Neurociência coloca em xeque a aula tradicional - PORVIR
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Inovações em Educação

Neurociência coloca em xeque a aula tradicional

Para o professor Alexandre Rezende, doutor em morfofisiologia do sistema nervoso, conhecer o funcionamento do cérebro ajuda a criar melhores estratégias na sala de aula

por Marina Lopes ilustração relógio 9 de fevereiro de 2017

Qual é a diferença entre assistir à televisão e acompanhar uma aula expositiva? Há quem diga que a segunda opção exige maior concentração, mas a verdade é que elas são praticamente iguais para o cérebro e ambas registram baixa atividade neural. Descobertas como essa trazem apenas mais indícios de que, pela neurociência, a aula tradicional já está com os seus dias contados.

Para o professor Alexandre Rezende, doutor em morfofisiologia do sistema nervoso pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a neurociência aplicada à educação ajuda a identificar problemas que afetam a atenção ou o aprendizado de maneira geral. Se um educador sabe que um ambiente escuro aumenta os níveis de melatonina do organismo –hormônio do sono responsável por regular o relógio biológico, ele jamais vai apagar toda a luz da sala para dar uma longa aula com apresentação de slides. “A neurociência pode ser bastante eficiente no sentido de mudar as estratégias educacionais”, defende.

Desde 2010, quando começou a se aproximar da neuroeducação, Rezende conta que enxergou neste campo a possibilidade de criar estratégias que atingem os alunos com mais eficiência. “É justamente fazer o professor olhar para o aluno e não imaginar um ser inerte e passivo para receber informações”, pontua. Quando um professor entende isso, ele começa a rever uma série de ações recorrentes no ambiente escolar. “Alguns trabalhos mostram claramente a falta de atenção dos alunos durante uma aula padrão”, comenta.

A neurociência mostra que, ao se emocionar, um aluno ou qualquer outra pessoa tem uma capacidade maior de gravar as informações

Apesar de não existir uma receita pronta para transformar as práticas na sala de aula, o professor e doutor em morfofisiologia do sistema nervoso diz que estratégias simples já podem fazer diferença. “A neurociência mostra que, ao se emocionar, um aluno ou qualquer outra pessoa tem uma capacidade maior de gravar as informações. Dentro da sala de aula, é potente criar estratégias que geram emoção”, avalia.

As práticas motivacionais também podem trazer bons resultados para a aprendizagem, principalmente em um momento de grandes discussões sobre como atrair a atenção da nova geração. “Os alunos já não tem muita motivação. Nós, professores, temos que assumir essa responsabilidade e trabalhar para fazer algo diferente em sala de aula”, reflete Rezende.

E o diferente, mencionado por ele, pode estar associado a tendências educacionais diversas, que vão desde o uso de tecnologia até as atividades práticas de educação mão na massa. “As estratégias são diversas e cada professor pode criar algo”, encoraja, ao mesmo tempo em que demonstra a importância de fazer o aluno perceber porque determinada atividade é importante.

Mas como começar a colocar as mudanças em prática? O doutor em morfofisiologia do sistema nervoso afirma que não adianta apenas consumir informações e partir em busca de receitas. “É preciso ter curiosidade e vontade de criar uma nova estratégia”, aponta. Apesar desse campo de conhecimento não estar presente em grande parte dos cursos de formação inicial de professores, ele menciona que os professores podem buscar cursos de especialização ou até mesmo referências sobre o assunto.

– Quer aprender mais? Veja uma lista de livros sugeridos por ele:

1. LENT, R. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociência. 1ª Ed. Atheneu. São Paulo, SP, 2001.
2. CONSENZA, R.; GUERRA, B.G. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. 1ª ed. Artmed. Porto Alegre, 2011.
3. PIAZZI, P. Ensinando Inteligência: manual de instruções do cérebro de seu aluno. Coleção Neuropedagogia, Volume 3, 1ª ed. Aleph LTDA. São Paulo, 2009.
4. METRING, R. Neuropsicologia e Aprendizagem: fundamentos necessários para planejamento do ensino. 1ª ed. Wak Editora. Rio de Janeiro, 2011.
5. PIAZZI, P. Aprendendo Inteligência: manual de instruções do cérebro para alunos em geral. Coleção Neuropedagogia, Volume 1, 1ª ed. Aleph LTDA. São Paulo, 2009.
6. PIAZZI, P. Estimulando Inteligência: manual de instruções do cérebro de seu filho. Coleção Neuropedagogia, Volume 2, 1ª ed. Aleph LTDA. São Paulo, 2009.
7. RELVAS, M.P. Neurociência e Transtornos de Aprendizagem: As múltiplas eficiências para uma educação inclusiva. 5ª ed. Wak Editora. Rio de Janeiro, 2011.
8. SILVA, A. B. B. Mentes Inquietas: TDAH: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Ed. Revista e Ampliada. Fontanar. Rio de Janeiro, 2011.
9. SILVA, A. B. B. Mentes e Manias: TOC: Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Ed. Revista e Ampliada. Fontanar. Rio de Janeiro, 2011.

Para explorar mais sobre esse assunto e debater como a neurociência pode ajudar na educação, o professor Alexandre Rezende estará presente no 1º Congresso Brasileiro de Tendências e Inovação na Educação, que acontece no dia 8 de abril, em Campinas. O evento é organizado pelo Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE) e conta com o apoio do Porvir.


