Bem-vindo (a) ao site do Porvir

Aqui, mapeamos, difundimos e promovemos a troca de práticas educacionais inovadoras

Boas inspirações!

Crédito: Divulgação

Diário de Inovações

Professor de artes usa cultura geek em projeto de cinema

Para ampliar conhecimento artístico, estudantes produziram curtas-metragens baseados em livros ou jogos que gostavam

por Jayse Antonio da Silva Ferreira 14 de dezembro de 2017

Por que Harry Potter, Percy Jackson, Minecraft, LOL (League of Legends) e outros elementos da cultura geek ainda não fazem parte do debate literário na escola, na mesma escala e importância com que ocupam o imaginário dos jovens fora dela? Desse questionamento, dei início a uma jornada de buscas a sites, livros e revistas que me dessem um norte de como trazer esse mesmo interesse para as minhas aulas de arte, na Escola de Referência em Ensino Médio Frei Orlando, em Itambé (PE).

Sabendo que eles adoravam esse mundo geek (fãs de tecnologia, jogos eletrônicos ou de tabuleiro, HQs, livros, filmes, animes e séries), resolvi criar o projeto “Curta esse Curta”, que estimulava os alunos a criarem curtas-metragens baseados em livros ou jogos que eles mais gostavam. Esses vídeos seriam postados nas redes sociais para serem apreciados e curtidos por todo a comunidade escolar. Essa foi uma maneira que encontrei para atrair a atenção desses jovens e motivá-los.

Mas como buscar um filme próximo à cultura audiovisual dos alunos e que, ao mesmo tempo, pudesse responder também aos objetivos pedagógicos? Não se tratava somente de escolher propostas para “agradar” aos alunos. Dentro dessa perspectiva, o cinema entra na escola para se articular aos processos de produção de conhecimento e deixá-lo o mais próximo possível da realidade dos alunos.

Desde o início, minha expectativa era que eles não só assistissem aos filmes, mas tivessem um contato real com a produção cinematográfica. Deste modo, os curtas-metragens foram uma opção excelente, pois permitiram o aproveitamento da experiência audiovisual, com apresentações seguidas de debate.

Como professor de artes visuais, me preocupo muito em trabalhar projetos que visem o desenvolvimento cognitivo e criativo dos alunos, pois o conhecimento em arte amplia as possibilidades de compreensão do mundo e colabora para um melhor entendimento dos conteúdos relacionados a outras áreas do conhecimento, neste caso, língua portuguesa, inglês, literatura, história, etc.

Não se tratou apenas de um “filminho” produzido pelos alunos nas aulas de artes. A proposta foi bem mais ampla, envolvendo artes gráficas, cinema, vídeo, fotografia, edição e novas tecnologias, culminando assim num ensino mais produtivo e prazeroso e que esteja antenado com os anseios desses jovens aprendizes.

Para isso, pautei-me nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) de artes para ensino médio que diziam: “conhecer arte no ensino médio significa os alunos apropriarem-se de saberes culturais e estéticos nas práticas de produção e apreciação artísticas, fundamentais para a formação e o desenvolvimento social do cidadão, favorecendo-lhes o interesse por novas possibilidades de aprendizado, de ações, de trabalhos com arte ao longo da vida.”

Todo o projeto foi embasado nos três eixos norteadores da proposta triangular, apresentada pela educadora Ana Mae Barbosa: produzir, apreciar e contextualizar. Acredito que só é possível realizar trabalhos artísticos inovadores quando trabalhamos com coautoria e quando não excluímos os alunos do desenho da aprendizagem, inclusive na escolha e montagem das atividades. A esse processo se dá o nome de protagonismo juvenil, ou seja, um troca de saberes colaborativos que aumenta o pertencimento dos alunos e seu engajamento na escola.

A princípio, o objetivo era apenas trabalhar com as turmas dos 2º anos do ensino médio, pois cinema era um dos temas do bimestre. Porém, alunos de outras turmas interessaram-se pelo projeto e acabamos por ofertá-lo a toda a escola. Quem não sabia atuar, participava maquiando ou como assistente de câmera, iluminação ou som.

Tivemos uma grande repercussão quando o vídeo foi lançado nas redes sociais. Em poucos dias o curta Harry Potter – O Recomeço teve mais de 20.000 visualizações na página oficial do Harry Potter no Brasil. Isso foi um grande estímulo para os alunos. A equipe de reportagem da secretaria de educação veio até a escola para fazer uma entrevistas com os atores que, na sua maioria, são filhos de cortadores de cana da comunidade. Imagine como esses pais ficaram super orgulhosos?! Irmãos menores de nossos educandos já estão pedindo aos seus pais que reservem vagas para eles na escola, pois “querem estudar numa escola que os transformam em astros”.

Com a excelente repercussão dos curtas, conseguimos a adesão de comerciantes locais que se transformaram em amigos da escola. Acredito que, apesar do sucesso, o projeto ainda pode ser melhorado. Temos a meta de inserir ainda mais alunos nesse processo criativo. Além disso, pretendemos trazer cada vez mais os pais à escola com esses projetos.

Acredito que o projeto também foi responsável, em parte, pela diminuição da evasão escolar, uma vez que esses alunos se sentiram mais participantes, o que proporcionou um ambiente mais atrativo e favorável à aprendizagem. Enfim, são muito pontos positivos que o projeto já trouxe para a nossa escola e também para o seu entorno, tanto é que ele já faz parte do calendário letivo, trazendo um novo olhar sobre o ensino de arte.

Conheça alguns trabalhos produzidos pelos alunos:

– Harry Potter – O Recomeço

– Minecraft Apocalipse

– Entre Dois Lados

Jayse Antonio da Silva Ferreira

Professor da rede estadual de Pernambuco (2008). Graduado em educação artística pela Universidade Federal da Paraíba (2005). Pós-graduado em psicopedagogia pela Universidade Vale do Acaraú. Ganhador do Prêmio Professores do Brasil do MEC, como melhor professor do ensino médio do Brasil (2014).

TAGS

cinema, ensino médio, tecnologia