'Professor que não estuda não faz o aluno estudar' - PORVIR
Crédito: Thomas Bethge / Fotolia.com

Diário de Inovações

‘Professor que não estuda não faz o aluno estudar’

Educador Leandro Grass relata como é importante compartilhar com alunos novas descobertas para mantê-los sempre interessados

por Leandro Grass ilustração relógio 18 de março de 2015

Na minha conversa com os alunos no início de todo ano letivo, faço as seguintes perguntas: que coisas fizeram na escola, desde o primeiro dia de aula na educação infantil até hoje, as quais poderiam dizer que são seus autores? Com exceção dos desenhos de arte e das redações nas aulas de língua portuguesa, o que foi produzido exclusivamente por eles, sem ter copiado ou replicado de algum lugar? Ao tentar responder, a grande maioria tem dificuldade em lembrar, pois, de fato, o que mais fazemos em nossa vida escolar (e continuamos a fazer na universidade) é copiar, resumir, sintetizar, memorizar e replicar. Vivemos ainda em uma escola que pouco estimula a criatividade e a autoria. É a escola do conteúdo por si só, dos exames e das aulas. A escola que repete o conhecimento, mas que pouco promove sua ampliação.

Partindo dessa reflexão é que, desde o início de minha prática docente há 10 anos, procuro maneiras de possibilitar aos estudantes uma nova relação com o conhecimento. Atualmente, com o apoio das novas tecnologias, tenho intensificado o desenvolvimento de estratégias capazes de despertar o interesse dos estudantes pelo aprendizado. Tento fazê-los entender a importância de não apenas reproduzir, mas de produzir conhecimento.  A realização de pesquisas instantâneas com dispositivos móveis, o uso de aplicativos para determinadas atividades de produção multimídia, a disponibilização de tarefas e materiais em plataformas, e a apropriação de recursos digitais para estudo e pesquisa foram algumas das minhas recentes iniciativas pedagógicas.

Nesse processo, a Blackboard tem sido muito útil, considerando seu fácil acesso e ferramentas que possui. Além de manter todas as possibilidades que antes tínhamos através do Moodle, são oferecidas outras que servem de apoio aos professores que tem gosto pela inovação em sala de aula. No primeiro contato com a plataforma, personalizei o espaço da disciplina para ficar mais atrativo e compreensível aos estudantes. Linkei meu blog, minha fan page, e criei espaços específicos para cada uma das etapas de aprendizagem. Tenho disponibilizado materiais de apoio para estudo como textos, vídeos e links, bem como as tarefas e atividades que complementam o aprendizado da sala de aula. Criei também um espaço de discussão e partilha sobre os temas estudados, o que dá aos estudantes a oportunidade de interagir comigo e com os colegas.

Não há dúvidas de que as novas tecnologias favorecem e muito o aprendizado pela pesquisa. Mas a inovação não está em si na tecnologia. A perspectiva do aluno como sujeito produtor do conhecimento não depende de ferramenta a ou b. Há muitas formas de permitir que o estudante seja protagonista da aprendizagem e não apenas passivo, ouvinte de aulas. Tudo começa pelo professor, quando este se interessa cotidianamente em pesquisar e estudar. Professor que não estuda não tem como fazer o aluno estudar. Esse é um dos pilares daquilo que entendo como docência. Cada dia tenho mais gosto e vontade de aprender e acredito que isso serve também de estímulo para meus alunos, em especial quando compartilho com eles as coisas que descubro, as novidades que recebo, textos que li e achei interessantes, além das oportunidades que vão surgindo no ambiente acadêmico, como palestras, encontros e projetos.

Ao longo dos últimos anos tenho intensificado as atividades de pesquisa e produção com os estudantes. Em alguns projetos foi possível que eles se apropriassem de conhecimentos sobre metodologia científica e produzissem inclusive artigos. No ano passado, 2014, em parceria com os colegas da disciplina de História, realizei um projeto que resultou em mais de 50 artigos coletivos de alunos no 3º ano do ensino médio de nossa escola, sendo alguns passíveis de publicação em decorrência de sua boa qualidade. Nesse processo, os recursos digitais foram extremamente úteis, tanto para a pesquisa e compartilhamento de materiais quanto para a elaboração dos textos e apresentações. O retorno dos estudantes foi muito positivo. Alguns que ingressaram recentemente no ensino superior comentaram que já estão utilizando as técnicas de pesquisa que aprenderam e, por isso, sentem-se mais preparados que seus colegas de curso para lidar com os desafios da vida acadêmica.

