Responda rápido: você imagina o mundo sem internet? E a escola de hoje, ou a do futuro, sem ferramentas de inteligência artificial? A comparação ajuda a dimensionar uma mudança que já chegou ao planejamento, à avaliação, à gestão e à forma como os estudantes aprendem.
O debate, no entanto, vai além dos algoritmos. No “Bernoulli Reload 2026: Inteligências que impulsionam a educação”, a tecnologia dividiu protagonismo com liderança, cultura escolar, trabalho colaborativo e formação humana.
O encontro promovido pelo Bernoulli Sistema de Ensino reuniu cerca de 800 convidados de escolas particulares de diferentes regiões do Brasil e mais de 15 palestrantes em dez horas de programação, no Parque Mirante, em São Paulo (SP), na terça-feira, 11 de agosto. A proposta foi aproximar três dimensões: a inteligência individual, formada pela experiência e pelas habilidades de cada pessoa; a coletiva, construída na colaboração; e a artificial, capaz de organizar dados e apoiar processos.
Paulo Ribeiro, sócio-fundador e membro do conselho de administração do Bernoulli Educação, resumiu essa combinação. “Nós acreditamos que a combinação dessas inteligências vai ser o futuro da educação”, afirmou. Isso, porém, não desloca as pessoas: “A inteligência artificial não vai substituir o professor. Ela vai auxiliar o professor”.
Para a gestão escolar, a recomendação é começar pela necessidade, e não pela tecnologia. “Primeiro o gestor tem que pensar no propósito e não em qual ferramenta vai usar primeiro, mas no problema que quer resolver.” A partir desse diagnóstico, estruturam-se os testes, o acompanhamento dos resultados e a formação contínua das equipes.
Mediado pela jornalista Sheila Magalhães, diretora de jornalismo e âncora da BandNews FM, o encontro discutiu ensino, gestão, liderança e formação a partir de uma questão central: diante de ferramentas cada vez mais capazes, o que a escola pode mudar, o que precisa preservar e quais decisões continuam nas mãos das pessoas — individual e coletivamente?
Na abertura, José Carlos Mariano, diretor-executivo do Bernoulli Sistema de Ensino, trouxe a reflexão para a finalidade da instituição. Liderar envolve estratégia, processos, gestão de pessoas e finanças sem perder de vista a razão de existir da escola. “Antes de tudo, sobretudo no nosso negócio, a gente é escola”, afirmou.
Lucas Hanusch, presidente do Bernoulli Educação, propôs distinguir forma e função no ambiente educativo. “A sabedoria está em entender o que tem que permanecer e o que tem que mudar.” Para ele, embora a IA assuma tarefas cognitivamente repetitivas, ela não substitui a essência da experiência escolar. “A escola é um local onde a gente vai gerar curiosidade no aluno, onde o aluno vai se desenvolver como pessoa.”

Quando a resposta fica barata, a pergunta ganha valor
Essa discussão ganha contornos mais concretos quando chega à sala de aula. Na mesa “IA aplicada no processo pedagógico: o professor, o aluno e a máquina”, Marcos Raggazzi, diretor-executivo das unidades escolares do Bernoulli Educação, situou o tamanho da mudança: “A humanidade, de alguma forma, está vivenciando algo que vai mudar significativamente a forma de ser, de agir, de interagir no mundo”.
Em seguida, Raphael Martinelli, diretor de tecnologia do Colégio Catamarã, em São Paulo (SP), trouxe a questão para a aprendizagem. “Hoje, a gente consegue viver sem internet?”, provocou. Para ele, a pergunta já não é se a escola usará IA, mas como fará isso de acordo com seu projeto pedagógico. “Quando a resposta fica barata é porque a pergunta se tornou caríssima.”
Se as respostas chegam em segundos, cresce o valor de ensinar estudantes a formular perguntas, verificar informações, comparar argumentos e construir critérios. Rui Vicente Lucato, diretor do Grupo Educacional Cedu Verde, em Onda Verde (SP), reforçou a importância da mediação docente: “A IA pode sugerir, mas a decisão sempre vai ser humana”.
Rui chamou atenção ainda para o tempo que pode voltar às mãos do professor. “Se eu consigo fazer com que o meu professor desenvolva em 15 minutos algo que ele demoraria duas horas para fazer, eu estou devolvendo a possibilidade de ele ser professor novamente por uma hora e 45 minutos.”

