Professor propõe redescoberta de comunidade indígena em São Paulo - PORVIR
Crédito: Commons Wikimedia

Diário de Inovações

Professor propõe redescoberta de comunidade indígena em São Paulo

A partir do contato com alimentos como mandioca, batata doce e inhame, alunos criaram seres indígenas ou seres da natureza

por Leno Vidal ilustração relógio 10 de dezembro de 2015

Eu sempre soube que tínhamos uma comunidade de índios Pankararu na região do Real Parque, em São Paulo, mas quando eu cheguei na EMEF José de Alcântara Machado Filho, há quatro anos, não havia me aprofundado nessa experiência. Em um passeio ao Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, encontrei o DVD “A terceira margem: Pankararu”, um trabalho feito pela Associação S.O.S Comunidade Indígena Pankararu  e pensei: “tem até DVD e nós não estamos trabalhando essa questão com mais profundidade”.

Então, comecei a passar o vídeo no início das aulas e os alunos começaram a se reconhecer e reconhecer o espaço do Real Parque. Foi aí que começamos o projeto “Eu venho do mundo: raízes Pankararu”. Fiz um levantamento da quantidade de alunos indígenas, peguei uma tese de mestrado para estudar sobre biomedicina Pankararu e assim fomos costurando a primeira parte do projeto.

Os alunos Pankararu da escola tinham muita vergonha de sua identidade e origem. Quando apresentei o projeto, eles ficaram bem envergonhados, mas com o passar do tempo, reconheceram seus familiares e a própria origem nos nossos estudos.

Foi aí que comecei a trabalhar as relações com a arte. Quando descobri que a favela do Real Parque inicialmente chamava Favela da Mandioca eu peguei uma obra do artista holandês Albert Eckhout, que tem uma pintura chamada mandioca (foto acima). Foi aí que eu tive aquela sacada: “vou começar a associar às raízes”.

Comprei mandioca, batata doce, inhame, cará. Em casa, comecei a coletar objetos indígenas. Levei tudo pra escola, coloquei em cima de uma esteira e montei um cenário dentro da sala de aula. Nós experimentamos o toque e o cheiro das raízes. Depois, propus que os alunos usassem a arte para construir seres raízes: a partir dos alimentos, os alunos usaram a criatividade para criar seres indígenas ou seres da natureza.

Além desse trabalho, a prefeitura tem um currículo muito forte em relação às questões étnico raciais. Em agosto, nós tivemos o agosto indígena, quando o projeto tomou outra proporção. Fui convidado a apresentar o trabalho na EMEF Desembargador Amorim Lima. Nós levamos os alunos da EJA e alguns do sexto ano para participar do seminário. Outras escolas apresentaram as atividades que fizeram e quando chegou no nosso momento, eu falei: “nada mais interessante do que o próprio índio falar da sua cultura”. Foi um trabalho muito enriquecedor.

Trabalhando com cenários, eu percebo que os alunos ficam curiosos. Há aquele deslocamento da sala de aula, daquele universo de uma cadeira atrás da outra. Falar da cultura indígena é falar de Brasil, de identidade. É justamente buscar falar do combate ao preconceito, da discriminação, do que os alunos sofrem, do que eles sentem, da vergonha que tinham.

Desde que os professores começaram a permanecer na escola e desenvolver atividades especialmente pensadas pros alunos, o índice de violência diminuiu muito. Depois do projeto, eu percebi que alunos da EJA (educação de jovens e adultos) e do sexto e nono ano têm um respeito maior, tanto pelo trabalho realizado nas aulas de arte quanto pela comunidade dos índios Pankararu. Os alunos indígenas estão num processo de se reafirmarem dentro da escola. Eles realmente pararam de ter vergonha de suas origens. A nossa ideia é fazer do Alcântara Machado um espaço de referência em São Paulo dessa etnia indígena.


Leno Vidal

Formação em Artes Visuais e Tecnologia da Imagem. É professor de arte da Rede Pública Municipal de São Paulo, no ensino fundamental I, II e Médio. Paralelo a educação, desenvolve trabalhos em áreas de cenografia e figurinos para eventos teatrais e é aderecista de alegorias e fantasias.

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diversidade, educação de jovens e adultos, ensino fundamental, uso do território

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Identidade e pertencimento é tudo o que alunos e professores dessa escola cheia de desafios que é a EMEF José de Alcântara Machado, precisam (re)encontrar. Parabéns pelo trabalho e por se esforçar para divulgá-lo professor Leno.