Rede de apoio à gestão escolar é crucial no combate à evasão - PORVIR
Crédito: Eder Chiodetto/Livro Ser Diretor/Instituto Unibanco

Inovações em Educação

Rede de apoio à gestão escolar é crucial no combate à evasão

Por ser uma questão intersetorial, as soluções para a evasão precisam também estar articuladas por múltiplos atores da gestão pública e comunidade escolar

Parceria com Instituto Unibanco

por Luciana Alvarez ilustração relógio 14 de julho de 2022

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Este conteúdo faz parte da
Série Estratégias Contra a Evasão Escolar

O horário de aulas acaba, mas muitos alunos do último ano das escolas estaduais do Piauí continuam por lá estudando, incentivados uns pelos outros. “Tem pais que ligam, mães que vão até a escola, porque mal podem acreditar que acabam as aulas e os filhos não voltam para a casa”, relata Maria José Mendes, diretora de ensino e aprendizagem da secretaria estadual de educação. O objetivo imediato dos grupos de estudo é melhorar a aprendizagem, mas há outros “efeitos colaterais”: alunos com fortes laços na escola abandonam menos os estudos. 

Depois de projetos bem-sucedidos em algumas unidades, a rede piauiense criou um programa de monitorias de preparação para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) no contraturno, da qual todas as escolas de ensino médio podem participar. Mais de 640 escolas aderiram. Os alunos com melhores notas são convidados a serem monitores; os demais, a frequentar para aprender mais. Cada aluno monitor fica responsável por ajudar em português ou matemática a, no máximo, 15 colegas. A contrapartida para os monitores é, ao fim do estudo, poder ficar com o tablet que foi emprestado para o ensino remoto.

As vantagens não se resumem ao bom resultado no Enem: as monitorias fortalecem os laços da comunidade escolar, o que ajuda a prevenir a evasão. “Os gestores têm de chamar os estudantes, que estavam há cerca de dois anos afastados, estimular o fortalecimento dos vínculos, dizer para que tragam seus colegas. Além da monitoria, recomendamos que as escolas abram as salas de leitura e as quadras. O gestor deve motivar os alunos para que gostem de estar na escola e se sintam pertecentes”, afirma Maria José. 

Ela também ressalta: medidas que apoiam esse movimento podem ser promovidas dentro do horário regular, pelos próprios docentes. “Os profissionais da educação precisam entender o que vem atrás desse aluno que parece não querer estar na escola. Eles passaram por muitas dificuldades. Agora temos de fazer o resgate das habilidades que não foram adquiridas. Para isso, o estudante hoje precisa interagir, aprender com metodologias ativas. Tudo isso vai impactar o abandono e evasão”, explica a diretora. 

Tais ações, lembra Maria José, são importantes no longo prazo, para manter na escola os jovens que voltaram depois da reabertura, mas não excluem outras providências mais emergenciais, como promover a busca ativa dos que não voltaram, assim como programas que ofereçam renda aos estudantes. 

Por serem questões complexas, com várias causas, a evasão e o abandono devem ser uma preocupação da sociedade toda, uma parceria de educadores e alunos, família, governo e sociedade. “É fundamental um esforço conjunto do governo, da sociedade e da comunidade escolar para conhecer a fundo o problema, debater as diversas visões e enfrentar o problema. É preciso rever os currículos, a avaliação das aprendizagens e os cotidianos escolares, criando espaços inclusivos, em que todos tenham direito a trajetórias de sucesso escolar”, afirma Mirela Carvalho, gerente de desenvolvimento de soluções do Instituto Unibanco. 

Por isso, estratégias como a das monitorias do Piauí podem surtir bons resultados. “Claro que não estamos falando aqui de terceirizar a responsabilidade aos jovens. Mas, quando há uma estratégia em comum, pactuada por todos, e que envolve múltiplos atores, a potência das ações torna-se muito maior”, avalia Mirela. Além disso, como o problema da evasão é intersetorial, as soluções precisam também ser articuladas por múltiplos atores da gestão pública, como conselhos tutelares, assistência social e área da saúde.

Rede de proteção

Professor da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) e coordenador da Escola de Conselhos de Pernambuco, Humberto da Silva Miranda defende que a evasão não pode ser considerada uma responsabilidade da escola. “A própria Constituição diz que a educação é responsabilidade do Estado, família e sociedade. De certa forma, a escola é uma vítima da evasão, porque a evasão é entrecruzada com a desigualdade social. A evasão não é um fenômeno atual; ela sempre existiu. Mas há momentos que se intensifica, como agora”, diz. 

