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Inovações em Educação

Estamos confundindo estresse com desafio, diz Paul Tough

Escritor lança no Brasil novo livro com evidências de impacto e exemplos de aplicação de programas socioemocionais em escolas

por Vinícius de Oliveira 4 de julho de 2017

Em casa ou na escola, o mais importante para desenvolver habilidades socioemocionais é oferecer um ambiente que apoie crianças e jovens a terem sentido de pertencimento sem criar uma bolha de superproteção, com atividades que tragam desafios em uma intensidade que não esgote pelo estresse ou pelo viés competitivo. Para mostrar como isso tem sido feito nos mais diferentes contextos, o escritor e jornalista canadense Paul Tough apresentou no último sábado (1), durante o lançamento do programa LIV, do grupo Eleva Educação, as mais recentes pesquisas das áreas de economia, educação e saúde relacionadas às características socioemocionais e seu impacto para o aprendizado. Em sua terceira visita ao Brasil, Tough trouxe ainda seu novo livro “Como ajudar as crianças a aprenderem” (Intrínseca, 128 p.), que descreve práticas e abordagens mais eficazes para o ensino de questões não-cognitivas.

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O que as crianças precisam para ser bem-sucedidas? Quais habilidades elas  necessitam desenvolver ao longo da vida escolar? O que está faltando na educação que é oferecida às crianças em nossas escolas? Em cada país que desembarca (seu primeiro livro foi publicado em 27 idiomas), Tough defende que a maneira com que temos tratado a questão de habilidades é errada porque leva em conta uma hipótese cognitiva, na qual só é importante o que pode ser medido em testes padronizados. Tanto em seu primeiro livro “Como as crianças aprendem” como no “Como ajudar as crianças a aprenderem”, Tough ressalta que deve-se dar cada vez mais importância no mundo atual a características como garra, perseverança, curiosidade, otimismo, consciência e autocontrole.

Durante a época em que estava escrevendo o primeiro livro, Tough conta que costumava levar os conceitos que escrevia para dentro de casa. Após ler artigos no escritório pela manhã, sentava-se à tarde no tapete da sala para divertir e ler histórias para o filho. “Era difícil não pensar no meu filho como um assunto de experimentação”, brinca. Foi nesse período que ele também se interessou pelos aspectos biológicos do estresse, em particular pela linha de pesquisa da pediatra Nadine Burke Harris (assista ao TED sobre o assunto), de São Francisco, na Califórnia (EUA). “Ela encontrou um estudo sobre trauma e seus efeitos de longo prazo que mudou sua perspectiva. Ele dizia que se você avaliar qualquer amostra de indivíduos adultos, os que passaram por traumas significativos durante a infância apresentam três vezes mais casos de câncer que o normal e chance de suicídio 12 vezes maior”. Em comum, todos esses casos tem a ver com estresse no começo da vida, justamente quando diversos sistemas estão se desenvolvendo no corpo e no cérebro.

O problema é quando a criança enfrenta estresse que não é suave e casual, mas tóxico, que não ajuda e sim debilita o sistema de resposta do cérebro

“Um bebê fica com medo e chora, mas quando alguém o pega no colo e o acaricia, ele se acalma. O problema é quando a criança enfrenta estresse que não é suave e casual, mas tóxico, que não ajuda e sim debilita o sistema de resposta do cérebro. Esse dano deixa marcas que podem durar a vida toda, afetando a parte física e mental, o que prejudica o desenvolvimento de um conjunto de habilidades de concentração, que pesam tanto desde o primeiro dia no jardim de infância até o último dia pós-graduação”, disse Tough.

Apesar da parte depressiva da pesquisa, o escritor disse existir também uma outra, positiva, que ele chama de “arma secreta” contra o estresse tóxico: o contato entre as crianças e os pais. Para demonstrar isso, citou um estudo canadense no qual ratos que tiveram contatos intenso e receberam carinho de seus pais se mostraram mais corajosos, mais saudáveis e tiveram um desenvolvimento cerebral maior do que aqueles que ficaram isolados logo após o nascimento. “Existe um equivalente humano ao lamber e limpar que os ratos fazem que é o carregar, acariciar e conversar, o que para alguns pais acontece de maneira natural”.

 

Paul Tough

Paul Tough

 

Momentos estratégicos

Para Tough, o que mais tem lhe chamado a atenção é como uma nova geração de neurocientistas têm conseguido relacionar o estado bioquímico do cérebro das crianças e seu estado psicológico durante a vida adulta. “Se quisermos intervir no desenvolvimento não-cognitivo, existem dois momentos propícios: um é na primeira infância, quando o cérebro está maleável, e o outro é na adolescência, quando pela primeira vez somos capazes de refletir como pensamos. Essas intervenções podem ajudar os jovens a mudar seu padrão de comportamento, hábitos e caráter por completo”.

Tough conta ter visto essas medidas em ação durante seu trabalho como jornalista para a revista TIME em duas escolas de Nova York. A unidade Infinity da rede de escolas charter (públicas com administração privada) KIPP, que fica no Harlem e tem alunos de baixa renda, e a Riverdale Country School, de elite, localizada no Bronx. Os alunos de ambas as instituições se saíam bem em testes, mas seus diretores diziam que alunos não estavam preparados para lidar com problemas reais de sua vida.

