Para debater a contribuição negra ao Brasil, professora cria site e podcast com alunos do 5º ano - PORVIR
Crédito: Agência Brasil/Arquivo

Diário de Inovações

Para debater a contribuição negra ao Brasil, professora cria site e podcast com alunos do 5º ano

Estudantes do ensino fundamental 1 no Rio de Janeiro utilizam a educação midiática para enaltecer personalidades negras e celebrar a diversidade cultural no país

por Haianna dos Santos Rodrigues Lima ilustração relógio 30 de novembro de 2021

Talvez a inovação não esteja apenas no fato de aliarmos o uso das tecnologias e a presença da educação midiática, mas, principalmente, em trazermos um assunto essencial – e ainda muito delicado – para tratar com alunos do ensino fundamental 1, com o claro objetivo de desnaturalizar o racismo no nosso país.

A prova dessa inovação não é só o produto final alcançado, mas principalmente todos os desdobramentos possibilitados a partir dele, como, por exemplo, os trabalhos desenvolvidos em seguida que envolvem temas como “a origem do racismo no Brasil”, “o papel da branquitude”, “expressões racistas”, dentre outros.

A inovação se resume na ousadia e ausência de medo em tratar de um tema que se faz urgente! Porque tira todos nós, alunos, professores, funcionários e pais, da zona de conforto, do senso comum, da naturalização de um comportamento e de uma mentalidade colonizada, enraizada e adoecida e nos leva a pensar em uma sociedade justa, igualitária e livre de amarras, tudo isso aliado aos recursos tecnológicos que seduzem as crianças dessa faixa etária.

Não poderia me isentar do maior objetivo do ensino da história, que é situar o aluno no momento histórico em que vive e, muito menos, afastar-me dos pilares da nossa escola que nos levam à reflexão, à leitura crítica de mundo e à participação social ativa. No entanto, com essa sequência de atividades, a intenção era levar os alunos para um lugar pouco visitado – a contribuição do negro em nossa sociedade e o seu papel de cidadão que luta constantemente para destruir uma estrutura fundada no início da nossa história como Brasil.

No 5º ano do ensino fundamental 1, na Escola Parque (Rio de Janeiro), as disciplinas de história e geografia se amparam em um fio condutor que passeia pelo Brasil. Em um dado momento, depois de muitas histórias e experiências vividas, nós nos deparamos com o período da história em que os europeus necessitariam de pessoas para colocarem seus planos de exploração contínua do nosso território em ação. Fugiria da nossa “crença pedagógica” se começássemos esse assunto seguindo a cartilha que colaborou para a tal estrutura se fortalecer ao longo dos séculos e, sobretudo, por desde o início do ano fomentar em nossos alunos um olhar para a história do nosso país diferente do que nos foi ensinado. É preciso descolonizar o olhar!

Sendo assim, comecei a contar a história a partir da atualidade. Falei sobre eventos frequentes envolvendo a população negra para conduzir constantes conversas e fazer os alunos refletirem sobre o papel do negro em uma sociedade legitimamente racista e preconceituosa. Meu maior objetivo era unir o desejo, aptidão e dedicação deles com relação ao uso da internet e das ferramentas digitais e propor a criação de sites e podcasts que tivessem como objetivo principal enaltecer personalidades negras e suas contribuições para nossa sociedade, além de multiplicar e compartilhar esse conhecimento.

Para debater a contribuição negra ao Brasil, professora cria site e podcast com alunos do 5º ano

Clique na imagem para acessar o site

Noto frutos importantes e impactantes na vida da nossa comunidade escolar. Os sites não mobilizaram apenas os alunos, mas também as professoras e todos os envolvidos no processo. Quando temos a oportunidade de trocar e compartilhar descobertas, percebemos que damos valor e geramos, de fato, conhecimento. Oferecer a responsabilidade e as ferramentas necessárias para que os alunos trilhassem o caminho dessas descobertas, com intervenções pontuais, nos fez perceber que os resultados são preciosos e genuínos.

Posso destacar alguns relatos que demonstram o impacto do projeto na vida dos alunos. Ao trabalhar com Zumbi dos Palmares, por exemplo, o grupo responsável entrou em contato, durante a pesquisa, com uma imagem representando a cabeça de Zumbi decapitada. Eles ficaram em choque com a agressividade que a imagem remetia, mas sentiram necessidade de inseri-la no trabalho, para que outras pessoas também percebessem a gravidade e o tamanho da violência a qual o povo negro foi exposto. Outro grupo, de outra turma, sentiu necessidade de explicar, com suas palavras, o processo de criação pelo qual passaram.


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A investigação, o questionamento e a participação ativa levam os nossos alunos à construção do aprendizado. E os relatos trazidos por eles, sejam a partir das suas conclusões, inquietações ou observações nos fazem crer que a educação é transformadora e a solução para a mudança social. A partir de todos os sites projetados e concluídos, partimos para a organização que idealizamos desde o início, que seria agregá-los em uma única página, a partir de diferentes áreas de atuação.  Assim, todos os alunos poderiam contemplar um trabalho muito mais amplo, diverso e colaborativo, feito a muitas mãos. Um resultado que não poderia ser alcançado de outra forma, pois como celebrar a diversidade sem diferentes olhares?

Percebo que as maiores conquistas foram nas relações, no olhar para eventos, momentos e personalidades históricas, mas principalmente o discernimento sobre os pontos de vista renegados, a busca pela informação de qualidade e a divulgação dos resultados.

Clique na imagem abaixo para ouvir o podcast:


*O projeto Personalidades Negras, realizado por Haianna, com as professoras Livia Gomes Borges Rauta e Fernanda Sivieri, ganhou o primeiro lugar da 3ª edição do Prêmio Professor Transformador, em 2021. A premiação, realizada pelo jornal Joca, avaliou modelos de sequências didáticas feitas com jornal. 


Haianna dos Santos Rodrigues Lima

Professora há 20 anos, pedagoga, psicopedagoga e neuropsicopedagoga. Educadora antirracista especializada em história da cultura afro-brasileira e história da diáspora africana e do tráfico transatlântico. Formanda em história e professora dos anos iniciais do ensino fundamental I da rede privada de ensino.

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educação antirracista, educação midiática, ensino fundamental

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