Na mesa seguinte, mediada por Fabiane Gontijo, gerente de tecnologia educacional, a discussão saiu das promessas sobre IA e foi para o cotidiano escolar. Ana Paula Marques, diretora de operações das unidades escolares do Bernoulli, e Roberto Lemos, diretor de produtos digitais e tecnologia do Bernoulli Educação, mostraram como isso aparece no planejamento, na análise de dados e na organização do trabalho.
“A gente já passou da fase de discutir uso ou não da IA. O que a gente deveria discutir agora é uso da IA com intencionalidade”, disse Ana Paula. Roberto acrescentou outro requisito: critérios claros. “Quando a gente fala de autonomia, de uso e de intencionalidade, a gente toma muito cuidado para garantir que as respostas sigam nossos valores, nossos princípios e ética.”
Inovar começa por escutar
Se o uso da tecnologia precisa partir de um problema real, a escuta ganha peso na gestão. Rony Meisler, empreendedor, cofundador da marca de moda Reserva e hoje investidor e educador na área de negócios, sugeriu começar pelas pessoas, e não pela ferramenta.
“Quando você conversa com as pessoas, elas começam a falar quais são os problemas que elas têm, de que soluções elas precisam.” Aplicada à escola, a orientação é ouvir professores, estudantes e famílias antes de criar um projeto ou contratar uma solução. “O melhor vendedor não é aquele que sabe falar melhor, é aquele que sabe perguntar melhor.”

Rony também acredita que a expansão do digital tende a aumentar o valor da experiência presencial. “Nós vamos viver para ver que a experiência física vai custar mais caro do que a digital.” Para as escolas, a provocação é adotar a tecnologia sem empobrecer os encontros entre pessoas. Sua convocação foi “usar a inteligência artificial para potencializar o trabalho humano, não para matar o trabalho humano”.
A valorização das pessoas apareceu também quando ele falou de liderança e cultura. Ao citar a inspiração no empresário Abilio Diniz, resumiu o papel de quem lidera: “O bom líder, na estrutura hierárquica, desce aprendendo e sobe fazendo. Limpa. Escuta. Escuta e limpa”. Para Rony, valores só ganham peso quando orientam decisões concretas. “Fazer o certo dá certo.”
Dados não trabalham sozinhos
Se a tecnologia amplia a quantidade de informação disponível, o próximo desafio é transformar dado em decisão. Na mesa “Gestão de excelência pedagógica: equipes e projetos para melhorar resultados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)”, Paulo Ribeiro recomendou o acompanhamento de simulados, avaliações diagnósticas e indicadores para rever estratégias.
Carlos Barbosa, fundador e diretor-geral do Colégio Motiva Paraíba, em João Pessoa (PB), chamou atenção para quem interpreta essas informações. “Nós precisamos, diretores, estar cercados de uma equipe mais competente do que nós.” Resultado, nessa leitura, depende de profissionais capazes de identificar problemas e corrigir rotas.

Crédito: PlayP Brasil
A mesma lógica de distribuir responsabilidades apareceu no planejamento sucessório, debatido na mesa “Gestão da longevidade e sucessão: finanças e profissionalização”. Rodrigo Domingos, sócio-fundador e presidente do Conselho de Administração do Bernoulli, e Rebeca Fazzani, sucessora na gestão do Colégio Liceu Jardim, em Santo André (SP), enfatizaram a autonomia das lideranças. “Quando você centraliza tudo, você desempodera completamente a sua equipe”, disse Rebeca. Para Rodrigo, preparar uma liderança também significa abrir espaço para que ela decida: em determinado momento, é preciso “deixar a pessoa trabalhar”.
Aprender a vida inteira
A escola também precisa rever o que ensina e como prepara os estudantes para lidar com trajetórias menos previsíveis. Alex Dantas, empreendedor brasileiro radicado nos Estados Unidos e ligado a startups de hardware e robótica, projetou um cenário em que a IA ganha também capacidade de executar tarefas físicas. “Quem vai produzir no seu lugar? O robô”, provocou.