A Escola de Conselhos oferece formação para conselheiros tutelares, a fim de prepará-los para a função. Um dos objetivos é que os conselheiros tenham uma relação próxima com as escolas, reconhecendo que a não frequência é uma violação de direitos, mesmo no caso dos adolescentes que evadem do ensino médio. “Para alguns, parece melhor trabalhar do que estudar. Até dentro da rede a gente precisa enfrentar esse discurso apologético ao trabalho, que ele dignifica, que é melhor estar trabalhando do que roubando. Por isso é necessário que haja formação dentro da rede de proteção”, afirma Humberto. 

Em 2019, todos os conselheiros tutelares foram empossados, com número significativo de conselheiros novos. “Em Pernambuco, 60% são novos. A pandemia começou em 2020; eles tiveram um ano de trabalho antes dela. E muitos chegaram sem um conhecimento efetivo”, relata o professor. 

Segundo Humberto, o ideal é que as relações entre escolas e o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente – que inclui conselhos tutelares, assistência social e de saúde, Ministério Público – tenham uma parceria constante, de acompanhamento frequente. “O gestor precisa de um convívio regular com o conselho tutelar e com a rede de proteção, com os centros de referência de assistência social, em vez de uma relação episódica. Que eles busquem entender a questão como um compromisso coletivo”, recomenda. 

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Mutirão de busca

No Colégio Estadual Professora Margot Terezinha Noal Giacomazzi, em Canoas, Rio Grande do Sul, houve um grande esforço conjunto em setembro do ano passado para trazer os alunos de volta para o estudo. A escola de ensino médio ainda funcionava de forma híbrida, mas a equipe gestora percebeu que havia um grande número de estudantes que não aparecia nem presencialmente, nem nas atividades remotas da escola. 

“No ano anterior, 2020, eles perceberam que, mesmo quem não fez nada da escola, acabou passando de ano. Então pensavam: ‘Se meu colega não fez, também não vou fazer’”, conta o diretor, Cleber André Sganzerla. De um total de mil alunos, cerca de 400 estavam sem comparecer ou entregar atividades. 

“A gente se dividiu e foi ligando para os estudantes. Chamamos todos os que estavam com notas baixas e muitas faltas para virem na escola com os pais, para assinarem um compromisso de que iriam se dedicar a partir de setembro. Em troca, a gente só ia considerar as notas deles do 3º semestre e da recuperação”, afirma. Desse total, só oito não assinaram o termo: em dois casos, as famílias queriam que eles repetissem o ano e seis alunos não foram mesmo localizados. “Tentamos os números que tínhamos, mandamos cartas, perguntamos por eles para os colegas de classe. Talvez tenham se mudado e não avisaram a escola”, diz. 

O empenho na reta final do ano letivo fez com que a lacuna de aprendizagem não fosse tão grande. E, o mais importante, é que a medida restabeleceu o vínculo desses alunos com a escola. 

Mais do que uma iniciativa da gestão, foi algo que mobilizou toda a comunidade escolar. E continua mobilizando. “É algo que precisa de continuidade. Os professores já passam listinha dos que faltaram, antes de aparecer no sistema. A gente já liga. Os próprios alunos vêm nos falar quando um colega não está vindo”, afirma a supervisora. Fernanda Michele Kettermann. Um dos resultados é que em 2022, a escola vai ter 200 formandos no 3º ano do ensino médio, um número alto até para os anos antes da pandemia. 

Material de apoio

A fim de orientar as escolas no combate à evasão e ao abandono, a secretaria de educação do Rio Grande do Sul lançou, em 2021, o Guia de Busca Ativa Escolar, com o passo a passo para a busca ativa dos estudantes, sugestões para manutenção dos vínculos, boas práticas de escolas como a Margot Terezinha Noal Giacomazzi, bem como o caminho para acionar a rede de proteção. 

A estratégia segue o modelo do guia Busca Ativa Escolar em Crises e Emergências, publicado em 2020, parceria entre o Unicef (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância), Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), o Congemas (Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social) e Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde). Ao todo, 3.198 municípios e 17 estados brasileiros (Acre, Alagoas, Amazonas, Ceará, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins) aderiram ao projeto, que será detalhado na próxima reportagem desta série.

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enem, ensino médio, evasão, gestão escolar, série estratégias contra a evasão escolar

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