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Crédito: Divulgação/Plano Ceibal

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Uruguai dá computador a alunos para combater desigualdade

Plano Ceibal fornece gratuitamente um computador portátil para cada aluno e cada professor das escolas públicas e transforma o que era privilégio em direito

por Vinícius de Oliveira 24 de agosto de 2015

Quando o presidente do Uruguai Tabaré Vázquez lançou o Plano Ceibal (sigla para Plano de Conectividade Educacional de Informática Básica para o Aprendizado Online, que faz referência à árvore ceibo) em 2007, o país se preparava para dar um passo importante para transformar o que era um privilégio em direito. A partir daquele momento, o estado assumia o compromisso de fornecer, gratuitamente, um computador portátil para cada aluno e cada professor das escolas públicas.

A criação do Plano Ceibal teve como inspiração a iniciativa da organização OLPC (“One Laptop per Child”, ou Um Computador por Aluno, em português), de Nicholas Negroponte, físico do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), e foi adaptado às necessidades locais para rapidamente se tornar um instrumento para democratizar conhecimento, promover a equidade e a melhora do sistema educacional.

Com o apoio de empresas como Google, AMD, Red Hat, News Corp e Brightstar, Negroponte desenvolveu o XO, um laptop de US$ 100 robusto para aguentar a rotina do aluno, com baixo consumo de energia, tela giratória, câmera, conexão sem fio à internet e software de código aberto. Os XO, popularmente chamados de ceibalitas, podem ser levados para casa e, com isso, o Plano Ceibal abriu espaço para colaboração em nível horizontal, que começava com professor-aluno, passava por aluno-aluno e professor-professor até chegar em aluno-família-escola.

Imagem de Amostra do You Tube

 

Números do final de 2013 conseguem dar uma dimensão do impacto social do projeto. Antes, apenas 5% dos lares mais pobres tinham computador em casa contra 56% dos mais ricos. Após a distribuição de mais de um milhão de máquinas, a diferença foi reduzida para 11 pontos porcentuais, com o computador colorido chegando a 76% dos lares de baixa renda. O que à primeira vista poderia ser interpretado como “um computador por aluno” acabou se tornando um “computador por família”. Muitas delas acabaram conhecendo a internet pela tela do XO.

Expansão do projeto

A distribuição dos computadores foi dividida em cinco fases. Logo no primeiro semestre de 2007, uma escola na cidade de Villa Cardal, no departamento de Florida (equivalente a estado) recebeu 200 computadores doados pela ONG de Negroponte. A segunda etapa, iniciada no segundo semestre do mesmo ano, expandiu o programa a todo o departamento. Aos poucos, alunos de outras regiões do país foram recebendo seus laptops até que, em 2009, chegou a vez da capital Montevidéu.

No ano seguinte, o programa seria ampliado as escolas privadas e para o ciclo básico da educação média pública, que tem alunos de 12 a 14 anos. Para esses, os computadores tinham processador mais rápido e tela maior, com dez polegadas. Mais recentemente, em 2014, alunos de 4 a 7 anos receberam o tablet JP, com tela de sete polegadas e sistema Android com atividades lúdicas.

 

Segundo Gonzalo Piaggio, presidente-executivo do Plano Ceibal, o investimento anual para atender 770 mil beneficiados atinge US$ 75 milhões e cada laptop possui um ciclo de vida de quatro anos. “Não sei se US$ 100 é barato. Mas no Uruguai é porque representa só 5% do que o estado gasta por criança em idade escolar, que é US$ 2 mil”, disse em entrevista ao Porvir.

Para chegar aos 5%, o Plano Ceibal subcontrata a maioria dos serviços que não tem ligação com a educação, como reparação e logística. “Somos uma empresa pública não-estatal, o que significa que funcionamos como uma empresa privada”, explica Piaggio. Trata-se de um órgão autônomo em relação ao Ministério da Educação gerido por executivos e uma comissão consultiva com representantes de órgãos públicos, como os Conselhos de Educação. Seu financiamento, entretanto, é feito com a ajuda de recursos públicos, mas a equipe gestora tem autonomia para contratar funcionários e fornecedores.

Conexão à internet

Simultaneamente ao trabalho de entrega dos computadores, o Plano Ceibal providenciou, a partir de 2007, a instalação de internet em todas as escolas públicas mediante um acordo com a companhia de telefonia fixa estatal ANTEL. A velocidade proporcionada por conexão DSL, então, chegava a míseros 10 Kbps (kilobits por segundo). “Naquela época, não havia smartphones, o Facebook começava a aparecer e YouTube era uma coisa para poucos. Pensávamos na criança que ia até o Google para buscar algo que estava na Wikipedia, um conteúdo estático”, diz o presidente do Plano Ceibal.

Hoje, o Uruguai apresenta três cenários para a internet em suas 2,6 mil escolas. Em um movimento iniciado em 2014, a maior parte foi migrada para fibra ótica e já possui conexão de 10 Mbps (megabits por segundo), mas, de acordo com Gonzalo, 300 a 400 ainda estão com DSL e existe ainda um terceiro grupo, formado por 600 escolas rurais (5% do total de alunos), distantes até 30 km da rede DSL, que recebe sinal de 3G.