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Sthefani J
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Sthefani J

OK, vá lá! Me dê uma forma de ensinar verbos, do nada, para um aluno de sexto ano e para um aluno de ensino médio que tem vestibular no fim do ano… Dizer que é precisar mudar, é lindo, mas como??????

Luciano Barroso
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Luciano Barroso

Pode trabalhar os verbos a partir de músicas, por exemplo.

Edmar Costa Barros
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Edmar Costa Barros

Dominó de verbos…

JOSE FRANCISCO TOLEDO MELARA
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JOSE FRANCISCO TOLEDO MELARA

Se for necessário apagar as luzes para ver slides é pelo fato de que o data show está necessitando trocar a lâmpada…..

Volnylson Almeida de Castro
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Volnylson Almeida de Castro

orem laborem amem

ROBERTO ANTONIO MARTINS
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ROBERTO ANTONIO MARTINS

Acho que é preciso ir mais a fundo e tb enxergar o aluno como um indivíduo em q vê sem sentido a educação. Ele não tem motivação e não vai ser o professor q vai despertar. A cabeça dele desde pequeno está em outras coisas. Apagar a luz é bem óbvio e assistir TV e uma aula só é igual se eu fosse passar o tempo. Tlvz esteja correto pensar pq o aluno não vai… Ler mais »

José De Arimatéa Dantas
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José De Arimatéa Dantas

Sem noção. Quer holofotes.

Ornu
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Ornu

Tanto comentário sem sentido e desprovido de qualquer entendimento que da preguiça. Estamos mesmo no fundo do poço, as pessoas não conseguem interpretar um texto.

Rodrigo d'Alincourt
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Rodrigo d'Alincourt

A grande questão é que o aluno precisa aprender a se “emocionar” com as aulas. O neurologista não fez qualquer descoberta nova, o problema é a falta de disciplina e a tal motivação, mudamos constantemente a metodologia e o tipo de aula mas o resultado se mostra muito similar: alunos mais concentrados se dão bem com qualquer método, alunos dispersos permanecem dispersos. O que se observa é que os bons alunos tem acompanhamento familiar e… Ler mais »

joão
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joão

muito mimimi.. tem que mostrar pro cara que se não se aplicar ele vai ser reprovado..e reprovado de novo..,e de novo.. até acordar.e fazer os pais serem co-responsáveis..os pais querem que os professores eduquem.. professor instrui . educação é função da família..só que as família tercerizam desde o berço. não conhecem seus filhos e depois querem que a escola lhes devolva o filho pronto… o problema tá na família e no mimimi dos que pensam… Ler mais »

Coraci Machado Araújo
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Coraci Machado Araújo

Vdd. É óbvio q temos q refletir nossas estratégias, mas muito CUIDADO deixa aluno lerdo

jonatas
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jonatas

A educação há anos vem mudando! A questão é: como aplicar e atender todos os tipos de necessidades dos alunos? O sistema até pode ter funcionado assim por muito tempo, mas vemos o resultado com mentes e pessoas alienadas e desorientadas com pouco poder de decisão e independência intelectual, esse formato só serve para formar sistemas (mentes) medianas em conhecimento, no método estuda, decora, repete, reproduz, tira média em provas e pronto! Aprovado! Só que… Ler mais »

Lourenço Almada
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Lourenço Almada

Muito interessante!!!
São informações deste tipo que dão cada vez mais razão a pessoas que se opõe ao ensino actual e à cabeça delas está o Professor José Pacheco e todas as escolas que têm por base a Escola da Ponte, tal como o Projeto Ancora, dirigido pelo seu método..

odair
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odair

Com 40 alunos em sala, um calor infernal, inverno rigoroso ( aqui no Sul), governo retirando seus direitos… Ingenuamente eu pergunto: como fazemos?

Denise Serafim
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Denise Serafim

Temos qe buscar soluções para nossa realidade existente.

Joseph Bomfim
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Joseph Bomfim

O governo nunca vai permitir que lhe tirem a viseira da ignorância, que lhe destruam a tão bem forjada ( no calor ardoso do açoite e na repressão continua) cangalha que vos carrega em eterno berço esplendido, olhem a sua volta, isso é Brasil onde qualquer algazarra vira carnaval, e aí da internet que ousar ouriçar essa suposta ideia de liberdade sem o aval de V.Sas. excelências os verdadeiros donos do poder. Essa por sua… Ler mais »

Juliana Autuori
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Juliana Autuori

Que maravilha! Tudo o que sempre pensei, agi e ajo com os meus alunos, instintivamente e agora, a comprovação. Acredito que todo e qualquer conhecimento se parte do concreto, até para nós adultos. Para qualquer pessoa. A abstração fica muito mais fácil partindo de algo concreto. Não tinha grandes recursos tecnológicos, por exemplo, porém quando queria dar uma aula de história, utilizava minhas habilidades com desenhos e mostrava aos alunos um escambo ou venda de… Ler mais »

Daniel Ferraz de Campos
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Daniel Ferraz de Campos

Ótima explanação ! É preciso pegar pelo pescoço chacoalhar e dizer, entenda isso, a neurociência é uma das ferramentas que mais se aproxima para auxiliar a educação desde a infância até a terceira idade, tenho como prova meu projeto PREVENIR, EDUCAR, RECICLAR, parâmetro curricular tem que ser melhor aproveitado, nesta tecnologia digital muita coisa está POR VIR (el-dani )