Solidão do professor tem origem na falta de integração com equipe gestora - PORVIR
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Solidão do professor tem origem na falta de integração com equipe gestora

Vencedora do prêmio Educador Nota 10 reforça importância de espaços de escuta, envolvimento de educadores em tomadas de decisão e responsabilização coletiva pelo aprendizado dos estudantes como forma de apoiar os docentes

Parceria com Conectando Saberes

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 25 de junho de 2021

Uma das principais descobertas da pesquisa Observatório do Professor, realizada pelo Instituto Península, é que muitos professores da educação básica no Brasil sentem-se sozinhos e impotentes para encarar desafios complexos nas salas de aulas brasileiras. Entretanto, mais do que a falta de incentivo à colaboração e de momentos de conexão entre educadores de uma mesma escola, o desafio tem origem na cultura e gestão escolar, como explica Joice Lamb, coordenadora pedagógica da EMEF Profª Adolfina J. M. Diefenthäler, em Novo Hamburgo (RS).

Joice foi eleita educadora do ano em 2019 pelo Prêmio Educador Nota 10. Mas, para chegar nesse ponto, precisou promover uma mudança generalizada na escola, que teve início ainda em 2012 com enfoque nos sentimentos dos professores da instituição para melhorar os índices de aprendizagem dos estudantes.

Desafio estrutural
“Muitas vezes, o professor dentro de sala de aula nem percebe que está solitário. Costumo dizer que eles são abandonados pela escola, que não é vista como um conjunto, mas sim como um amontoado de turmas, com cada professor precisando dar conta de seus alunos. Ele sente como se tivesse que prestar contas para o professor do ano seguinte, pois está preso nessa ideia ‘o que vão pensar de mim se meus alunos forem para o próximo ano sem aprender?’. Então esse abandono e falta de apoio fica disfarçado como autonomia do professor, o que é muito prejudicial para a escola”, explica a coordenadora.

De acordo com Joice, a solidão docente é um desafio estrutural, que não será resolvido apenas com rodas de conversa ou acolhimento, mas sim com processos abertos, coletivos e democráticos de trabalho e ações concretas, que façam o professor se sentir tranquilo.

Por sua vez, Daniela Caldeirinha, diretora de projetos da Fundação Lemann, destaca um outro lado da questão: a própria estrutura da carreira da profissão docente no Brasil que, em muitos casos, faz com que profissionais, sobretudo da rede pública de ensino, dividam o seu dia entre duas ou até três escolas, criando uma rotina que não permite tempo hábil para conversas e trocas entre pares.

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Começando: a importância da gestão
Sem um grupo coeso formado por diretor, coordenadores e orientadores que se sintam seguros e pertencentes no ambiente escolar, é missão quase impossível promover melhorias, compreensão e acolhimento para o restante da equipe, conforme afirma Joice. Por isso, um dos primeiros passos para mudar a cultura vigente na EMEF Adolfina foi a transformação da gestão.

A educadora também pontua a importância do alinhamento e tomada de decisões conjunta durante as reuniões buscando o consenso e evitando divergências internas. “Ser uma força unida ao sair de uma reunião é algo que dá segurança ao professor, pois mostra a ele que a gestão da escola é séria.”

Entretanto, só é possível constituir o que a educadora chama de força unida se não houver barreiras de integração, como comenta Daniela. Segundo ela, é fundamental que o gestor escolar tenha clareza sobre os pontos específicos que impedem que os professores apoiem-se uns nos outros e contem com o amparo da gestão.

“O gestor precisa ter um profundo conhecimento sobre como está estruturada a rotina e a vida do seu corpo docente. Também é necessário naturalizar a cultura de colaboração dentro da escola. Uma boa forma de reduzir a solidão é utilizar os momentos que já existem de planejamento pedagógico e promover uma troca entre pares, aproveitando o potencial que já está ali”, explica Daniela.

