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Inovações em Educação

Como é possível discutir o coronavírus por diferentes ângulos na escola

Das relações humanas ao mundo virtual, reunimos ideias para professores discutirem os impactos da pandemia COVID-19

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 13 de março de 2020

No último dia de 2019, a China alertou a Organização Mundial de Saúde sobre casos de uma pneumonia incomum em Wuhan, uma cidade portuária de 11 milhões de pessoas. Muitos dos pacientes eram trabalhadores do Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, que foi fechado no dia seguinte. Até aquele momento, o vírus, agora chamado de COVID-19, era desconhecido. Nesta quarta-feira, 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia, o que significa transmissão recorrente está ocorrendo em diferentes partes do mundo e de forma simultânea. A partir de agora, governos precisam traçar um plano sanitário para evitar mortes e proteger a população.

Para além das importantes recomendações de higiene e prevenção, as discussões a respeito do COVID-19 em sala de aula podem tomar uma proporção maior e aberta a todas as áreas do conhecimento. As estatísticas oficiais, a maneira com que a pandemia mexe com as relações humanas, o comércio e a política, além do risco representado pelas notícias falsas são temas que facilmente rendem mais que uma aula e podem virar artigos e projetos interdisciplinares, inclusive a distância, caso as aulas presenciais sejam interrompidas.

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Epidemias na história

O Brasil já passou por situações parecidas em outras epidemias? Como políticos reagiram? Como a população reagiu? Basta voltar ao início dos anos 1900 para encontrar a Revolta da Vacina, quando o Rio de Janeiro, então capital do país, vivia um crescimento populacional e enormes problemas de saúde pública, que causavam epidemias de varíola, febre amarela e até peste bubônica, causada por uma pulga de rato que dizimou a Europa durante a Idade Média.

Para contornar a situação, o prefeito Pereira Passos deu início a reformas urbanas que deixaram certas áreas da cidade parecidas com cidades da Europa ao mesmo tempo que promoveram uma dupla higienização, do esgoto e também social, levando a população mais pobre a procurar um teto na periferia da cidade. Contornar a situação também exigiu uma campanha obrigatória de vacinação da varíola liderada pelo médico Oswaldo Cruz, que incluiu a invasão de casas pela polícia e por agentes sanitários.

Na época, praticamente tudo exigia um comprovante de vacinação: arrumar emprego, viajar, casar e conseguir matrícula na escola. Pobres eram vistos como culpados pelas epidemias. O que hoje é cientificamente comprovado e uma política pública eficaz para prevenir doenças, na época a vacina foi tratada de outra forma. Deu no que deu: a revolta popular sacudiu a cidade.

– A Fundação Fiocruz tem um vídeo que explica em detalhes como foi a Revolta da Vacina

Além da Revolta da Vacina, outro momento importante da história do Brasil ligado a questões de saúde pública remonta o ano de 1918. O navio Demerara havia saído da Inglaterra em setembro daquele ano com passageiros carregando o vírus da gripe espanhola, que acabou deixando milhões de mortos pelo mundo.

Diferentemente de hoje, “naquela época não havia um microscópio potente que permitisse visualizar o vírus, não havia remédio específico”, pontua a historiadora. A entrevista completa está o UOL Tab e traça o cenário vivido por grandes cidades brasileiras durante a epidemia.

Distantes mais de um século dos dias atuais, ambos os casos trazem ensinamentos que podem ser discutidos com estudantes.

Comércio e industrialização

O COVID-19 também tem deixado portos chineses lotados de containers e minério de ferro. Depósitos locais, por sua vez, estão igualmente cheios porque não existem caminhões para levá-los aos portos e aeroportos. Fábricas estão paradas porque componentes não estão sendo entregues. Como o Brasil depende da produção das fábricas chinesas, se essa situação perdurar por um longo tempo, podem faltar telefones celulares, televisores e secadores de cabelo nas lojas brasileiras. Por que dependemos tanto do exterior para conseguir produtos industrializados? Por que o comércio internacional travou? Um bom início de conversa sobre como mercadorias circulam pelo mundo pode ser conferido neste vídeo sobre a história dos containers.

Cientista trabalhando em vacinas contra o vírusCrédito: Orientfootage/iStockPhoto

Cientista trabalhando no desenvolvimento de vacina

Papel da mulher na sociedade

A BBC publicou recentemente a notícia de que mulheres têm sido as maiores vítimas do vírus COVID-19. Além de uma questão de saúde pública, a epidemia pode suscitar discussões sobre o papel da mulher na sociedade.

Se as escolas param, quem é responsável por cuidar das crianças? As mães terão que adotar uma dupla jornada ou os pais vão dividir as responsabilidades? Durante a epidemia, existe o risco de as mulheres terem o salário reduzido por conta do envolvimento maior com as crianças, mesmo que na maior parte das vezes já recebam um salário menor do que homens que ocupam o mesmo cargo.

Quando olhamos para o setor de saúde, as mulheres também são maioria entre os profissionais. Na mídia chinesa, elas têm sido tratadas como santas e guerreiras. Mas será que isso é verdade? Muitas dessas profissionais precisam cumprir uma jornada extenuante, inclusive quando estão grávidas. Como levar a inclusão para políticas públicas? Quais os impactos do isolamento social para as diferentes profissões onde as mulheres são maioria? Mais um ponto para debate.

Veja uma seleção de filmes que mostram o protagonismo da mulher na sociedade

Vírus na tecnologia

Além da biologia, uma outra área que pode falar de vírus é a tecnologia. Da mesma maneira que um vírus que atinge humanos, um vírus de computador pode se propagar entre computadores e celulares. Da mesma forma como os vírus não se reproduzem sem uma célula hospedeira, os vírus de computador também não se reproduzem ou se espalham sem exista um aarquivo ou documento. Eles podem chegar até o usuário em anexos de email ou mensagens de texto, downloads de arquivos da internet e links em mídias sociais. Se no caso do COVID-19, o melhor a fazer é lavar as mãos, aqui o usuário precisa entender desde cedo a navegar de forma segura na internet, tomando precauções para não expor informações pessoais e tomando cuidado para não criar senhas óbvias demais como “senha” ou “123456”, que são bastante comuns. Fonte: Symantec

7 dicas para falar de internet segura na escola

Pesquisa mostra que juventude deseja participar de decisões na escolaCrédito: BT IMAGE / Fotolia.com

Conteúdos virais

A era das redes sociais trouxe consigo a expressão de “conteúdo viral”, aquele que passa de email em email ou de conta em conta de WhatsApp. O que faz uma história ser irresistível a ponto de alguém querer passar adiante, receber milhares (ou milhões) de compartilhamentos e visualizações? Para isso existem técnicas de narrativa (storytelling, em inglês), que trazem emoção, são provocativos e fazem pensar, dentre outras características.

Um perigo em relação aos tais conteúdos virais é que, infelizmente, eles podem ser notícias falsas e espalhar desinformação. É aqui que o professor entra como mediador para guiar os estudantes para uma fonte segura de informação e conteúdo.

Nova Escola: Conteúdos virais da internet: como levá-los para sua aula?

* Atualizado em 14/03/20


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aprendizagem baseada em projetos, coronavírus, ensino fundamental, ensino médio, socioemocionais, tecnologia