Embora existam excelentes estratégias construídas a partir de evidências de como o cérebro realmente aprende, os alunos podem não “comprar a ideia” totalmente se não entenderem por que elas funcionam. E, para muitos deles, nunca ninguém explicou esse motivo. 

Em minha sala de aula eu queria que meus alunos compreendessem como seus cérebros estavam trabalhando e por que certas técnicas seriam mais eficazes que outras.

As demonstrações simples e práticas que utilizei têm sido eficazes com universitários, mas seriam igualmente eficientes para alunos do anos finais do ensino fundamental. Eles costumam dizer: “Eu gostaria que alguém tivesse me contado isso lá atrás, ainda na educação infantil!”.

Como o cérebro funciona: neuroplasticidade

Neuroplasticidade significa, simplesmente, que tudo o que você faz muda o seu cérebro. Quando você tenta algo novo, seu cérebro começa a se transformar para dar conta desse novo desafio.

Atividade: E se o mundo virasse de cabeça para baixo?

Para apresentar essa ideia, você precisará de óculos que distorçam a visão (as lentes de grau forte funcionam muito bem) e uma bola de espuma. Divida os alunos em trios: uma pessoa usa os óculos, outra arremessa a bola e a terceira registra se cada tentativa resultou em captura ou erro.

No início, os alunos vão errar muito, mas logo começarão a melhorar. Eles percebem rapidamente que seus cérebros estão trabalhando para aprender coisas novas. Se continuarem tentando algo, podem melhorar. Se quiser saber mais, vale conferir vídeos sobre as pesquisas que inspiraram essa dinâmica.

Como o cérebro funciona: atenção

A atenção é a forma como nossos cérebros decidem o que é importante o suficiente para continuar pensando a respeito em um mundo cheio de estímulos. Os alunos gostam de pensar que são ótimos em multitarefa. Mas, na realidade, eles não são.

Atividade: o jogo do holofote

Para ajudar os alunos a entenderem o conceito de atenção, eu peço que eles localizem diferentes coisas pela sala e, ao mesmo tempo, mudo algo de forma engraçada ou dramática. Eu costumo colocar uma foto divertida na tela do computador e uma preguiça de pelúcia gigante sobre a minha mesa.

Nesta atividade, a sala fica às escuras e as lanternas entram em cena para representar o funcionamento da nossa atenção. Usamos o conceito de holofote (que ilumina uma área por vez) e de lente de zoom (que foca nos detalhes e ignora o entorno). A ideia é mostrar que, se o nosso ‘holofote’ está concentrado em um ponto, o cérebro naturalmente ‘desliga’ o que está ao redor para economizar energia, criando uma espécie de cegueira temporária para tudo o que não está iluminado pelo foco

Você pode oferecer lanternas pequenas para todos ou trabalhar em grupos. Após “focalizarem” uns 10 itens, pergunte quem notou a mudança engraçada na frente da sala. A maioria perde completamente o detalhe, mesmo achando que notaria algo tão óbvio quanto um bicho de pelúcia gigante.

Isso ajuda a entender que a atenção é limitada e que podemos perder coisas grandes se não pausarmos para olhar o cenário completo. Isso é chamado de cegueira por mudança,  fenômeno em que o cérebro, por estar tão focado em uma tarefa específica (como seguir o feixe da lanterna), descarta informações visuais óbvias que não fazem parte daquele foco. É um choque para os alunos perceberem que ‘viram’ o bicho de pelúcia na mesa, mas o cérebro deles simplesmente não ‘registrou’ a presença dele.

Como o cérebro funciona: memória de trabalho

Depois que você decide o que merece sua atenção, você começa a pensar sobre aquela informação. A memória de trabalho é este primeiro passo.

Atividade: “Está na caixa”

Esta atividade mostra a importância de conseguir agrupar ideias (categorização), um componente vital da memória de trabalho. Você precisará de vários itens pequenos (bolas de tênis, bichos de pelúcia, canetas), um cesto grande e dois voluntários. Um aluno segura o cesto com os braços, e o outro fica sem nada.

Comece a entregar os itens para cada um. O aluno com o cesto consegue enchê-lo mantendo tudo organizado, enquanto o outro começará a derrubar os objetos que não consegue mais segurar.

É assim que a memória de trabalho funciona: o aluno que consegue organizar os itens consegue trabalhar com mais informações ao mesmo tempo. Isso ajuda a entender por que precisamos aprender categorias e como as novas informações se encaixam no que já sabemos.

Como o cérebro funciona: memória de longo prazo

Diferentes aspectos de uma memória são distribuídos por várias áreas do cérebro. Uma forma simples de pensar nisso é que a área visual, na parte de trás (lobo occipital), guarda a parte visual; a área do som (lobo temporal) guarda a parte auditiva — e assim por diante. Todas essas partes são enviadas para a frente do cérebro (lobo frontal), que decide o que tudo aquilo significa.

Atividade: o cérebro é um lugar

Para ilustrar, uso caixas espalhadas pela sala representando visão, som, tato e ação. Dentro de cada uma, coloco itens correspondentes: amostras de tinta para cores na visão, brinquedos que apitam no som, texturas diferentes no tato e cartões com verbos na ação.

Peço que os alunos peguem um item de cada caixa e tentem descobrir a que objeto aquelas características se referem. Por exemplo: se ele pegou “vermelho”, “guincho/apito”, “metal liso” e “puxar”, ele precisa pensar em algo que reúna tudo isso. Talvez um vagão de brinquedo?

É assim que a memória funciona. Você precisa “puxar” de diferentes partes do cérebro para dar sentido às coisas. Na atividade, discutimos como seria difícil adivinhar o objeto recebendo apenas uma característica (só o “vermelho”, por exemplo).

Isso modela o porquê de nós, professores, pedirmos que usem diferentes modos para engajar com o conteúdo (ler, escrever, ouvir, desenhar): assim, eles terão mais “pistas” para puxar na hora de lembrar.

Cada uma dessas atividades foi uma experiência memorável para meus alunos e os ajudou a entender como seus próprios cérebros trabalham para ajudá-los a aprender.

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....

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