Mais da metade dos professores brasileiros (56%) já utiliza inteligência artificial no cotidiano escolar, seja para preparar aulas ou para diversificar as estratégias de ensino. Os dados da pesquisa Talis (Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem) 2024, divulgada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), revelam também a outra face dessa realidade: 39% dos docentes declaram necessidade urgente de formação no uso de IA para o ensino e a aprendizagem.
📱Inscreva-se no canal do Porvir no WhatsApp para receber nossas novidades
Diante desse cenário, a formação docente na área precisa abandonar a lógica de encontros isolados. Como a tecnologia avança rapidamente e modifica dinâmicas sociais, o desenvolvimento profissional exige consistência e continuidade. É o que aponta o guia Recomendações para formação docente em inteligência artificial (IA) na educação Básica, lançado pela FTV (Fundação Telefônica Vivo), com execução técnica do Instituto IA.Edu e realização da Cátedra Unesco de IA Desplugada na Educação, coordenada pela UFAL (Universidade Federal de Alagoas).
“O letramento em IA para professores não pode ser algo pontual, porque estamos falando de uma área do saber e de uma tecnologia de propósito geral que está em constante evolução. Ela tem apresentado muitos desdobramentos, não apenas da tecnologia em si, mas também dos impactos que essas tecnologias provocam na sociedade”, aponta Tathyana Gouvêa, doutora em Educação, especialista em formação de professores e letramento em IA.
Além da urgência em relação à IA, a pesquisa Talis indica que as demandas dos educadores brasileiros cobrem outras frentes complexas: 48% apontam necessidade de capacitação para atender alunos com necessidades educacionais especiais e 37% pedem apoio para atuar em ambientes multiculturais ou multilíngues.
Tempo de formação continuada
O documento publicado pela FTV ressalta que a capacitação em inteligência artificial precisa levar em conta as competências digitais e as diretrizes da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) Computação. A proposta do guia, que contou com revisão técnica de Tathyana, vai além do treinamento operacional de ferramentas: envolve o uso profissional da tecnologia, o planejamento pedagógico e a análise crítica de seus impactos.
E promover essa integração dentro das escolas exige que os gestores considerem, desde a concepção do plano formativo, as condições materiais das redes de ensino. Sem infraestrutura adequada, equipamentos funcionais e conectividade, qualquer esforço pedagógico corre o risco de se tornar mera abstração.
“A formação docente em IA não deve se restringir aos objetivos de aprendizagem previstos para estudantes, mas contemplar, de forma integrada, a formação com IA, o uso profissional da IA e a compreensão crítica de seus impactos éticos, sociais e culturais, articulando essas dimensões ao desenvolvimento das competências digitais docentes e às políticas de formação continuada”, destaca o documento.
Ensinar com IA, sobre e criticamente
Uma importante diferenciação feita pelo guia está na maneira como a inteligência artificial é compreendida. “Quando a gente fala de formação de professores para inteligência artificial, trabalhamos com duas perspectivas complementares: ensinar com IA e ensinar sobre IA”, elenca Tathyana.
Ensinar com IA significa desenvolver um conhecimento mais técnico sobre as ferramentas e suas possibilidades pedagógicas. Ou seja, trata-se de compreendê-las, entender como funcionam e identificar as melhores formas de utilizá-las, seja no planejamento, junto aos estudantes ou em processos avaliativos.
Já ensinar sobre IA parte de uma visão crítica e reflexiva. Neste caso, o foco está em observar os impactos sociais dessas ferramentas. Tathyana destaca que ambas as perspectivas caminham juntas, mas dependem, necessariamente, das competências digitais dos educadores.
| Conceitos importantes |
|---|
| Ensinar sobre IA: compreender fundamentos, limites, possibilidades e impactos da IA, além das melhores formas de aprender sobre ela. Ensinar com IA: utilizar ferramentas baseadas em IA como apoio ao ensino, ao planejamento e à avaliação pedagógica. Compreender criticamente a IA: analisar implicações éticas, sociais, culturais e políticas, incluindo vieses algorítmicos, privacidade e justiça social. Usar a IA no desenvolvimento profissional: empregar recursos de IA em atividades como planejamento, produção de materiais, análise de dados educacionais e formação continuada. |
| Fonte: Recomendações para Formação Docente em Inteligência Artificial (IA) na Educação Básica |
“No Brasil, temos um corpo docente com níveis muito diferentes de competências digitais. Isso significa que alguns professores ainda não dominam conhecimentos básicos relacionados ao uso do computador e de aplicativos, enquanto outros já utilizam essas ferramentas com facilidade, mas ainda não conhecem as melhores estratégias pedagógicas para integrá-las ao processo de ensino e aprendizagem”, diz Tathyana.
Como estruturar uma formação docente em IA
O primeiro passo para garantir a qualidade de uma formação em IA é realizar um diagnóstico. O guia enfatiza que essa etapa deve combinar diferentes instrumentos: autoavaliação, indicadores observáveis, análise do contexto escolar, além da verificação da infraestrutura física e da conectividade.
“Nesse diagnóstico, é importante considerar também como desigualdades sociais, territoriais e étnico-raciais atravessam o acesso às tecnologias, os usos da IA e as experiências dos estudantes, de modo a orientar formações que reconheçam riscos de reprodução de vieses, exclusões e assimetrias históricas no contexto educacional”, destaca o guia.
Além do diagnóstico, é importante que as formações sejam ofertadas em diferentes modalidades (presenciais, síncronas e assíncronas), sempre adequadas ao nível de competência digital dos docentes, lembra Tathyana.
“Professores que ainda estão no nível 1 de competências digitais precisam, prioritariamente, de uma formação presencial. Nesse estágio, é necessário ensinar desde o uso do hardware até o funcionamento básico do computador, do celular e de outros recursos tecnológicos. Isso garante que o professor desenvolva as habilidades necessárias para, posteriormente, conseguir participar também de formações síncronas e assíncronas”, destaca.
Tathyana também ressalta que há vantagens nas formações assíncronas e síncronas. No caso da primeira, sobretudo a flexibilidade, especialmente considerando as rotinas diversas dos docentes. Em relação às formações síncronas, ela destaca a possibilidade de diálogo e interação entre pares, o que contribui para enriquecer o momento de aprendizado.
Outro elemento-chave é o monitoramento e a avaliação contínua. “O acompanhamento das formações é essencial para assegurar sua efetividade, relevância e alinhamento às necessidades reais dos docentes e das redes de ensino”, destaca o guia. Esse acompanhamento deve ocorrer em todas as etapas, não apenas ao final.
Por fim, o guia ainda reúne recomendações segmentadas por etapa de ensino, desde a educação infantil ao ensino médio. Para conferir as recomendações práticas clique aqui.

