O potencial das aulas extracurriculares na reinvenção das avaliações - PORVIR
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Inovações em Educação

O potencial das aulas extracurriculares na reinvenção das avaliações

Pesquisadora mostra como a adoção de modelos alternativos de avaliação com foco no contexto de aprendizagem não implicam no descarte de testes padronizados em disciplinas tradicionais

por Chelsea Waite, do Clayton Christensen Institute ilustração relógio 16 de dezembro de 2019

Experiências de aprendizado poderosas não são tão comuns em disciplinas tradicionais como esperamos, mas elas acontecem nas escolas com mais frequência do que pensamos.

Essa é a conclusão com a qual saí depois de ler o novo livro de Jal Mehta e Sarah Fine, que investiga o aprendizado mais profundo nas escolas de ensino médio. Os autores definem o aprendizado mais profundo como a interseção do domínio (desenvolvimento de habilidades e conhecimentos), identidade (conectando o eu de cada um dos alunos ao que eles estão aprendendo e fazendo) e criatividade (promovendo o aprendizado através da produção de algo). Os defensores de uma aprendizagem mais profunda afirmam que essas experiências são mais eficazes no desenvolvimento de habilidades como colaboração e pensamento crítico; Mehta e Fine argumentam que o aprendizado mais profundo pode corrigir a divisão ideológica percebida entre os reformadores progressistas que defendem a exploração orientada pelos estudantes e um movimento baseado em referenciais, preocupado com a precisão.

A má notícia é que o aprendizado mais profundo não está ocorrendo de maneira consistente ou abrangente nas principais aulas do ensino médio, escrevem os autores. No entanto, numa surpresa, eles descobriram que isso acontecia de forma mais previsível na periferia das áreas acadêmicas, como nos extracurriculares. De fato, os autores passam um capítulo inteiro dissecando como a aprendizagem mais profunda se desenrola na produção de uma peça de Shakespeare. Se o aprendizado mais profundo já acontece em muitos campi do ensino médio, ainda que na periferia, o que está impedindo que ele se torne a regra dentro das principais disciplinas?

Uma resposta é a avaliação – e não apenas pelo motivo que muitas pessoas dizem isso. É verdade que o clima de responsabilidade atual e os testes padronizados podem incentivar a quantidade em lugar do aprofundamento, empurrando o aprendizado mais profundo para baixo na lista de prioridades. Mas a avaliação também é uma barreira para o aprendizado mais profundo, porque o campo ainda está no estágio inicial de desenvolvimento de sistemas de avaliação confiáveis ​​e escaláveis. Enquanto algumas redes nos Estados Unidos estão preparando os alicerces, e importantes pesquisas foram feitas para mapear como seriam os novos sistemas de avaliação, o fato é que sistemas escaláveis ​​para medir o aprendizado mais profundo ainda não se materializaram.

Dado o estado emergente das avaliações de aprendizado mais profundo, estou apresentando uma proposta que pode surpreender: o caminho para o aprendizado mais profundo em disciplinas como matemática e inglês (ou português) não é refazer as avaliações nessas disciplinas. Em vez disso, devemos trabalhar para acertar na avaliação na periferia, como nos programas de teatro – eis o porquê:

Novas avaliações precisam de tempo e espaço para amadurecer

Muitos defensores do aprendizado mais profundo argumentam que devemos abandonar os testes padronizados para abrir espaço para maior profundidade, criatividade e relevância na sala de aula. O problema dessa estratégia é que ela tenta derrubar as provas em uma luta frente a frente. Isso requer um sistema de avaliação alternativo para superar os testes padronizados em seu próprio território, onde o objetivo final é medir os resultados (independentemente do contexto ou processo) de maneira consistente e absoluta.

As avaliações para um aprendizado mais profundo não devem se resumir a um jogo de batalha contra os testes – eles devem ser inerentemente diferentes e mostrar ao longo do tempo que diferente é melhor. E eles têm um longo caminho a percorrer nessa frente. Essas avaliações vão ter que levar em consideração os ambientes em que os alunos estão aprendendo pelo menos em parte por meio da experiência e da investigação. Isso significa que o processo de aprendizado (por exemplo, tentar adotar uma estratégia diplomática nas em uma discussão que imita negociações das Nações Unidas apenas para vê-la falhar, depois trabalhar para reconstruir relações e alcançar um consenso) é tão importante quanto o resultado (identificar com sucesso diferentes estratégias diplomáticas e suas aplicações). E em ambientes de aprendizado com discussões mais abertas, os resultados das experiências não são definidos desde o início – as avaliações precisarão levar em conta o fato de que os resultados podem não ser previsíveis ou universais para cada experiência de aprendizagem.

Ainda há muito trabalho a ser feito para desenvolver e melhorar esses tipos alternativos de avaliação. Enquanto isso, os inovadores em avaliação devem evitar derrubar os testes padronizados a qualquer preço e acabar perdendo ou deixando que novas formas de avaliação sejam cooptadas por uma definição de desempenho em que os testes se destacam naturalmente. Mas como?

Incubando avaliações na periferia

A resposta é simples, mas potencialmente poderosa: eles devem trabalhar para desenvolver modelos de avaliação em ambientes de baixo risco, onde o aprendizado mais profundo já está ocorrendo, como nos programas extracurriculares e depois das aulas.

A ideia de avaliar a aprendizagem em programas de teatro, clubes de debate e atletismo pode ser um anátema para alguns educadores, pelo menos se eles ouvem “avaliação” como “teste”. Mas deve ser uma alta prioridade para os educadores que desejam ver a aprendizagem mais profunda migrar da periferia da escola para o núcleo. De fato, o sistema educacional deve se beneficiar dessa estratégia de duas maneiras principais.

Primeiro, ao inicialmente desenvolver avaliações em ambientes de baixo risco, os inovadores terão uma pista para melhorias, enquanto ainda otimizam alguns dos fatores de que mais se importam, como usar avaliações para apoiar o aprendizado dos alunos (não apenas medi-lo). E eles podem trabalhar para desenvolver tecnologias que ajudem a tornar novas avaliações mais econômicas financeiramente quando atingirem escala. Com o tempo, estratégias de avaliação de aprendizado mais aprofundadas e confiáveis ​​podem se tornar boas o suficiente para satisfazer as partes interessadas de que os alunos estão aprendendo os conhecimentos e habilidades desejados sem recorrer a testes padronizados. Além disso, eles poderiam superar drasticamente os testes padronizados em outros características atraentes, como oferecer uma experiência positiva para os alunos.

Segundo, em um bônus surpresa, novas avaliações desenvolvidas na periferia poderiam tornar os extracurriculares menos periféricos, mostrando como o conhecimento e as habilidades acadêmicas podem ser desenvolvidos em muitos contextos, inclusive fora das salas de aula tradicionais. Juntamente com sistemas baseados em competências que dispensam a aula expositiva como maior representação de aquisição de conhecimento, poderíamos começar a ver mais escolas garantindo crédito pelo aprendizado onde quer que ele aconteça.

Portanto, se você conhece diretores de teatro do ensino médio que estão dispostos a incorporar avaliações inovadoras, certifique-se que eles tenham consciência que estão diante de uma alavanca poderosa, mas pouco conhecida para ampliar o aprendizado mais profundo.

* Publicado originalmente no site do Clayton Christensen Institute e reproduzido mediante autorização


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aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, autonomia, avaliação, competências para o século 21, educação integral, educação mão na massa, ensino fundamental, ensino médio, pesquisas

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