Em 2021, escrevi aqui no Porvir talvez um dos primeiros textos de divulgação sobre a importância do desenvolvimento de competências climáticas na educação básica.

Apesar de o conceito ainda ser jovem e estar em evolução, na teoria e na prática, a visibilidade (e urgência) do tema das mudanças climáticas, impulsionada pela realização da COP 30 no Brasil em 2025, tem levado a um aumento de interesse e de iniciativas que visam apoiar educadoras e educadores a agir a favor do clima a partir do local onde estão. Tudo isso é muito positivo, considerando que 2023, 2024 e 2025 foram os anos mais quentes de nossa história recente.

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Letramento climático: entender o problema

Ao analisar algumas dessas iniciativas em educação climática, dois conceitos complementares aparecem com frequência, mesmo sem serem claramente citados: letramento climático e competências climáticas. Embora relacionados, eles não são a mesma coisa, e entender como dialogam ajuda a pensar o papel da escola no enfrentamento da mudança do clima.

Antes de falar especificamente sobre eles, é importante destacar os conceitos de letramento científico e competências gerais presentes na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que têm estreita relação com os conceitos relacionados ao clima.

O letramento científico “envolve a capacidade de compreender e interpretar o mundo (natural, social e tecnológico), mas também de transformá-lo com base nos aportes teóricos e processuais das ciências.”

As competências envolvem“[…] a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.”

Competências gerais da educação básica

Na mesma direção, o letramento climático pode ser considerado um ponto de partida. 

O relatório de 2009 da NOAA (agência do governo americano responsável pelas previsões do tempo e pelo estudo dos oceanos e do clima) coloca que uma pessoa letrada climaticamente:

• compreende os princípios essenciais do sistema climático da Terra;
• sabe avaliar informações cientificamente confiáveis sobre o clima;
• comunica-se sobre o clima e as mudanças climáticas de forma significativa; e
• é capaz de tomar decisões informadas e responsáveis em relação a ações que podem afetar o clima.

Ou seja, o conceito diz respeito à capacidade de compreender o que são as mudanças climáticas, por que acontecem, quais as suas consequências e como afetam diferentes regiões e populações.

Uma pessoa letrada climaticamente é capaz de entender notícias sobre eventos extremos, reconhecer a relação entre atividades humanas e aquecimento global, compreender desigualdades e injustiças, bem como distinguir informações confiáveis de desinformação. Trata-se de uma base de conhecimento e compreensão.

Letramento climático está, portanto, relacionado à expressão “sobre o clima”.

Competências climáticas: transformar conhecimento em ação

De forma geral, muitas iniciativas e materiais têm se restringido ao letramento climático, o que é fundamental, mas é insuficiente para um enfrentamento real e coletivo desse desafio global. Saber não garante, por si só, que alguém vá agir. É aqui que entram as competências climáticas. Elas ampliam o letramento ao integrar conhecimento, desenvolvimento de habilidades, valores e atitudes, criando e/ou ampliando capacidades de ação.

Esta abordagem valoriza visões de mundo mais complexas, sistêmicas e empáticas, atributos essenciais para compreender por que e como lidar com a crise climática, considerando seu contexto, possibilidades e capacidades.

Competência climática está, portanto, relacionada às expressões “no clima e para o clima”.

No artigo “Identificando estratégias eficazes de educação climática: uma revisão sistemática da pesquisa”, publicado em 2019, a pesquisadora Martha Monroe e colegas mostram que programas eficazes de educação climática costumam aproximar o conteúdo científico das experiências locais dos estudantes, além de criar oportunidades concretas de participação e ação.

Essa dimensão prática também se conecta a aspectos emocionais e sociais da aprendizagem. A partir dos estudos de Albert Bandura sobre autoeficácia e da pesquisa de Kathryn Stevenson e colegas, publicada em 2014 no artigo “Superando o ceticismo com educação: influências interativas da visão de mundo e do conhecimento sobre mudanças climáticas na percepção de risco climático entre adolescentes”, é possível compreender que o engajamento climático não depende apenas de saber o que fazer. Ele também envolve sentir-se capaz de agir, especialmente quando essa ação acontece de forma coletiva.

O papel da escola na formação para a ação climática

A partir desses pontos, é possível observar a evolução da complexidade envolvida no desenvolvimento de competências climáticas e, claro, do papel da escola no enfrentamento da crise climática. Com base nestes novos referenciais, tivemos a oportunidade de atualizar o arcabouço conceitual do Movimento Escolas pelo Clima, que se dedica, desde 2019, a levar educação e ação climática de qualidade para escolas de todo o Brasil.

Diálogo entre componentes de letramento climático e desenvolvimento de competências climáticas no Movimento Escolas pelo Clima

Aqui fica ainda claro que o objetivo final não é somente entender o problema, mas agir sobre ele. A mitigação significa reduzir as causas das mudanças climáticas (como diminuir emissões de gases de efeito estufa). A adaptação envolve se preparar para os impactos que já estão acontecendo. E justiça climática chama atenção para o fato de que os impactos das mudanças climáticas não são iguais para todos.

Assim, a relação entre os dois conceitos pode ser feita de forma simples:

  • O letramento climático é a base (compreender o problema).
  • As competências climáticas são o passo seguinte (saber agir sobre o problema, de forma crítica, ética e colaborativa).

Essa visão é cada vez mais defendida na literatura internacional. O relatório de 2023 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), por exemplo, propõe que a educação deve preparar estudantes para compreender o mundo e atuar diante de problemas complexos e diferentes níveis de incertezas, como a crise climática.

No fim das contas, a imagem sintetiza uma ideia poderosa: educar para o clima não é apenas ensinar sobre o clima, é formar pessoas capazes de transformar de forma responsável a realidade em que vivem. Essa evolução torna-se urgente frente à velocidade e intensidade dos impactos das mudanças do clima em todo o mundo.

Diretor educacional da Reconectta e pós-doutor pelo Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo)

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