Por que vale a leitura

Mostra como transformar memórias, plantas e saberes do bairro em investigação feita pelos próprios estudantes.

Apresenta um projeto interdisciplinar que conecta língua portuguesa, ciências, arte e tecnologia.

Traz ideias replicáveis, como entrevistas com moradores, mapa afetivo, revista, registros botânicos e jogo interativo.

Quantas histórias cabem em um quintal? Uma mangueira pode guardar lembranças de infância. Um pé de arruda pode reunir saberes transmitidos entre gerações. Uma jabuticabeira pode estar ligada à memória de uma família.

Foi a partir dessas relações entre plantas, memória e território que desenvolvemos, em 2025, o projeto “Impressões Botânicas: a natureza a partir das memórias afetivas dos moradores do bairro Jardim das Alterosas, Betim (MG)”, com 74 estudantes de três turmas do 8º ano da Escola Municipal José Miranda Sobrinho, em Betim (MG).

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O Jardim das Alterosas tem cerca de 32 mil habitantes e fica a aproximadamente seis quilômetros do centro de Betim. Foi nesse território, marcado por transformações urbanas e por memórias ligadas aos quintais, às árvores e às plantas cultivadas pelas famílias, que encontramos o ponto de partida para o projeto.

Somos professores de língua portuguesa, ciências e artes e queríamos aproximar o currículo da realidade dos estudantes. A proposta foi investigar as plantas presentes no bairro, seus usos e as histórias relacionadas a elas. O percurso passou por sensibilização, pesquisa de campo, identificação de espécies, produção textual e artística, construção de um mapa afetivo, elaboração de uma revista e criação de um jogo de tabuleiro com recursos eletrônicos.

Plantas e memórias do bairro como ponto de partida

Começamos com a questão: como podemos valorizar e dar visibilidade ao patrimônio cultural do nosso bairro?

Como atividade inicial, assistimos ao filme “Narradores de Javé”, dirigido por Eliane Caffé, e realizamos uma roda de conversa sobre memória, oralidade, território e registro de histórias. O longa apresenta uma comunidade ameaçada de desaparecer sob as águas de uma barragem e moradores que recorrem ao registro da própria história para tentar preservar o lugar. A aproximação com o projeto estava na valorização da memória e das vozes dos moradores na construção da história de um território.

A discussão trouxe lembranças de árvores onde familiares brincavam, hortas cultivadas pelos avós, plantas usadas em receitas ou preparos caseiros e flores associadas a pessoas e acontecimentos. 

Nas primeiras conversas, percebemos como as plantas apareciam nas histórias, nas práticas familiares e nos saberes dos moradores. A partir daí, definimos o eixo da investigação: plantas, memória, patrimônio e comunidade.

Pesquisa nos quintais conecta estudantes e moradores

Antes das saídas, trabalhamos em língua portuguesa a elaboração de perguntas, o gênero entrevista, a escuta e as formas de registro.

Organizados em grupos, os estudantes entrevistaram moradores do Jardim das Alterosas e documentaram as conversas por meio de anotações, fotografias, áudios e vídeos. Também aplicaram questionários, registraram espécies, levantaram usos das plantas, receitas e práticas transmitidas entre gerações.

Ao todo, foram ouvidos 17 moradores e identificadas 61 espécies vegetais, entre frutíferas, hortaliças, plantas medicinais e aromáticas. As visitas permitiram observar os modos de cultivo nos quintais.

A pesquisa também revelou mudanças no bairro. Os estudantes conheceram o Riacho das Areias e ouviram relatos de um Jardim das Alterosas antes mais arborizado, com maior presença de mangueiras e ipês. Dona Maria da Penha contou que, quando criança, sonhava em ter uma jabuticabeira; hoje cultiva uma no quintal e compartilha os frutos com as crianças.

Dona Sebastiana, carinhosamente conhecida como Dona Tininha, é uma das moradoras mais antigas do bairro e bisavó de Lucas, que aparece na foto principal deste texto. Em seu quintal, cultiva hortaliças com cuidado e mantém viva uma relação com a terra construída ao longo dos anos. Cada planta guarda parte dessa história e também dos momentos partilhados com o bisneto. O que brota dali é alimento e vínculo entre gerações.

Estudantes trabalham com folhas e imagens durante uma atividade de fitotipia, técnica que utiliza a luz do sol para formar imagens diretamente nos vegetais. Crédito: Arquivo pessoal


Estudo das plantas revela a biodiversidade do bairro

De volta à escola, organizamos as informações coletadas. Nas aulas de ciências, os estudantes fizeram a identificação botânica das plantas e pesquisaram nome popular, nome científico e origem das espécies registradas. Também sistematizaram fotografias e relatos sobre os usos das plantas.