Em conjunto com a Universidade da Pensilvânia, que cruzou dados estatísticos, o grupo de gestores chegou a sete características que poderiam indicar sucesso no longo prazo: otimismo, entusiasmo, curiosidade, inteligência social, gratidão e autocontrole. “Não acho que essas sete qualidades sejam melhores, mas eu gosto dessa lista porque ela tem alguns itens que nem sempre estão afixados nos murais das escolas. Ter um grupo de crianças com muito entusiasmo às 8h da manhã pode ser difícil para o professor lidar, mas é algo que pode ser importante para o sucesso ao longo da vida, especialmente no ensino superior”. Essas pesquisas, segundo Tough, levaram a KIPP, que sempre se preocupou muito com o autocontrole, a rever seus planos, porque quando os alunos iam para faculdade, não havia ninguém dizendo o que fazer ou como eles deveriam se portar. “Eles descobriram que com mais entusiasmo,  e não apenas autocontrole, os alunos conseguiam perseverar e não abandonar o curso”, diz Tough.

Quando analisou o trabalho dos professores que tinham alunos com melhor desempenho, Tough diz que eles não faziam um trabalho explícito e direcionado ao desenvolvimento de habilidades. “Criava-se um ambiente ao redor do aluno em que as habilidades socioemocionais se desenvolviam naturalmente”, disse Tough, que aproveitou a chance para explorar o tema em seu novo livro.

 

Paul Tough Socioemocionais1

“Como ajudar as crianças a aprenderem”, Paul Tough

 

Como ensinar

Mas para onde devem ser direcionados os esforços? Tough afirma que listas de habilidades podem até complicar na hora de criar currículos e vê na perseverança uma porta de entrada para outras discussões. “A perseverança é a habilidade de continuar tentando quando as coisas ficam difíceis. E isso não se resume a uma característica ou habilidade, mas a um conjunto de hábitos, qualidades e tendências que as crianças podem desenvolver com o tempo. O que mais me preocupo é com o que devo fazer quando meus filhos ficam frustrados e não conseguem fazer algo porque isso se desdobra em outras qualidades como curiosidade, inteligência social e entusiasmo. Por isso, a perseverança funciona para mim como um eixo organizador”.

Para o escritor canadense, pais e professores podem fazer muitas coisas que ajudam crianças a serem bem-sucedidas, mas duas ações podem ser destacadas. Uma diz respeito às relações e ao pertencimento. Como podemos conectar nossos alunos ao mundo ao seu redor e as relações com seus colegas e pais? A outra dá conta de desafios, dificuldades e capacidade para lidar com erros.

Estamos confundindo estresse com desafio nas nossas próprias vidas e na dos nossos filhos

Na escola de elite Riverdale, do exemplo acima, o diretor relacionava a falta de desafios causada pela superproteção da família e da cultura dentro da própria instituição de ensino como origem da dificuldade dos alunos em desenvolver certas habilidades. Nesse caso, por mais que pareçam trabalhar duro e ter muita lição de casa, o esforço parece ser em vão, segundo Tough. “No fim das contas, penso que estamos confundindo estresse com desafio nas nossas próprias vidas e na dos nossos filhos”.

Para o escritor, a situação é similar ao contexto de um indivíduo que se exercita em uma esteira e sabe de antemão que em 30 minutos estará exausto. Por outro lado, um alpinista tem o mesmo nível de esforço cardiovascular, mas precisa lidar com o risco e erros que podem fazer com que ele não cumpra seu objetivo. Esse seria o caso da Riverdale, onde o ambiente competitivo não dá chance ao erro.

O que temos nos Estados Unidos e provavelmente aqui no Brasil é uma lacuna de adversidade

“O que temos nos Estados Unidos e provavelmente aqui no Brasil é uma lacuna de adversidade. Algumas crianças, especificamente aquelas que crescem na pobreza, têm que suportar muita adversidade e precisam de proteção. Outras, de famílias ricas, não presenciam adversidade o bastante. Essa parte da equação é muito difícil para pais aceitarem, porque no fundo de seu DNA existe algo que os faz proteger seus filhos a qualquer custo”.

O fato de não terem acesso à boa educação, seja cognitiva ou nao-cognitiva, segundo Tough, deixa muitas crianças sem escolha de seguir ou não uma vida universitária, de optar ou não por um determinado tipo de trabalho. “Estou escrevendo agora um livro sobre ensino superior e isso tem muito a ver com o que eu estou pensando. É tudo estratificado por classe. Estudantes de classe média ou que são os primeiros da casa a irem para a universidade sentem essa experiência como muito perturbadora. As instituições mais bem-sucedidas acabam sendo aquelas que pensam no ambiente ao redor dos estudantes e as mensagens que eles mandam implícita ou explicitamente de que não pertencem a ele, mesmo os que estão academicamente preparados”.

Questão social

Ao final de sua exposição, Tough admitiu que ensinar essas habilidades está longe de ser uma tarefa fácil para pais e professores. “Ainda acho que os primeiros anos de vida são os mais importantes, mas o que as crianças aprendem nessa fase não vem de flashcards (fichas para facilitar a memorização), mas de relacionamentos com o pai, a mãe e outros responsáveis”. Na falta de modelos para lidar com erros, relata que pais nos EUA não querem nem ouvir falar da história de estresse e de ratos, apenas como devem criar seus filhos para entrarem em Harvard ou Stanford, universidades de elite.

Como cidadãos, não devemos nos preocupar apenas com o que acontece dentro de nossas próprias casas

Como as desigualdades sociais são enormes, Tough diz que “como cidadãos, não devemos nos preocupar apenas com o que acontece dentro de nossas próprias casas. Como cidadãos, precisamos redefinir o conceito de ambiente de modo bastante amplo, não apenas para nossos lares e escolas, mas para as cidades e o mundo”.

* Jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite do grupo Eleva Educação

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competências para o século 21, socioemocionais