Vivência ao ar livre na retomada das aulas também é questão de saúde - PORVIR
Crédito: FatCamera/iStockPhoto

Coronavírus

Vivência ao ar livre na retomada das aulas também é questão de saúde

Especialistas e educadores defendem importância de planejamentos de retorno considerarem a realização de aulas fora das salas tradicionais, em espaços alternativos e abertos dentro e fora da escola

Parceria com CLOE

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 24 de maio de 2021

Por mais que escolas tenham menos alunos em aulas presenciais, é em ambientes fechados que o risco de contaminação pelo coronavírus é maior. Nesse contexto, as atividades ao ar livre passaram a ser pauta recorrente no debate sobre a retomada das atividades presenciais nas escolas. Se antes a vivência fora das quatro paredes era encorajada no sentido de incentivar o contato com a natureza e a movimentação das crianças, hoje trata-se de uma questão de saúde pública.

Paula Mendonça, assessora pedagógica do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, explica que promover experiências fora das salas de aula é, em primeiro lugar, uma forma de multiplicar as maneiras de ensinar e aprender e, com isso, diversificar as estratégias de construção do conhecimento. O programa Criança e Natureza inspira-se no conceito de educação integral não apenas como modalidade de ensino, mas como um  olhar para todas as dimensões humanas. Uma vivência no pátio, por exemplo, abre um leque de possibilidades de aprendizado.

“A interação com a natureza traz diversos benefícios tanto para o desenvolvimento integral quanto para o aprendizado. Ao mesmo tempo, a natureza provoca desafios para o corpo e, por conta da biodiversidade, também é um espaço de investigação e de formulação de hipóteses científicas importantes no campo das ciências naturais. Por isso, falamos muito sobre aprender com e na natureza, porque ela pode ser um objeto de estudo em si, mas também um ambiente de aprendizagem onde pode-se ler um livro, estudar matemática e muitas outras possibilidades nesse conceito de ensinar do lado de fora”, explica Paula.

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Espaços ao ar livre e a Covid-19
Não é a primeira vez que o surgimento e disseminação de um vírus afeta o funcionamento da educação. Há mais de 100 anos, escolas na Europa precisaram repensar a forma como estavam constituídas até então para seguir funcionando mesmo em meio a um surto de tuberculose que, assim como a Covid, é uma doença de transmissão aérea.

A interação com a natureza traz diversos benefícios tanto para o desenvolvimento integral quanto para o aprendizado

Naquela época, já se falava nos benefícios de promover vivências ao ar livre, principalmente devido à rápida dissipação do vírus ao ar livre. Por isso, em razão da pandemia, o programa Criança e Natureza elaborou alguns materiais para apoiar a reabertura gradual e o planejamento dessas vivências fora da sala de aula. Tanto o “Guia de Aprendizagem ao Ar Livre” como o documento “Planejando a Reabertura das Escolas: a contribuição das pesquisas sobre os benefícios da natureza na educação escolar” abordam os desafios da volta às aulas, as principais recomendações que devem constar nos protocolos e estratégias para essa vivência do lado de fora.

Para Paula, um dos primeiros passos é a realização de uma análise do ambiente escolar e suas potencialidades. Alguns espaços e cantos sombreados, a própria quadra, pátio e corredores podem ganhar novos usos e significados, constituindo o que os documentos chamam de salas de aula temporárias.

Beatriz Goulart, arquiteta e urbanista e integrante do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), vai além ao defender as vivências fora da sala de aula e ao ar livre, e cita a necessidade de uma mudança de concepção sobre as diferentes formas de aprender, uma vez que, atualmente, muitas instituições ainda dão acesso às áreas livres apenas nos intervalos das aulas.

Colocar as áreas livres no mesmo patamar de importância das áreas construídas é, portanto, tarefa que se estende tanto ao currículo, como também ao projeto e construção das escolas. “Muitas vezes, ainda durante a obra, não há recurso para o jardim, ou não há equipe administrativa para lidar com as áreas livres como há para as áreas pedagógicas. Esse cuidado ainda é secundário”, explica.

Entretanto, mesmo que do portão para dentro, são muitas as possibilidades de experiências, como hortas, composteiras, pomar, brinquedos, observação do sol e das sombras, uso de captação da água da chuva, entre outras. “Tão importante quanto comprar um livro é ter mudas de manjericão para a merenda, por exemplo, pois o manjericão vai contar coisas e ensinar.” Portanto, além do recurso financeiro que irá viabilizar essas outras experiências, Beatriz também reforça a importância da formação adequada de professores e administradores, para que entendam a potencialidade e trabalhem para viabilizá-las.