O projeto tambémA pesquisa também permitiu discutir biodiversidade, sustentabilidade e as transformações ambientais do Jardim das Alterosas a partir dos relatos sobre a redução de árvores e áreas verdes.

Antotipia e fitotipia aproximam arte e ciências

Em arte, os estudantes fizeram desenhos de observação das espécies e experimentaram antotipia e fitotipia.

A antotipia é uma técnica que utiliza pigmentos naturais extraídos de folhas, flores, raízes ou outras partes das plantas. Esses pigmentos são aplicados sobre papel ou tecido e expostos à luz, que provoca alterações na cor e ajuda a formar a imagem. No projeto, os estudantes acompanharam a extração dos pigmentos, sua aplicação e a ação da luz sobre o material.

Já a fitotipia utiliza a própria folha ou flor como suporte. Um positivo fotográfico transparente é colocado sobre o vegetal e exposto ao sol. As áreas protegidas preservam mais a cor, enquanto as partes expostas clareiam, formando a imagem diretamente na planta.

As duas técnicas relacionaram arte, ciências, natureza e memória. Em um dos textos da revista, um estudante associou a experiência com a fitotipia a uma fotografia antiga do avô e refletiu sobre a diferença entre a imagem, que se altera com o tempo, e as lembranças que podem permanecer.

Além dessas experiências, os alunos produziram ilustrações inspiradas nas espécies encontradas no bairro. Parte delas compôs a “Galeria Botânica” da revista que criamos juntos, intitulada “Impressões Botânicas”.

Estudantes criam revista sobre plantas e memórias

A revista estava prevista desde o início como uma forma de mostrar que a língua portuguesa também serve para investigar, registrar histórias e se comunicar fora da sala de aula. Também planejamos conteúdos digitais, como vídeos e textos para o Instagram do projeto, trabalhando diferentes linguagens e situações reais de comunicação.

Fotografias, vídeos e áudios das entrevistas foram reunidos em um drive colaborativo acessível aos estudantes. Antes da escrita, todos ouviram os áudios, fizeram anotações e participaram da seleção do material que serviria de base para os conteúdos da revista.

Organizamos os estudantes em grupos, considerando habilidades e interesses. Eles produziram textos, ilustrações e pinturas e participaram das decisões sobre a composição das páginas, a relação entre texto e imagem e a escolha de elementos visuais. A diagramação foi construída coletivamente no Canva; os ajustes técnicos e o fechamento para publicação contaram com trabalho docente e apoio profissional.

Mapa afetivo reúne histórias e saberes do território

Como muitas histórias estavam associadas a lugares específicos, os estudantes construíram um mapa afetivo do Jardim das Alterosas. O critério para incluir um ponto foi sua relação com as narrativas dos moradores: casas, quintais, ruas e outros espaços onde uma planta era cultivada, uma prática acontecia, uma história de família havia ocorrido ou um lugar estava associado a uma memória importante.

A versão final reuniu os lugares mais relacionados às memórias, aos saberes e às práticas registradas nas entrevistas. Mais do que localizar pontos do bairro, o mapa buscou representar os significados atribuídos a eles pelos moradores.

Os materiais coletados também foram retomados em outros formatos.

Parte dos saberes dos moradores foi organizada no Almanacão Popular, seção da revista que reuniu curiosidades, usos das plantas, receitas e práticas ligadas à cultura e à memória do bairro, como chá de alfavaca, adubo feito com borra de café, vitamina de banana e doce de figo.

As plantas identificadas também passaram a integrar um perfil do projeto no iNaturalist, plataforma usada para registrar observações da biodiversidade. Os desenhos dos estudantes foram reunidos em uma exposição virtual no Padlet, e textos, imagens e vídeos produzidos durante o percurso foram divulgados no Instagram do projeto.

Jogo com Arduino dá voz às memórias dos moradores

A participação no prêmio Liga STEAM 2025 levou esse acervo para uma nova etapa.

A Liga STEAM trabalha com a integração entre ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática, articulando essas áreas em torno de problemas, investigações e produções.

A partir das entrevistas, do mapa afetivo e das informações reunidas sobre o Jardim das Alterosas, os estudantes idealizaram um jogo de tabuleiro que combinava memória, território e tecnologia.

Para construir o protótipo, trabalharam com circuitos elétricos, componentes eletrônicos e programação em Arduino. Também selecionaram conteúdos da pesquisa e gravaram áudios com relatos dos moradores e informações sobre a região.

Os registros sonoros foram incorporados ao jogo. Ao apertar um botão, o participante podia ouvir depoimentos e informações sobre o bairro, retomando no tabuleiro o material reunido nas entrevistas.

Depois de pronto, o jogo foi apresentado a estudantes do 6º, 8º e 9º anos da escola, ampliando a circulação das histórias reunidas durante a pesquisa.