As exigências da Educação no século 21 ressignificaram o uso social do conhecimento. O conteúdo continua sendo importante, mas deixou de ser o fim, passando a ser o meio para a apropriação de saberes e habilidades necessárias aos desafios de nosso tempo. Acredito que inovação não precisa ser algo complexo, pois depende de simples ações, sustentadas por um descontentamento com aquilo que não se mostra mais efetivo.  Na perspectiva do aprendizado pela pesquisa, pretendo continuar a explorar as novas tecnologias e consolidar minhas estratégias pedagógicas, tornando a aprendizagem mais interessante aos estudantes e as metodologias usadas em sala de aula mais flexíveis.


Leandro Grass

É professor e pesquisador. Doutorando do programa de pós-graduação políticas e gestão pública para o desenvolvimento (CEAM/UnB). É mestre em desenvolvimento sustentável (CDS/UnB) e bacharel em Sociologia e licenciado em Ciências Sociais (UnB). É professor sociologia do Colégio Marista de Brasília (DF).

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pesquisas, tecnologia

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Cristiane Martins Cruz
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Cristiane Martins Cruz

Essa é uma verdade que a maioria dos professores de nosso país deveria aprender, mas a realidade que vemos é bem distinta. Nossos professores tem aversão ao estudo e, muitas vezes, tentam barrar a curiosidade e a busca pelo novo que os jovens de hoje trazem naturalmente consigo, tomando-as como afronta ou ameaça. É preciso urgentemente que percebam que curiosidade, descoberta e conhecimento são três elementos indissolúveis, ou se tornarão profissionais ultrapassados neste nosso mundo… Ler mais »

Cristiane Martins Cruz
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Cristiane Martins Cruz

Essa é uma verdade que a maioria dos professores de nosso país deveria aprender, mas a realidade que vemos é bem distinta. Nossos professores tem aversão ao estudo e, muitas vezes, tentam barrar a curiosidade e a busca pelo novo que os jovens de hoje trazem naturalmente consigo, tomando-as como afronta ou ameaça. É preciso urgentemente que percebam que curiosidade, descoberta e conhecimento são três elementos indissolúveis, ou se tornarão profissionais ultrapassados neste nosso mundo… Ler mais »

MARA SILVIA SARTORI
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MARA SILVIA SARTORI

Desde a abertura da educação em 1970 muitos professores tem encontrado dificuldade em lidar com a diversidade e a inclusão no âmbito escolar. Além disso a evolução tecnológica também vem contribuindo para essa dificuldade. Os alunos de hoje, chamados de “Geração Z”, quase chegando a “Y” são imediatistas, antenados e vivem conectados. O professor hoje tornou-se um mediador da aprendizagem, possibilitando, dessa forma, que o próprio aluno busque o conhecimento.

MARA SILVIA SARTORI
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MARA SILVIA SARTORI

Desde a abertura da educação em 1970 muitos professores tem encontrado dificuldade em lidar com a diversidade e a inclusão no âmbito escolar. Além disso a evolução tecnológica também vem contribuindo para essa dificuldade. Os alunos de hoje, chamados de “Geração Z”, quase chegando a “Y” são imediatistas, antenados e vivem conectados. O professor hoje tornou-se um mediador da aprendizagem, possibilitando, dessa forma, que o próprio aluno busque o conhecimento.

Elisa Alcântara
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Elisa Alcântara

Olá Leandro!! Também sou doutorada em Linguísitica e trabalho na UFT-Araguaína-TO. Tenho um grupo de estudos de professores de Língua Inglesa aqui no Tocantins. Nosso grupo se chama GEPLITO- Grupo de estudos de professores de língua Inlgesa do Estado doTO. Neste grupo, estudamos textos e produzimos atividades inovadoras com base nos estudos sobre letramento crítico. Falamos sobre assuntos que quase não aparecem nos livros didáticos claramente. Discutimos gênero, preconceito, poder e elaboramos atividades. Depois levamos… Ler mais »

fabio cardias
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fabio cardias

boa, estamos em sintonia, e com outros educadores das gerações a frente e atrás…somos poucos, mas é por aí…

Elisa Alcântara
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Elisa Alcântara

Olá Leandro!! Também sou doutorada em Linguísitica e trabalho na UFT-Araguaína-TO. Tenho um grupo de estudos de professores de Língua Inglesa aqui no Tocantins. Nosso grupo se chama GEPLITO- Grupo de estudos de professores de língua Inlgesa do Estado doTO. Neste grupo, estudamos textos e produzimos atividades inovadoras com base nos estudos sobre letramento crítico. Falamos sobre assuntos que quase não aparecem nos livros didáticos claramente. Discutimos gênero, preconceito, poder e elaboramos atividades. Depois levamos… Ler mais »

luiz rauber
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se educa pelo exemplo

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Samuel da Silva Alencar
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Samuel da Silva Alencar

Parabéns!

Daniela Gomes
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Parabéns, Leandro, texto muito inspirador. Seu exemplo deveria ser seguido por mais educadores!

Lis Gomes de Oliveira Lúcio
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Lis Gomes de Oliveira Lúcio

Excelente!