Três crianças, duas meninas e um menino sentados em um espaço como uma praça. Eles conversam e usam máscara contra covidCrédito: Wavebreakmedia/iStockPhoto

Expandindo a escola
Um ponto bastante abordado nos documentos produzidos pelo programa do Instituto Alana é o aprendizado ao ar livre fora da escola, nos chamados territórios educativos, e como isso pode contribuir para os protocolos de retomada das aulas. Seguindo essa lógica, as salas de aula temporárias, citadas acima, podem acontecer em espaços no entorno. Entretanto, para que isso seja possível, Paula pontua a importância de um esforço conjunto e intersetorial, envolvendo as áreas de urbanismo, meio ambiente, trânsito, esportes e lazer no planejamento do uso desses espaços na comunidade.

Beatriz explica que um dos processos em curso hoje em dia é a integração dos saberes que as crianças aprendem na escola, na família e na comunidade. “Quanto mais a escola estiver conectada com os processos do seu entorno e quanto mais o currículo for um currículo da cidade e um projeto educativo do território, isso vai dar muito mais integralidade para a constituição da criança”, completa.

A vivência nesses espaços, que podem ser praças, museus, parques e muitos outros, constituem uma forma de conhecer a história do local, o que pode beneficiar não apenas os alunos, como também os educadores e os moradores da região. “Sair da escola não apenas como um passeio, mas como um processo educacional implicado no currículo, vai ajudar inclusive os professores que não moram e não conhecem o bairro onde trabalham. O bairro passa a ser parte do currículo e então começa a implicar a escola na melhoria dessa região”, cita a arquiteta, pontuando a importância do conceito de bairro-escola, criado pelo jornalista Gilberto Dimenstein.

Além disso, Beatriz também comenta que essa parceria entre equipe pedagógica e entorno pode gerar bons frutos no sentido de a instituição educacional aproveitar o que a comunidade tem a oferecer e, assim, não apenas diversificar o aprendizado, mas também suprir demandas de estruturas e materiais, por exemplo, a partir do contato com vizinhos, organizações da sociedade civil e até mesmo empresas.

Possibilidade para todas as disciplinas
Engana-se quem pensa que os espaços ao ar livre podem ser usados apenas para atividades que envolvam movimentação corporal. Mariana Manse, professora de música da Camino School, explica que mesmo antes da pandemia, ela e outros colegas professores já tinham o costume de promover atividades fora das salas de aula.

No estudo sobre paisagem sonora, por exemplo, ela comenta o valor de propor uma caminhada por diferentes espaços, como refeitório, o portão de entrada, a biblioteca e o pátio e, com isso, incentivar que os alunos escutem e percebam as diferenças entre eles. Desenhos de observação na aula de artes também podem ser feitos a partir de uma árvore, do céu e do formato das nuvens, ao invés de projetar um quadro na sala de aula.

Uma estratégia que eu uso é ir para um espaço mais aberto, seja a quadra ou pátio, e distanciar os alunos para que eles realmente percebam o seu som

“Quando estamos cantando, escutamos a nossa voz no meio do todo. Então uma estratégia que eu uso é ir para um espaço mais aberto, seja a quadra ou pátio, e distanciar os alunos para que eles realmente percebam o seu som. Isso é muito importante na questão do refinamento sonoro. Também trabalho bastante em mini grupos. Se estamos estudando composição com materiais diferentes do dia a dia, se todos forem tocar em sala de aula, um som vai interferir no outro. Então eu levo todo mundo para fora, e depois voltamos para a sala para apresentar, o que também gera esse elemento surpresa”, exemplifica Mariana.

Nesse momento de ensino híbrido, a professora reforça a importância de um planejamento estratégico, que promova o melhor uso dos momentos em que as crianças estão na escola. Por isso, nas aulas de música, Mariana tem trabalhado as partes mais teóricas, da história das músicas, o ensino da letra e dos passos de forma online, em atividades síncronas e também em vídeos gravados. Assim, os momentos presenciais são dedicados à parte mais prática que, em muitos casos, acontece em espaços abertos.

“Na última série do infantil, estamos estudando tradições brasileiras na aula de música. Então, no online assistimos vídeos de cirandas, aprendemos a música, vimos referências e dançamos. Na escola, fizemos uma ciranda na quadra, que é um ambiente mais seguro para cantar considerando a questão da emissão das gotículas de saliva. É um movimento de observar onde cada movimentação e atividade será mais oportuna, no online ou no presencial”, defende.

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aprendizagem ativa, aprendizagem baseada em projetos, competências para o século 21, personalização, tecnologia, uso do território

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