Em 2026, Alice Borges, Luís Otávio Sá, Miguel Corrêa e Yasmin Santos deram continuidade ao desenvolvimento do jogo. O trabalho ficou entre os seis selecionados da etapa estadual da Liga Jovem Sebrae e foi apresentado na FEBRAT (Feira Brasileira de Trabalhos de Iniciação Científica na Educação Básica e Técnica) e na UFMG Jovem, evento da Universidade Federal de Minas Gerais que reúne trabalhos desenvolvidos por estudantes da educação básica.

Com flores, folhas e fotografias, estudantes experimentam técnicas de impressão que aproximam arte e ciências no projeto Impressões Botânicas. Crédito: Arquivo pessoal

Interdisciplinaridade e BNCC no projeto sobre plantas

As atividades aconteceram em sala de aula, laboratório, pátio, ruas e quintais do bairro, com uso de celulares, câmeras, materiais vegetais, pigmentos naturais e componentes eletrônicos.

Em língua portuguesa, trabalhamos entrevista, oralidade, pesquisa, produção textual e revisão; em ciências, botânica, biodiversidade, sustentabilidade, investigação científica e circuitos elétricos; e, em arte, desenho, fotografia, antotipia, fitotipia e composição visual. A produção do jogo incorporou ainda conhecimentos de matemática, engenharia e tecnologia.

O percurso foi relacionado à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), documento que define as aprendizagens essenciais da educação básica. Foram mobilizadas competências ligadas a conhecimento, pensamento científico, crítico e criativo, repertório cultural, comunicação e cultura digital, além de habilidades específicas dos componentes trabalhados.

Estudantes e educadores participantes do projeto Impressões Botânicas, que conectou o estudo das plantas às memórias e aos saberes da comunidade de Betim (MG). Crédito: Arquivo pessoal

O que aprendemos com o processo

Conciliar saídas de campo, pesquisa, produção artística, edição e programação com a rotina da escola exigiu reorganização do cronograma. A aprendizagem de eletrônica e a sistematização dos áudios, fotografias e entrevistas também demandaram tempo.

Nesse processo, contamos com o apoio do professor Enderson Cruz, do projeto Rolê Maker, do CEFET-MG (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais), que realizou oficinas com os estudantes, e do professor de arte Breno Amaral, que também é fotógrafo e orientou os alunos sobre os registros fotográficos.

A comunidade participou abrindo casas e quintais e compartilhando plantas, fotografias, receitas, histórias e informações. Com isso, vizinhos e familiares passaram a integrar a pesquisa como fontes de conhecimento sobre o território.

As produções circularam entre aproximadamente 650 alunos da escola, além de famílias e moradores. No pensamento científico, observamos que os estudantes passaram a levantar perguntas, observar, registrar informações, identificar espécies, comparar relatos e buscar explicações para as transformações do bairro.

Também percebemos avanços no letramento. A leitura e a escrita passaram a ocorrer em situações reais: os estudantes ouviram entrevistas, fizeram anotações, selecionaram informações, produziram diferentes gêneros textuais e consideraram os leitores de suas produções. A revista, os conteúdos digitais e o jogo deram finalidade concreta à comunicação.

Os estudantes também registraram em vídeo suas percepções sobre a participação no projeto e as aprendizagens construídas durante o percurso.

Como adaptar a proposta?

A proposta pode ser adaptada a outros contextos sem repetir os mesmos produtos ou recursos. O ponto de partida é uma pergunta ligada ao território. Depois, os estudantes podem pesquisar, entrevistar moradores, organizar e verificar as informações, relacioná-las aos conteúdos curriculares e escolher como compartilhar o conhecimento produzido com a comunidade.

A devolutiva pode ser uma revista, mapa, podcast, exposição, vídeo ou outro formato possível na escola. O jogo com Arduino foi um desdobramento do nosso percurso, não uma condição para o projeto. O essencial é que uma etapa leve à seguinte e que o território faça parte da aprendizagem. Uma pergunta pode abrir o caminho: o que existe ao redor da nossa escola que ainda não investigamos com os estudantes?

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Professora de língua portuguesa da rede municipal de Betim (MG), é licenciada em letras pela UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). Desenvolve práticas e projetos que aproximam literatura, cultura, tecnologia e território, criando experiências...

Graduada em licenciatura em desenho e plástica e bacharel em cinema de animação pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). É pós-graduada em artes e tecnologias contemporâneas e mestre em ensino de arte. Em sala de aula, desenvolve práticas...

Licenciado em ciências biológicas e mestre em biologia vegetal pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Atua há mais de 20 anos na educação pública em Minas Gerais, com experiência no ensino de ciências e no desenvolvimento de projetos...