Alex propôs que educadores e gestores conheçam as ferramentas na prática, em vez de acompanhar a transformação a distância. “Se eu pudesse convencer vocês a fazer alguma coisa agora, é focar o seu tempo em estudar as ferramentas de inteligência artificial.”
O empreendedorismo entra nessa leitura como outra possibilidade de atuação. Alex defendeu que escolas e universidades preparem jovens não apenas para disputar empregos, mas também para criar projetos, negócios e o próprio trabalho.
Quando a IA pensa mais, o humano precisa pensar melhor
Se o trabalho muda, muda também o tipo de capacidade que a escola precisa para exercitar novas competências. Professora da Universidade de Stanford, também nos Estados Unidos, empreendedora e pesquisadora de transformação e resiliência, Victoria Woo alertou para o risco de terceirizar à IA não apenas tarefas, mas o próprio raciocínio.

“Se não usamos um músculo, perdemos esse músculo”, afirmou. Victoria comparou a IA ao GPS: delegar parte do esforço pode ajudar, desde que a pessoa continue capaz de avaliar a rota sugerida e escolher outro caminho. Aceitar respostas automatizadas sem verificar, editar ou formular opinião própria pode enfraquecer justamente aquilo que a escola precisa construir.
A proposta, portanto, não é rejeitar a tecnologia, mas usá-la sem abrir mão de julgamento, criatividade e autonomia. “Temos que saber quem somos antes de dar o próximo passo.”
Os estudantes já estão experimentando
Enquanto adultos discutem limites e possibilidades, estudantes já incorporam a IA à rotina de estudos. Na mesa “A alma das escolas”, as adolescentes Beatriz Fernandes e Luiza Ligório (do Colégio Bernoulli em Belo Horizonte) e Mariana Tedeschi (do Colégio Liceu Jardim em São Paulo) mostraram usos e expectativas diferentes.

“Aprender é transformar”, disse Beatriz. Luiza contou que recorre à IA para resolver dúvidas e buscar explicações complementares. Mariana marcou uma fronteira entre cópia e aprendizado: “Não é ‘vou jogar e vou pegar a resposta’. A gente quer aquela IA para usar como conhecimento.”
As falas deslocam o debate do simples acesso à ferramenta para aquilo que a escola ensina a fazer com ela: perguntar, confrontar, interpretar e decidir.
Quando uma prática pode inspirar outras escolas
Parte dessas questões já aparece em projetos desenvolvidos nas escolas. A primeira edição do Prêmio Referência Bernoulli reuniu mais de 150 projetos de escolas parceiras nos eixos de docência e gestão, com o objetivo de reconhecer experiências em que a tecnologia atua como apoio a desafios concretos da aprendizagem.
Renata Gazzinelli, diretora de inteligência pedagógica do Bernoulli Sistema de Ensino, afirma ser “uma oportunidade para valorizar aquelas pratas da casa, aquelas pessoas que fazem a diferença nas escolas parceiras”. A intenção também é fazer essas experiências circularem e inspirarem outras equipes: “Se faz diferença naquela comunidade, pode fazer diferença no Brasil todo”.
No Colégio São Paulo, em Holambra (SP), Caio Vinicius Detoni, vencedor do Prêmio Destaque Docente, transformou o estudo de Pré-História e evolução humana em uma atividade inspirada em Pokémon. A IA auxiliou na criação de atributos, ilustrações e diferentes possibilidades de participação, tornando o conteúdo mais acessível. “Muitas ferramentas podem ajudar o cotidiano do professor, de fato. Mas somente o educador tem a capacidade de educar”, afirmou.
O outro Prêmio Destaque Docente foi para Jonathan Henrique Semmler, que desenvolveu, com Rafael Castanha, no Colégio Koelle, em Rio Claro (SP), o KMUN (Koelle Model United Nations), uma simulação da Organização das Nações Unidas com 98 estudantes. A IA passou a traduzir e resumir relatórios oficiais, permitindo que os estudantes fizessem a checagem das fontes e se preparassem melhor para os debates. “Esse projeto não é um projeto meu, é um projeto de aluno para aluno”, disse Jonathan.
Na categoria gestão, Irmgard Hilda de Oliveira Quandt, do Colégio Froebel, em São Bento do Sul (SC), adotou IA para organizar e analisar pareceres descritivos da educação infantil e apoiar decisões pedagógicas. A ferramenta ajudou a identificar padrões, potencialidades e pontos de atenção nas turmas, sem substituir a leitura dos professores. “A curadoria é sempre humana e o olhar sempre atento dos professores faz toda a diferença.”
Clique na foto para conferir os professores e a gestora vencedora:

Crédito: PlayP Brasil


| 8 aprendizados do Reload 2026 para qualificar a gestão escolar |
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– Começar pelo problema, não pela ferramenta. Definir primeiro o que precisa melhorar na aprendizagem e na gestão. – Testar em pequena escala. Criar projetos-piloto, acompanhar resultados e ajustar antes de expandir para toda a instituição. – Formar professores e equipes. O uso da IA exige repertório, troca de experiências e curadoria. – Usar dados para decidir. A informação ganha valor quando orienta uma ação.Ouvir professores, estudantes e famílias. Necessidades concretas da comunidade escolar ajudam a definir prioridades. – Automatizar para devolver tempo. Reduzir tarefas repetitivas e burocráticas. – Preservar a decisão humana. A tecnologia pode sugerir e analisar; julgamento, vínculo e responsabilidade continuam com as pessoas. – Criar espaço para testar e corrigir. Incorporar IA exige acompanhar resultados e rever escolhas. |
O que os gestores levam para suas escolas
Para Caroline Pereira, diretora de comunicação e tecnologia da Escola Stagium, a facilidade de obter respostas prontas pela IA aumenta a importância das relações humanas. “A inteligência artificial já faz isso. Então, que tipo de aluno a gente vai preparar, como a gente vai formá-los?”
Paula Guolo, coordenadora pedagógica dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio da instituição, chamou atenção para a urgência. “A inteligência artificial já faz parte do nosso presente. A gente não pode mais falar em futuro.” A mudança vale também para os adultos: “Se a gente quer estudantes, jovens disruptivos, a gente também precisa ser.”
Na unidade da Escola Stagium, em Diadema (SP), Diego Silva, orientador educacional, reforçou que proibir o uso de IA é ineficaz. “A ferramenta só tem função se você aprende a usar ela da forma certa.” Para ele, o caminho passa também pela educação midiática: ensinar a verificar informações, reconhecer riscos e navegar com responsabilidade no ambiente digital.
No Colégio São Francisco Xavier, em Ipatinga (MG), Solange Prado, diretora, destacou que a IA pode agilizar processos sem colocar as relações em segundo plano. “No final das contas, o humano é o mais importante.”
Janísia Dornelas, coordenadora administrativa e financeira da mesma instituição, levou a questão para a gestão institucional. “A IA não é uma moda. Ela veio para ficar, e a maneira como a gente se posiciona é que vai dizer se ela vai colaborar com a gente ou se ela vai causar algum transtorno.” A escola já utiliza IA, por exemplo, em análise de contratos, dados e indicadores.
Irmã Celassi Dalpiaz, diretora do Colégio Santa Inês, em Porto Alegre (RS), colocou a formação docente no centro dessa mudança. “Se eu tenho um professor bem habilitado, ele vai fazer uma curadoria, vai inserir para as crianças coisas que realmente fazem sentido.” Para ela, a IA pode liberar “um tempo de qualidade das intervenções pedagógicas”.
Fabiola Falh, diretora de experiência do cliente do Bernoulli Sistema de Ensino, deixou a provocação para a volta para casa: “O Reload não pode acabar aqui. O Reload começa aqui, ele nos provoca para que a gente possa voltar para as nossas escolas e agir.” E completou: “Só ouvir, só ficar impactado, não vai trazer grandes resultados”.
Na perspectiva da gestão, Viviane Morelo, diretora comercial do Bernoulli, defendeu que as escolhas pedagógicas se distanciem da intuição e se apoiem em evidências. “Hoje a gente precisa ter informação, precisa ter dados para nos ajudar. A tecnologia vem agregar à estratégia das escolas. Ela não é uma competidora, ela é uma ferramenta para ajudar nesse dia a dia da gestão.”
Ela também fez uma ressalva importante: o uso de IA e dados não deve afastar a escola das famílias nem da relação direta com a comunidade: “A gente não quer tirar o olhar humano, o dia a dia das famílias, o contato com a direção.”

