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Como Inovar

Método de estudo em 4 etapas é bem-recebido por alunos e professores

Alternativa às aulas expositivas, oficinas de estudo desenvolvidas pelo educador Fábio Ribeiro Mendes podem ser implantadas em escolas tradicionais com baixo custo e em curto prazo

por Fernanda Nogueira 17 de janeiro de 2017

Um estudo feito pelo professor e pesquisador Fábio Ribeiro Mendes em escolas estaduais na cidade de São Paulo mostrou que alunos e professores da rede pública aprovam o método de aprendizagem ativa criado por ele, chamado oficinas de estudo. A técnica pode ser usada como alternativa às aulas expositivas nas escolas tradicionais, com baixo custo e curto prazo de implantação.

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O projeto “Aprendizado ativo no cotidiano escolar: capacitação de professores em oficinas de estudo” foi colocado em prática entre abril e maio de 2015 em dez escolas da Diretoria de Ensino Região Centro-Oeste da Secretaria de Estado da Educação do Estado de São Paulo, na cidade de São Paulo. Participaram 1.102 alunos, distribuídos por 44 turmas, e 97 professores.

Os resultados, de acordo com Mendes, que é pesquisador e criador de projetos sobre o desenvolvimento de autonomia de estudantes e também professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), mostram que as oficinas de estudo são uma forma segura de trabalhar com a aprendizagem ativa em salas de aula usuais.

Entre os estudantes, 89,9%, em média, avaliaram as oficinas como boas ou excelentes, com rejeição de apenas 0,6%. Do total, 97,2% se envolveram na atividade e afirmaram que aprenderam sem o professor ter que explicar o conteúdo. Entre os educadores, 93,8% avaliaram a formação de forma positiva (acesse a pesquisa completa, disponibilizada nesta reportagem).

“O objetivo do projeto era reunir dados sobre de que modo os alunos receberiam tal didática, na qual o professor ensina os alunos a estudarem por conta própria a lição do dia, assim como verificar de forma preliminar qual a capacidade dessa didática ser replicada com uma formação curta e prática”, explica Mendes no relatório da pesquisa.

– Clique aqui para baixar o roteiro das oficinas de estudo

Nas oficinas de estudo, o professor deve apresentar o conteúdo a ser trabalhado aos alunos e depois dá orientações para que aprendam a estudar sozinhos, usando o próprio material didático. O trabalho deve ser feito em quatro etapas, que incluem leitura panorâmica do texto em um a dois minutos, marcação de trechos mais importantes em 15 a 20 minutos, sublinhado de palavras-chave em cinco minutos, anotações do que entendeu da forma que o estudante achar melhor, como resumo, esquema, tabela ou desenho, em dez minutos e, por último, resolução de exercícios. Durante o trabalho, o educador deve se movimentar pela sala para tirar dúvidas dos alunos (conheça o roteiro, disponibilizado nesta reportagem).

O treinamento e a prática, organizados por Mendes, ocorreram em um dia de trabalho em cada escola indicada pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Na parte da manhã, na primeira aula do dia, o educador aplicou a oficina de estudo em uma sala de aula, com dois professores da escola observando como ele conduzia o trabalho com os alunos. Na aula seguinte, ele conduziu a oficina com os mesmos professores ajudando, mostrando como fazer o atendimento aos estudantes e aplicando as etapas do método.

Na terceira aula, os dois professores conduziram as oficinas. Mendes, de acordo com a necessidade, fazia intervenções. Na quarta aula da manhã, os professores orientaram uma oficina juntos, sem ajuda. Mendes ficou no fundo da sala, com uma folha, preenchendo informações, para dar um feedback sobre todas as etapas aos educadores após a oficina. A pesquisa sobre a percepção geral dos alunos foi aplicada ao final de cada aula aos participantes.

“Quanto à capacidade da didática ser replicada, os dados mostram que, após uma formação de apenas três horas/aula, os professores formados alcançaram resultados similares (86,7% de aprovação, 95,9% de percepção de aprendizado e 2,5% de rejeição) aos do professor-formador. Os resultados são ainda mais animadores se considerada a uniformidade desses indicadores colhidos nas dez escolas e 44 turmas de alunos envolvidas”, afirma Mendes no relatório.

Depois da formação prática dos professores multiplicadores na parte da manhã, Mendes fez uma palestra de formação com estes professores e os outros educadores da escola. Essa apresentação contou com relatos e com a participação dos professores que tiveram a experiência em sala. Dos 97 educadores que receberam a formação, 19 passaram pela parte prática.

Uma segunda etapa do trabalho, em que estes 19 professores iriam multiplicar a formação com os outros educadores, não pode ser realizada devido a uma greve e pelas ocupações de parte das escolas pelos alunos em 2015, segundo Mendes.

A grande aprovação da técnica entre professores e estudantes mostra que é possível motivar os alunos, já que eles constatam que aprenderam e percebem que desenvolvem suas próprias capacidades, de acordo com o estudo. Há ainda um canal de colaboração, criado pela movimentação constante do professor pela sala. A pesquisa mostra ainda como alunos habituados a aulas tradicionais podem migrar facilmente para outro modelo de ensino estruturado. Por último, mostra como é possível formar professores em curto prazo e com baixo investimento, tendo resultados significativos.

“Tais resultados apontam para a possibilidade de alavancar nossa educação por meio de uma reforma didática. Os próximos passos para o estudo são a coleta de dados relativos aos desdobramentos nas escolas participantes e a mensuração do impacto do trabalho desenvolvido nas notas dos alunos e índices oficiais utilizando escolas não participantes como controle”, explica Mendes no relatório.

