço nesse espaço.” Não tem nada que pague isso! 

O que é preciso para replicar esse projeto?

Bola, cola quente, aparelho de som, papéis coloridos, cartolinas, canetas coloridas, acesso à internet e à legislação (Constituição Federal e Estatuto da Criança e do Adolescente).


Ana Paula Schmitt Santiago

Graduada em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí e em Letras (Língua Portuguesa e Literaturas) pela Universidade Federal de Santa Catarina. Especialista em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina; em Mídias na Educação pelo Instituto Federal de Santa Catarina; em Gestão Escolar pelo SENAC/SP e Neuropsicopedadogia Clínica pela CENSUPEG. Atualmente, está se especializando em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil na PUC/RS.

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ensino médio, projeto de vida

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