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Inovações em Educação

Cascavel usa criatividade para adotar software livre

Programa Escola.com adapta uso de tecnologias à realidade local para diminuir custos e ampliar alcance

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 6 de fevereiro de 2015

Com criatividade e um plano progressivo para inclusão de tecnologia dentro da sala de aula, a rede de Cascavel (PR) tem conseguido superar os entraves da burocracia e os problemas de conectividade que tanto afetam o aproveitamento pleno dos recursos digitais em escolas do país.

Da licitação para compra de máquinas aos cursos de formação, a cidade paranaense soube aprender com as dificuldades e hoje tem todas as escolas rurais e urbanas com conexão à internet (70% já estão com rede sem fio dentro da sala de aula), 2300 professores prontos para usar software livre e alunos tendo o primeiro contato com a informática desde a pré-escola.

A mudança na maneira de integrar a tecnologia às aulas aconteceu a partir de 2009, quando todas as unidades de ensino foram equipadas com laboratórios de informática do PROINFO (Programa Nacional de Informática na Educação) que podiam ser usados durante o horário regular de aula. Antes disso, aprender a mexer com editores de texto, planilhas de dados ou ferramentas online era algo restrito ao contraturno.

Em 2010, com ajuda de recursos federais, Cascavel implantou o Núcleo de Tecnologia Municipal (NTM), responsável por capacitar os profissionais de educação e ajudar na disseminação da cultura de software livre. São 400 vagas por ano, em média, mas o plano inicial que oferecia cursos de software livre fora do horário de trabalho teve de ser revisto por um motivo bem simples: as primeiras turmas tiveram apenas 50 inscritos.

O professor não tem como fugir e escolher se vai aprender a usar tecnologia, porque muitas vezes o aluno chega na escola sabendo mais do que ele

A solução foi integrar a formação ao dia a dia do profissional. “Agora não é à noite, não é no sábado. É em horário de trabalho. O professor não tem como fugir e escolher se vai aprender a usar tecnologia, porque muitas vezes o aluno chega na escola sabendo mais do que ele. Se não buscar atualização, vai se tornar obsoleto”, disse Jocemar Nascimento, coordenador do núcleo em palestra na Campus Party, evento que acontece em São Paulo. Desde o início do projeto, 2500 servidores passaram pelo curso, que oferece aulas presenciais e à distância para o sistema Linux, o pacote de produtividade LibreOffice, o editor de áudio Audacity, dentre outros programas.

Outro ensinamento veio durante a implantação do projeto piloto do programa Escola.com, que equipa salas de aula com netbooks. A licitação para a compra de máquinas detalhava apenas as especificações de hardware, deixando em aberto a opção de sistema operacional. O resultado ligou o alerta. “Acabou caindo uma máquina com sistema Android. Na mesma época, uma atualização do sistema fez com que ele parasse de aceitar Flash, a tecnologia presente em 90% dos recursos educacionais”, lembra Nascimento.

Em uma licitação de 10 mil computadores, economizamos R$ 900 mil ao usar software livre

O caminho foi lançar uma nova concorrência e adotar o software livre, mas novamente surgiram problemas. Não havia empresa que homologasse todo o conjunto de aplicativos necessários. Uma força-tarefa decidiu pela instalação personalizada pelo próprio núcleo em 4 mil máquinas, com um detalhe: uma a uma. “As empresas queriam R$ 90 pela licença individual. Em uma licitação de 10 mil computadores, economizamos R$ 900 mil ao usar software livre”, diz o representante da cidade paranaense.

Passado o problema com os equipamentos, logo veio o da conectividade. Como em outras localidades, Cascavel sofre com problemas da banda de internet que não é tão larga quanto promete. Para contornar isso, cada escola da rede recebeu um servidor onde o professor, antes de começar sua aula, pode salvar o conteúdo da internet e permitir que os alunos o acessem via rede local, agora sim, a toda velocidade, sem o risco de que conexão caia bem no meio da aula.

10801506_940334429329759_5898234135996955897_nCrédito: Divulgação

 

Em maio de 2014, quatro anos após o início dos cursos de formação (que já alcançou 70% da rede), os netbooks começaram a chegar às salas de aula. Uma setor dentro da própria Secretaria de Educação, a Oficina de Móveis Escolares, é responsável por fabricar os armários onde eles ficam guardados até que a criança complete o 5º ano e o leve para casa, uma medida prevista em lei.

“É desperdício de dinheiro, podem dizer. Mas em dois anos vou conseguir trocar alguma peça? A máquina vai ficar obsoleta na escola e virar lixo eletrônico. Se o aluno fica com ela, vai usar por todo o seu tempo de vida restante”, diz Nascimento. No fim do 2014, 4150 alunos ganharam os netbooks de 10 polegadas, com conexão sem fio, HDMI e 320GB de disco rígido e 3GB de memória.

Próximos passos

Para 2015, o Escola.com pretende ir além dos netbooks. Um novo projeto piloto, realizado em uma escola, receberá kits de robótica livre. “Vamos decidir entre dois tipos diferentes qual se adequa melhor à nossa realidade. Depois de um trabalho de formação, eles serão usados a partir do quarto ano, no ensino médio e técnico”, diz Luís Fabio Queiroz, gerente da Fundetec (Fundação para o desenvolvimento científico e tecnológico) de Cascavel.


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campus party, tecnologia

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