“Os dados devem ser ponderados face às seguintes limitações: o caráter novo da atividade; a subjetividade do aprendizado percebido pelos alunos; a presença de professores adicionais em sala de aula e o fato do conteúdo trabalho ter sido de história (ensino médio) e ciências (ensino fundamental)”, diz o relatório.

Para responder a uma dúvida sobre “como a diversidade de perfis das escolas afeta a efetividade das oficinas de estudo?”, foram indicadas dez escolas de perfis diferentes para participar da pesquisa. Entre as escolas, de ensino fundamental II (do sexto ao nono ano) e de ensino médio, havia escolas com índices satisfatórios e insatisfatórios de proficiência, em bairros centrais e periféricos, de ensino integral e ensino regular.

“Diante de tais diferenças, significativas, entre os participantes – escolas com perfis variados, grande oscilação no número de alunos por turma, alunos de sexto ano do ensino fundamental à terceira série do ensino médio – seria razoável esperar que fosse observada uma grande variação no aproveitamento dos alunos em relação à atividade. Contudo, o que se constatou foram resultados altamente positivos e em relação ao aproveitamento e motivação dos alunos em todas as circunstâncias”, afirma Mendes no texto da pesquisa.

O maior desafio na aplicação do projeto, segundo o pesquisador, é ter que se deparar com a descrença inicial dos professores. “Quando você diz que vai fazer uma atividade deste tipo com os alunos, o sentimento geral é de incerteza. Tem professor que fala que você não conhece os alunos dele, não conhece a escola. Só no momento que essa descrença é quebrada, acontece um momento de catarse. Eles dizem: ‘nossa, não acredito que aconteceu’”, diz Mendes.

A grande aprovação do projeto mostra, segundo Mendes, que as oficinas podem ser aplicadas em qualquer sala de aula tradicional, dentro do currículo estruturado. “As oficinas não são um projeto a mais dentro do pouco tempo dos professores. Podem ser executadas no dia a dia das escolas, com conteúdo programático. É mais rápido do que na aula expositiva. Além de tudo, tem menos gasto de energia do aluno e do professor. O projeto se candidata como uma alternativa viável de começar uma transformação do modelo escolar. Geralmente, se pensa que a mudança precisa de estrutura física e currículo”, afirma Mendes.

Dizem que, para mudar a educação no Brasil, é preciso ter uma ruptura. Isso é uma coisa que, pela minha experiência, começo a discordar. É possível fazer uma transição suave

Transição suave

A transição de aulas do modelo tradicional para a aprendizagem ativa por oficinas de estudo não precisa ser traumática, de acordo com Mendes. “Dizem que, para mudar a educação no Brasil, é preciso ter uma ruptura. Isso é uma coisa que, pela minha experiência, começo a discordar. É possível fazer uma transição suave. Em cada aula de oficina, existe uma ruptura com a aula tradicional, mas não é traumática. É suave. Podemos fazer a oficina hoje e fazer uma aula expositiva amanhã. Pode ser mesclada, na medida que professor quiser, com as aulas tradicionais”, explica Mendes.

A professora Nilda de Brito Fermin, que dá aula de matemática para sextos e oitavos anos do ensino fundamental na escola Professora Maria Ribeiro Guimarães Bueno, no bairro Bosque da Saúde, na zona sul de São Paulo, passou pelo treinamento prático do método de aprendizagem ativa. Ela diz que sentiu o envolvimento dos alunos. “Todos participaram porque era novo. Foi uma dinâmica diferente. Este foi o grande diferencial. Eles passaram a ficar autônomos. Conseguiram perceber as situações e passaram a refletir mais sobre o que estavam lendo”, disse.

Nilda afirma acreditar que seria interessante ter uma formação voltada para as disciplinas de exatas, já que o trabalho de Mendes feito na escola foi apenas para disciplinas que usam textos, como português e ciências. “Nós, da matemática, temos uma parte muito técnica. Teria que adaptar. Achamos que precisaria de formação para matemática”, diz.
As oficinas podem ser aplicadas em todas as disciplinas, inclusive as de exatas, de acordo com Mendes. A diferença é que na condução de uma aula de matemática, por exemplo, o professor tem que estar ciente que os alunos irão conseguir gerar dúvidas. “O principal objetivo do professor não é gerar compreensão, é fazer com que os alunos consigam, com o contato direto com o material didático, gerar dúvidas. Resumindo, as oficinas funcionam bem porque ensinam alunos a fazerem perguntas sobre o que não entendem. Com base nas dúvidas, o professor pode colocar perguntas no quadro e pedir para os próprios alunos tentarem esclarecer por conta própria, com ajuda dos colegas”, diz Mendes. Com isso, o professor tem atenção total da turma e pode fazer uma exposição curta, ao final, apenas para tirar dúvidas pontuais, em um momento em que os alunos estarão atentos e envolvidos.

O principal objetivo do professor não é gerar compreensão, é fazer com que os alunos consigam, com o contato direto com o material didático, gerar dúvidas

O custo de implantação é baixo, segundo o educador, porque os professores precisam apenas seguir o roteiro criado por ele. Se quiser, a escola pode adquirir o livro “A Nova Sala de Aula”, escrito por Mendes, e oferecer a formação aos professores gratuitamente. “Normalmente, acredita-se que mudar a didática precisa de muito tempo e investimento. Aqui, o essencial é o professor aplicar o roteiro e a escola trabalhar a formação nos momentos que tiver no calendário. Se professores forem aplicando as oficinas e conversando entre si, a escola consegue fazer a formação sozinha”, explica Mendes.

O educador desenvolve agora, em um pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um aplicativo gratuito para a formação de professores no método. Mendes pretende disponibilizar a ferramenta até meados de 2017. “Com o aplicativo gratuito, meu objetivo é tentar massificar o acesso a esta formação”, diz o professor.

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autonomia, ensino fundamental, ensino médio, formação continuada