A especialista reforça, ainda, que é interessante que a gestão tenha posicionamentos na direção de criar ambientes seguros para que os professores possam falar sobre seus desafios e dificuldades reais e encontrar contribuição e amparo dos colegas. “Para criar esse ambiente onde é possível falar sem medo, talvez o coordenador ou diretor precisem fazer isso primeiro e dizer quais dificuldades enfrentam na gestão da escola. Essa exposição é crítica para criar um ambiente onde você modela o comportamento”, exemplifica a diretora.

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Espaços de participação
Envolvimento e participação dos professores são dois pontos relacionados à importância do trabalho coletivo em uma escola. Em escolas democráticas, por exemplo, que realizam assembleias com os estudantes, é fundamental que os professores também tenham momentos dedicados e possam pensar e participar das tomadas de decisões. Por isso, Joice conta que, na EMEF, implementou a assembleia de funcionários, um espaço onde professores e demais profissionais da escola podem expor seus pontos de vista e se fortalecer em suas ações.

Na assembleia, o professor entende que tem um lugar dentro da escola, que não é apenas um ‘cumprir de ordens’. É um lugar para opinar e decidir as direções das coisas. Discutir na assembleia um projeto que não está dando certo é muito diferente de conversas de corredor ou na sala dos professores. É uma discussão que envolve a escola toda e onde todos se mostram. É nessas reuniões que professores podem encontrar lugar de atuação e de protagonismo no ambiente de trabalho, e não ficar só na execução de processos”, pontua a educadora.

Daniela complementa ao citar outras possibilidades, como a colaboração entre os chamados professores especialistas, que dão aulas sobre determinada disciplina, e professores generalistas/polivalentes (que lecionam no ensino fundamental 1). “Um professor de matemática do fundamental 2 pode apoiar um colega do fundamental 1 na elaboração de uma sequência didática, na adoção de estratégias para desenvolver o aprendizado de matemática ou em algum desafio mais específico.” Além de promover a cultura da colaboração, esse exemplo também pode ajudar na corresponsabilização pelo desempenho dos alunos.

Corresponsabilização
Depois das mudanças na gestão e criação das assembleias dos professores, outro passo fundamental para endereçar o desafio da solidão docente na EMEF gaúcha foi a corresponsabilização pelos estudantes, ou seja, dividir a responsabilidade pelo desempenho de uma criança ou jovem entre vários professores, processo realizado a partir da criação de uma ficha individual da trajetória do aluno. A ideia é possibilitar um acompanhamento institucional do desenvolvimento da criança desde sua entrada na escola, com anotações chave durante cada ano letivo.

“Quando cheguei na escola em 2012, tinham alunos do sexto ano que não sabiam ler. Quando eu questionei o motivo, cada um falava uma coisa. Depois descobri que lá atrás, a mãe não aceitou fazer o atendimento psicopedagógico da criança. Ou seja, a culpa não era da criança ou dos professores, mas sim de um sistema que não conseguia acompanhar seus alunos de uma maneira racional”, comenta Joice.

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Promover esse conhecimento e acompanhamento do percurso pode acontecer de diversas formas, como possibilitar que os professores conheçam todos os alunos da escola a partir de atividades extraclasse, como projetos de iniciação científica em que os estudantes podem escolher o orientador, ou outras propostas, como o projeto Fora da Caixa.

Em linhas gerais, alunos do primeiro ao quinto ano são misturados e divididos em grupos que, com a orientação de professores que fazem um sistema de rodízio, aprendem algo coletivamente: uma pintura, expressão corporal, uma receita, entre inúmeras outras possibilidades. Esse revezamento permite que os professores conheçam todos os estudantes e vice-versa. “Isso faz com que docentes e alunos já estejam familiarizados quando forem ter aula, porque a escola não é um amontoado de turmas. A escola é uma unidade, um conjunto de todo mundo”, explica Joice.

As especialistas citam outras ações relevantes para diminuir o sentimento de solidão docente, como a parceria da gestão não apenas no final do ano quando professores narram situações de alunos que não aprenderam o que deveriam, mas sim ao longo do processo de monitoramento da aprendizagem, e também a criação de conselhos coletivos, isso é, o envolvimento de mais professores na avaliação do desenvolvimento e avanço dos estudantes.

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autonomia, carreira, educação democrática, formação continuada

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