Professor-curador: o percurso de aprendizagem ativa e o planejamento reverso - PORVIR
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Inovações em Educação

Professor-curador: o percurso de aprendizagem ativa e o planejamento reverso

Ao considerar o protagonismo do estudante, a escolha das metodologias ativas e o planejamento das experiências devem estar atrelados aos objetivos de aprendizagem

por Renata Salomone ilustração relógio 27 de agosto de 2020

Sabemos que a forma como os indivíduos são estimulados a capturar o mundo lhes imprime marcas profundas, podendo potencializar ou engessar suas capacidades perceptivas e criadoras. Diversos estudos no campo da educação e da neurocognição vêm demonstrando que a aprendizagem é estabelecida de forma muito mais significativa por meio de experiências que mobilizem os estudantes através de processos ativos. Assim, quando a abordagem educativa permite a imersão dos alunos em experiências mais conectadas às suas realidades, possibilitando que eles sejam protagonistas das suas próprias trajetórias, que exerçam o direito de experimentar, de errar, de rasurar e de se reinventar, a aprendizagem ganha mais significado e as compreensões são mais duradouras.

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Seguindo a trilha aberta por estas reflexões – que não são novas, mas que se mostram cada vez mais latentes – observamos uma difusão das metodologias ativas no contexto da educação contemporânea. Esta profusão nos oferece pistas sobre uma mudança de cenário, a qual devemos celebrar, mas, ao mesmo tempo, observar com cautela. Para que possamos experimentar a beleza da experiência ativa para além do ardil da moda, precisamos compreender que ela não começa nem termina na escolha das metodologias que serão aplicadas. Nesse sentido, é importante que observemos o percurso educativo como um ecossistema, onde os educadores se colocam como provocadores de aprendizagem desde a construção do planejamento até a avaliação.

Como planejamos nossas aulas? Por onde começamos a pensar as experiências de aprendizagem? Nossa tendência, ao respondermos a essas perguntas, é facilmente elencarmos quais são os conteúdos que serão cobertos e quais atividades e recursos iremos utilizar. Mas e se nos perguntassem sobre o que os estudantes serão capazes de fazer com aquelas informações após passarem pelo percurso educativo planejado? Ou sobre quais são as compreensões duradouras que desejamos que os alunos obtenham? E se nos questionassem sobre quais são os objetivos de aprendizagem daquele período? A dificuldade recorrente em respondermos a estas últimas perguntas se deve ao fato de que, por muito tempo, estivemos condicionados a manter o foco no ensino e não na aprendizagem, a priorizar os insumos que utilizaremos e a cobertura de conteúdos e não observar os resultados duradouros almejados.

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O ensino, por si só, não necessariamente leva à aprendizagem. Os educadores que compreendem a importância do empoderamento dos estudantes através de processos mais ativos devem também estar atentos a todo o percurso pedagógico e à aprendizagem efetiva. Não adianta escolhermos metodologias que despertem o interesse dos alunos, que deixem as aulas mais engajadoras, mas que ainda estejam balizadas em um processo centrado na figura do professor e pautado em uma lógica de cobertura de conteúdos. A transformação da educação que queremos celebrar remete a uma mudança de mentalidade, de chave de leitura.

E como podemos desenhar um planejamento coerente com a ideia de aprendizagem ativa? Os educadores Grant Wiggins (1950-2015) e Jay McTighe foram responsáveis pela difusão de uma estratégia conhecida como Planejamento Reverso (“Backward Design”). Trata-se de um modelo que inverte a lógica de planejamento, começando pelo fim. Desta forma, ao contrário do modelo tradicional, no qual os professores pensam primeiro sobre o que desejam que os alunos façam, o Planejamento Reverso indica aos educadores que iniciem com a pergunta sobre o que desejam que os alunos aprendam.

Trocando em miúdos, o Planejamento Reverso prevê que o construamos em três etapas. Primeiro devemos identificar os resultados desejados, ou seja, precisamos nos perguntar quais queremos que sejam as compreensões duradouras dos estudantes, o que eles serão capazes de fazer após passarem por aquele percurso e quais são os objetivos de aprendizagem almejados. Após definirmos nossas expectativas, passamos para a segunda etapa, em que devemos determinar evidências aceitáveis. Nesta etapa perguntamos o que pode contar como evidências da compreensão dos estudantes, do sucesso de suas aprendizagens e como iremos avaliá-los. Na terceira e última etapa é quando devemos, finalmente, planejar experiências de aprendizagem e instrução, definindo quais conhecimentos e habilidades os alunos precisarão mobilizar para atingirem os resultados almejados.

Assim, ao pensarmos a sala de aula onde o estudante é protagonista, a escolha das metodologias ativas e o planejamento das experiências devem estar atrelados aos objetivos de aprendizagem e às evidências que desejamos que os estudantes alcancem. Dessa forma, as possibilidades do exercício de responsabilidade, autonomia e autorregulação se ampliam efetivamente e os alunos conseguem identificar de maneira mais clara o que fazer depois dali e como levarão esses conhecimentos para a vida.

Quando vamos a uma exposição de arte, sabemos que as obras ali exibidas passaram por um processo minucioso de curadoria, que as selecionou de acordo com os objetivos daquela exposição. Cada obra foi escolhida intencionalmente, pensando em sua conexão com as outras e no que ela pode contribuir para que os espectadores compreendam o fio condutor daquele percurso. Nossos olhares, como público-ativo, são guiados ao longo do caminho para buscar os liames e não apenas para apreciar as peças de arte em suas peculiaridades. Cabe ao curador esculpir as pontes e nos conduzir para os objetivos daquele percurso. Curadoria também é obra de arte.

Deveríamos pensar no trabalho do professor como curador, agindo como um desenhista de percursos aprendentes e proporcionando experiências significativas. A seleção de conteúdos deve fazer parte de uma grande história que será construída COM e não PARA os alunos. As obras de arte sempre serão feitas de encontros. Os estudantes também são responsáveis pelas suas criações, na medida em que as interpretam a partir de suas vivências.

Costumo dizer aos meus alunos, logo no primeiro dia de aula, que eles não vão para a aula da Renata, mas com a Renata.

Aulas são encontros.


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aprendizagem ativa, aprendizagem baseada em projetos, competências para o século 21, personalização, tecnologia

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