A melhor arma contra o rapto das meninas nigerianas - PORVIR
por Patrícia Gomes

Inovações em Educação

A melhor arma contra o rapto das meninas nigerianas

Projetos e pessoas mostram que estimular o empoderamento feminino é uma forma de defender o direito à educação de mulheres

por Redação ilustração relógio 9 de maio de 2014

NOSSO OLHAR – No dia 14 de abril, na calada da noite, um grupo de extremistas islâmicos invadiu o dormitório de uma escola de educação de meninas numa cidade pequena da Nigéria. Queimaram suprimentos, destruíram o prédio e levaram com eles, à força, mais de 200 jovens, todas entre 16 e 18 anos. Sumiram sem deixar rastros. Foi preciso que transcorressem algumas semanas para que o Ocidente se desse conta da barbárie diante de seus olhos: meninas que haviam recorrido à única instituição de ensino secundário daquela região do país haviam sido raptadas para serem vendidas – uma prática comum no país.

Não foram uma nem duas meninas. Foram 223. Ou 276, a depender de quem conta. Algumas aparentemente conseguiram fugir, mas as informações ainda são desencontradas. Diz-se que elas estejam sendo vendidas em moeda local pelo valor equivalente a US$ 15 para levantar recursos para o grupo radical Boko Haram, que quer dizer “a educação ocidental é pecaminosa”. E ainda há relatos de que as meninas cheguem a sofrer 15 abusos sexuais por dia.

A primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, também aderiu à campanhaReprodução

Diante de uma violência dessas proporções contra o direito que qualquer menina tem à educação, o Porvir não poderia deixar de tentar dar sua contribuição. Enquanto, por um lado, falamos com entusiasmo de tecnologias que podem promover um aprendizado mais significativo; por outro, temos a consciência de que inovar em educação em muitos lugares do mundo – e muitas vezes aqui mesmo, no Brasil – ainda é criar garantia de acesso. Como dizemos desde a primeira matéria que publicamos dois anos atrás, “inovar em educação é empoderar as pessoas para exercer suas liberdades”.

E não tem liberdade maior do que ter o direito de estudar e fazer escolhas, como já dizia a professora Eda Luis, do Cieja Campo Limpo: “Você sabe por que você precisa estudar? Não é para ter um diploma, é porque conhecimento te dá poder. Te ajuda a argumentar, a dizer o que você quer, a decidir a sua vida”. Por isso, recuperamos matérias que mostram que outra realidade é possível. De histórias individuais a projetos de empoderamento feminino, todos começaram pelo simples sonho de algumas meninas de poder estudar e têm impactado mais pessoas na luta pela causa.

Talvez a voz mais eloquente nesse debate seja a da jovem Malala Yousafzai, hoje com 16 anos. Aos 14, ela sofreu um atentado no caminho para a escola, no Paquistão. O ônibus onde estava foi interceptado por extremistas que atiraram contra a menina porque, apesar da pouca idade, ela já se destacava como liderança na defesa do direito da educação das meninas. Depois do atentado, Malala passou a morar no Reino Unido, de onde continua a liderar campanhas. Já lançou um fundo e conseguiu, no ano passado, assegurar o investimento de US$ 7 milhões para ampliar o acesso e melhorar a qualidade de aprendizagem das meninas que moram em áreas remotas paquistanesas.

Malala saiu em defesa das meninas nigerianas, a quem chamou de “irmãs”. Em seu Twitter, aderiu ao apelo internacional #bringbackourgirls, que em português tem sido representado pela hashtag #devolvamnossasmeninas. Em entrevista à emissora ABC, lamentou a interpretação que o grupo islâmico faça do Corão. “O Boko Haram não entende o Islã. O Islã diz que todos devemos ter acesso ao conhecimento e à educação, que devemos ser gentis e tolerantes uns para com os outros. Esse grupo extremista está negando esse fato”, disse a jovem (veja a entrevista completa, em inglês).

Reprodução

 

O documentário Girls Rising, lançado no ano passado no Brasil, também se soma na defesa pela educação e o empoderamento de meninas, mostrando que a questão é um desafio global. O filme desnuda uma realidade alarmante: existem 66 milhões de meninas fora da escola, a principal causa de morte de jovens entre 15 e 19 anos é o parto e que 14 milhões de garotas se casam com menos de 18 anos no mundo. Para trazer um fio de esperança, Girls Rising narra nove histórias comoventes de meninas de diferentes países que têm um sonho em comum: estudar e construir seu futuro.

“Ainda bem que não tem nada disso no Brasil. Que aqui as meninas têm o direito de estudar”, podem pensar alguns. Talvez seja cedo para dormirmos sossegados. As meninas brasileiras, especialmente as que vivem sob maior risco socioeconômico, também têm um pouco das nigerianas quando são obrigadas a assumir tarefas de casa desde cedo e não podem se dedicar exclusivamente aos estudos. Ou quando precisam trabalhar fora de casa, fazer faculdade à noite e ainda cuidar da família, assumindo tantas responsabilidades que quase não cabem em um dia de 24 horas. Na cidade São Paulo, um grupo de jovens da periferia se reuniu para discutir e defender seus direitos, inclusive o de ter uma educação digna. É possível acompanhar as discussões do grupo Nós, mulheres da periferia e a saga diária de suas participantes pelo Facebook.

Na Nigéria, no Paquistão ou em Paraisópolis, o direto à educação deveria ser garantido.  Para meninas, meninos, gays, pretos, amarelos, judeus, muçulmanos. Para todos, sem distinção. Algumas pessoas e projetos inspiradores estão mostrando que outro caminho é possível e que cada um de nós pode fazer um pouco para que #devolvamnossasmeninas.


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