Estudantes globais, cidadãos locais: a importância da regionalização do currículo - PORVIR
Crédito: Diego Nobrega/Governo da Paraíba/Reprodução

Inovações em Educação

Estudantes globais, cidadãos locais: a importância da regionalização do currículo

Nesta segunda reportagem da série "Currículo para o protagonismo do estudante", especialistas da Paraíba, Santa Catarina e Goiás falam sobre a necessidade de refletir, e aprender, com questões do território no qual o aluno está inserido

Parceria com Instituto Unibanco

por Ana Luísa D'Maschio ilustração relógio 13 de junho de 2022

O Rio Piancó, na Paraíba, banha 26 municípios e chega a quase 200 mil pessoas. Uma das cidades cortadas por suas águas é a pequena Conceição, localizada no sertão paraibano, com pouco mais de 19 mil habitantes. Vêm dos estudantes da EEEF (Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio) Nossa Senhora de Fátima e da Escola Cidadã Integral Maestro José Siqueira a preocupação e a iniciativa “Rio e ruas: resgate histórico e intervenção ambiental do Rio Piancó e seu afluente Serra Vermelha”. A 477 quilômetros dali, na capital João Pessoa, meninos e meninas da Escola Cidadã Integral Técnica Professor Luiz Gonzaga de Albuquerque Burity também estão envolvidos com a preservação da natureza, com o projeto “A aplicação do mesocarpo do maracujá na produção de material substituto ao isopor”, criando embalagens ecológicas para empresas de delivery (vídeos abaixo).

As atividades curriculares se unem à ação cidadã, focadas na conscientização e na preservação ambiental das comunidades. São exemplos da regionalização do currículo no ensino médio, com propostas que partem de questões locais, sem esquecer as globais, em seus Itinerários Formativos. “Vasto mundo: meu quintal é global” é, inclusive, o nome de uma das trilhas educativas paraibanas. 

“São dois projetos representativos aqui do estado, entre outros tantos que vêm sendo desenvolvidos. Ambos mostram a potencialidade dos estudantes em falar sobre a realidade local, em identificar as necessidades da comunidade e promover uma sensibilização, trazendo questões locais para a escola, muito além da preocupação de só passar no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)”, avalia a educadora Luiza Iolanda Cortez, coordenadora do Programa Celso Furtado de Inovação Educacional e Desenvolvimento Regional,da Secretaria de Estado da Educação e da Ciência e Tecnologia da Paraíba.

Ao lado de outros colaboradores, Luiza participou ativamente, por mais de dois anos, da construção do currículo paraibano do Novo Ensino Médio, como redatora de história e auxiliar na escrita dos Projetos de Vida. “Uma das grandes belezas desse novo currículo é promover uma educação em sintonia com as demandas da sociedade que tem buscado ser mais crítica, mais reflexiva na construção de novas competências e habilidades, promovendo engajamento e trazendo novo sentido para os estudantes”, afirma. 

Histórico do debate

Quando se fala em fala em regionalização do currículo, o assunto remete aos ensinamentos de Paulo Freire (1921-1997), patrono da educação brasileira, voltados à importância de um ensino contextualizado, que busque uma maneira de educar conectada ao cotidiano e experiências dos estudantes. É o que explica Felipe de Souza, coordenador de implementação de programas do Instituto Unibanco. “Isso tem relação direta com o regionalismo no currículo e com as preocupações advindas dos ‘padrões’ estabelecidos nos últimos anos para a oferta educacional”, diz Felipe, também líder do Programa Jovem de Futuro do Instituto no Ceará e no Espírito Santo.

Apesar de, historicamente, a inserção da regionalidade dos currículos ganhar mais força nos debates a partir de 2012, com as Novas Diretrizes Curriculares do Ensino Médio, o especialista traça uma linha do tempo sobre as orientações ofertadas pela educação básica no que se refere ao olhar regional. A Lei de Diretrizes e Bases, de 1996; as Diretrizes Curriculares Nacionais, entre 1997 e 2013; a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) como estratégia do PNE (Plano Nacional de Educação), em 2014, e, por fim, a homologação final da BNCC do Ensino Médio, em 2018. “É importante lembrar que a BNCC não deve ser confundida com currículo. Ela é, sim, um orientador curricular, outorgando aos estados e municípios a elaboração dos currículos a partir de dos princípios e aprendizagens definidos localmente, contemplando neste movimento os aspectos específicos de cada região”, ressalta.  

Segundo o presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) Vitor de Angelo, o processo de regionalização dos currículos segue em curso. “A ideia do local tem muito a ver com os novos currículos e o fato de que neles há espaço tanto para conteúdos padronizados Brasil afora quanto para conteúdos georreferenciados de cada rede. Na escrita do currículo, essas combinações puderam ser feitas e agora estão numa fase de implementação”, ressalta Vitor, que também é secretário de Educação do Espírito Santo. Para ele, a principal parte dessa fase é o aprofundamento dos Itinerários Formativos, parte flexível do currículo, com mais espaço para trabalhar as questões locais.