No projeto do Plano Ceibal, toda a área da escola é coberta com sinal Wi-Fi, incluindo pátios. Em algumas regiões, isso chegou a criar “ilhas”, o que fez com que gestores ampliassem o escopo do projeto para atender alunos que não tinham conexão em casa. “Quando nos demos conta que as crianças ficavam à noite ou aos finais de semana perto das escolas para aproveitar a conexão Wi-Fi, começamos a fornecer conectividade nas praças e em mais de 100 favelas, locais com infraestrutura precária”, conta Piaggio.

À medida em que a presença do computador já não se configurava mais como uma novidade e a velocidade da internet se mostrava suficientemente estável, novas soluções foram surgindo. “O primeiro grande projeto foi o programa de inglês, porque não há professores suficientes, sobretudo fora da capital”, diz Piaggio. Em 2015, 4 mil turmas de alunos de 4º ao 6º ano terão aula à distância com professores direto da Inglaterra.

Não há mais sentido em ensinar a um menino de liceu como usar Excel ou PowerPoint, sendo que ele já tem um computador desde quando tinha seis anos

Além disso, o Plano Ceibal tem acordo com editoras para fornecer mais de 500 livros digitais direto para as ceibalitas. Outra ferramenta, a PAM (Plataforma Adaptativa de Matemática) tem 91 mil estudantes de ensino fundamental ao médio cadastrados que já fizeram 12 milhões de exercícios.

Os antigos laboratórios de informática, onde se aprendia basicamente a lidar com o computador, começaram a dar lugar a 220 laboratórios de tecnologia digital. Alunos agora tem aulas e programação, robótica, edição de vídeo e áudio, além de impressão 3D em mais de uma centena de escolas. “Não há mais sentido em ensinar a um menino de liceu como usar Excel ou PowerPoint, sendo que ele já tem um computador desde quando tinha seis anos”, diz Piaggio.

O ambiente digital também se faz presente na gestão escolar. As avaliações nacionais que acontecem desde 1996 passaram a ser feitas de forma digital a partir de 2009, quando surgiu a plataforma SEA (sigla para Sistema de Avaliação Online, em português), construída colaborativamente com professores, técnicos e líderes educacionais. Nela, o docente se cadastra como usuário e inscreve seu grupo de alunos. No dia da aplicação, escolhe a prova desejada, libera o acesso às questões e instrui os alunos a se conectarem à plataforma. Os resultados são obtidos em tempo real, com economia de tempo e de dinheiro com a impressão de 800 mil provas.

“É um instrumento para tomada de decisão, para desenhar mudanças na sala de aula, no orçamento e identificar trajetórias. Ou seja, se Marília estava bem no ano passado e no retrasado, mas nesse ano está muito mal, é possível dizer que algum fator tenha afetado seu desempenho. Ou ao contrário, se existe um menino que tenha passado por dificuldades por vários anos e agora está na minha classe, eu tenho elementos, antes mesmo de conhecê-lo, que me permitem saber que preciso dar atenção”, afirma Cristobal Cobo, diretor do Ceibal em entrevista ao Porvir.

Segundo Cobo, hoje em dia é impossível pensar em realizar até três avaliações formativas por ano, como se as crianças escrevessem à mão no caderno. No computador, explica, além de identificar suas deficiências o aluno consegue repetir o exame quantas vezes desejar. “A plataforma desempenha diversos papeis: o primeiro é obter dados, como em uma avaliação tradicional, e o segundo é permitir que usuários de perfis diferentes [alunos, professores e diretores] entrem na plataforma e vejam os resultados como se fosse uma conta de banco, onde se pode ver como está agora, como estava antes e quais ações precisam ser tomadas”, diz.

Atualmente, o Plano Ceibal trabalha em cooperação com outros 10 países em busca de metodologias de aprendizagem profundas e transdisciplinares que permitam melhorar a transição entre o que no Brasil equivale à mudança da primeira para a segunda etapa do ensino fundamental. Assim como aqui, o país vizinho enfrenta queda no desempenho de aprendizado quando o aluno deixa de ter apenas um professor tomando conta de todo o conteúdo.

Em uma de suas recentes apresentações sobre o Plano Ceibal, disponível no YouTube, o presidente-executivo Gonzalo Piaggio disse que o programa uruguaio será declarado bem-sucedido quando a tecnologia funcionar de forma natural dentro de sala de aula. “O dia que veremos que tivemos sucesso será quando uma criança e um professor entrarem na classe e usarem a tecnologia com a mesma facilidade que acontece com a energia elétrica. Ninguém pergunta sobre o impacto da luz, do aquecedor ou do ar condicionado. Quando a tecnologia funcionar assim, poderemos dizer que cumprimos nosso trabalho”.

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Tecnologia na Educação

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