Escuta e protagonismo

Superintendente de ensino médio da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, Osvany Gundim conta que o currículo do ensino médio goiano foi pensado a partir da escuta com representantes da educação do campo, quilombolas, indígenas e povos itinerantes, bem como estudantes dessas frentes. “O estado de Goiás é formado por diferentes culturas, consideradas no decorrer da escrita do nosso documento curricular, com o cuidado local para trabalhar o global”, diz. Osvany exemplifica o desenho do documento  com uma das trilhas desenvolvidas, intitulada “Agropecuária: história e processos econômicos”. Ela destaca que o estado tem um braço muito forte na questão agropecuária, representando 11% do PIB (Produto Interno Bruto), e a proposta tem como objetivo entender o papel dessa frente. 

Outra questão trazida pela juventude na construção do currículo foi a preparação para o mercado de trabalho. “Nossos jovens se interessam pelo coletivo, não olham apenas para a sua realidade. Durante a escrita do documento, fizemos várias rodas de conversa e sentimos que os estudantes queriam ter eletivas relacionadas à qualificação profissional. Criamos três eletivas relacionadas ao tema, para que possam estar mais preparados para o primeiro emprego”, pontua Osvany.  

Já no Sul do Brasil, o Currículo Base do Ensino Médio do Território Catarinense contempla, em seus roteiros, o item “adaptação a contextos locais”. “O documento orienta o professor sobre a importância de considerar as características do contexto em que a escola está inserida e mostrando a preocupação de garantir espaços de personalização dos componentes de acordo com a realidade da comunidade escolar”, conta Renata Lazzarini Monaco, líder de implementação no Instituto iungo, que apoiou a construção dos roteiros pedagógicos de Projetos de Vida em Santa Catarina.

A rede também conta com um material específico voltado aos estudantes, para apoiá-los a conhecer melhor os Componentes Curriculares Eletivos oferecidos, que dialogam com seus interesses. De acordo com Renata, a flexibilização curricular proposta pelo Novo Ensino Médio é uma aposta importante para a escola estabelecer diálogos interessantes com a diversidade. “Não há um único caminho para todos os estudantes, mas há caminhos a serem escolhidos. O fato de serem abertos espaços de escolha para a construção da trajetória acadêmica permite acolhimento aos interesses e desejos juvenis, que são diversos”, diz. 

Para a especialista, as escolhas sobre as eletivas e trilhas de aprofundamento e o trabalho com Projetos de Vida ganham centralidade nos currículos alinhados à BNCC, favorecendo pontes com as necessidades dos jovens. “Para além desses espaços de escolhas, a própria construção do processo de ensino e de aprendizagem envolvendo a participação ativa dos estudantes pode ser também um potente caminho para o abraço à diversidade, porque envolve escuta e consideração ao que os jovens de diferentes culturas, diferentes classes sociais, diferentes regiões, trazem para dentro da escola.”

Incentivo aos Projetos de Vida

Um currículo com ênfase regional deve propiciar processos de ensino e aprendizagem que façam sentido para as juventudes e que as motivam a permanecer na escola, reforça Felipe de Souza. “Preserva-se, assim, uma boa trajetória acadêmica, entendo-a enquanto elemento central para a realização de seus Projetos de Vida”.

Para aprender mais, e melhor, sobre a realidade local, os especialistas concordam que as metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Projetos, são caminhos a ser percorridos. “Se considerarmos que um primeiro passo dessa metodologia é a identificação de problemas que podem estar presentes na comunidade escolar ou do entorno, você estimula um olhar crítico para o contexto, uma leitura e interpretação da realidade local e mais que isso, a busca de soluções para o que for diagnosticado. Isso gera a possibilidade de envolvimento dos estudantes com a realidade local e até o desenvolvimento do sentimento de pertencimento e corresponsabilidade”, ressalta Renata Monaco.

Estimular o jovem a ter um olhar crítico sobre seu território é um processo facilitado pela oportunidade oferecidas pelos debates, avalia Vitor de Angelo. “Antes, nós tínhamos um currículo padronizado, com questões gerais para o Brasil todo. Era muito difícil discutir esses temas, até pela falta de espaço institucional. Agora, esse estímulo vem da oportunidade de poder estudar e ter contato com essa realidade local expressa nos currículos regionais e estaduais.”

Para além de um cidadão nacional, as pessoas estão em suas regiões, que contam com suas diferenças e vivem essas especificidades, diz Vitor. “Um currículo que abre espaço aos saberes locais nada mais faz do que expressar uma realidade vivida, concreta para cada estudante que se localiza naquele território”, conclui. 

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competências para o século 21, ensino médio, protagonismo jovem, série currículo para o protagonismo do estudante

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