Por que vale a leitura
Suas ideias sobre educação integral e escola democrática continuam atuais e inspiradoras.
A experiência imersiva da Escola Parque mostra práticas pedagógicas inovadoras e ricas.
O legado histórico de Anísio conecta a prática docente às raízes da educação brasileira.
“Educar é crescer. E crescer é viver. Educação é, assim, vida no sentido mais autêntico da palavra.” A frase, publicada por Anísio Teixeira (1900-1971) no livro “Educação progressiva”, de 1934, sintetiza a concepção de educação que marcou a sua atuação como educador e gestor público.
Ao visitar a Ocupação Anísio Teixeira, no Itaú Cultural, em São Paulo (SP), é possível perceber como essas ideias ganharam corpo na prática. Fotografias, cartas, livros, vídeos, projetos arquitetônicos e objetos pessoais ajudam a reconstruir experiências escolares, políticas públicas e episódios da vida do educador baiano.
📱Inscreva-se no canal do Porvir no WhatsApp para receber nossas novidades
Para quem trabalha com educação, chama a atenção o quanto as questões levantadas por Anísio continuam familiares: educação integral, formação de professores, espaços escolares projetados para diferentes experiências e o papel da escola pública no fortalecimento da democracia.
Essa permanência no debate contemporâneo também surpreendeu a equipe de pesquisa da exposição. “Anísio Teixeira não é uma figura tão conhecida pelas pessoas. Mas, quando você começa a entender algumas políticas públicas da educação, percebe: ‘Nossa, ele fez parte disso, também atuou nisso’. E aí você vê quanta coisa ele fez”, afirma Jéssica Botossi, coordenadora do Núcleo de Formação e Fomento do Itaú Cultural.
Em 2024, Anísio foi reconhecido como patrono da educação pública brasileira. “Para quem é da área de educação, faz muito sentido se apropriar desses pensamentos”, diz Jéssica.
Em cartaz até 15 de novembro, a mostra é a 75ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural. Para quem está fora de São Paulo, o site especial da exposição reúne vídeos, documentos e outros conteúdos. Educadores também podem aprofundar o tema pelo curso gratuito e autoformativo “Anísio Teixeira e a Educação Integral”, da Escola Fundação Itaú, com quatro horas de duração e com direito a certificado.
O que é a Escola Parque?
Uma das experiências mais emblemáticas de Anísio Teixeira começou a tomar forma na década de 1950, em Salvador (BA), com o Centro Educacional Carneiro Ribeiro. O complexo reunia Escolas-Classe, voltadas aos componentes curriculares regulares, e a Escola Parque, destinada a atividades artísticas, físicas, recreativas e de trabalhos manuais.
A proposta colocava em prática uma concepção de educação integral que não se resumia à ampliação da jornada: mais tempo na escola deveria significar também outras experiências de aprendizagem.
Anísio levou essa concepção para Brasília. A primeira Escola Parque da cidade entrou em funcionamento em 1960. O plano previa 28 unidades, mas apenas cinco foram construídas no Plano Piloto.
No livro “Memórias da Escola-Parque de Brasília”, Ingrid Dittrich Wiggers, consultora da Ocupação Anísio Teixeira, mostra como o projeto se distanciou da concepção original, com a suspensão do ensino integral e mudanças no currículo. Hoje, o Distrito Federal tem oito Escolas Parque, cinco no Plano Piloto. A despeito de preservar parte do legado de Anísio, revela os limites de sua implantação.
Na visita à exposição, o Porvir reuniu cinco motivos para redescobrir Anísio Teixeira e entender por que suas ideias ainda provocam a educação brasileira.
1. Atualidade das ideias
Em 1932, Anísio Teixeira esteve entre os educadores signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, documento que defendia uma escola pública, gratuita e laica, acessível a todos, e propunha mudanças profundas na organização da educação brasileira.
O movimento da Escola Nova questionava o modelo tradicional, centrado principalmente na transmissão e memorização de conteúdos. Em contrapartida, defendia um aprendizado conectado à realidade, aos interesses e à participação ativa dos estudantes.
Anísio teve contato direto com essas ideias durante seus estudos nos Estados Unidos, onde foi aluno do filósofo e educador John Dewey (1859-1952), referência mundial da educação progressiva. De volta ao Brasil, passou a defender uma escola em que aprender estivesse relacionado à experiência e à participação dos estudantes.
“Anísio é uma figura de grande importância neste tema no debate sobre educação integral em tempo integral”, reforça Jéssica. Para ela, é significativo que princípios associados à Escola Nova continuem presentes no debate educacional. “A Escola Nova, debatida a partir da década de 1930, ainda é muito atual, mas ainda não chegamos nesse modelo ideal”, afirma.
2. Entrar em uma Escola Parque
Na ocupação, fotografias, plantas arquitetônicas, boletins e objetos permitem conhecer mais de perto o cotidiano das Escolas Parque. Os registros mostram espaços destinados à música, à educação física e à recreação, além de oficinas de couro, sapataria, madeira, metal e cerâmica.
Parte desse acervo chegou à exposição pelas mãos de José Mendes de Oliveira, que vivenciou a Escola Parque de Salvador em diferentes momentos da vida: foi aluno, professor e zelador e chegou a morar na instituição. Ao longo de décadas, guardou documentos pessoais, como boletins, certificados e até um cheque do “banco da escola”, recurso pedagógico utilizado para ensinar educação financeira na prática.
“Falar da Escola Parque e não conversar com o senhor Mendes é perder grande parte dessa história”, destaca Jéssica. Os documentos foram preservados por ele com cuidado, organizados em pastas. “Ele vivenciou [a Escola Parque] de corpo e alma.”
A montagem do espaço no Itaú Cultural procura aproximar o visitante dessa experiência. O espaço é aberto, sem um percurso fixo, acompanhado por uma ambientação sonora gravada na própria Escola Parque de Brasília e projeções imersivas dos seus ambientes.
3. Conhecer o “Anisinho”
A ocupação não apresenta apenas o gestor público e o intelectual. Um dos núcleos da mostra é dedicado ao “Anisinho”, apelido usado pela família, revelando aspectos íntimos do educador por meio de cartas, fotos de infância e objetos pessoais.
Os familiares tiveram papel fundamental na construção desse espaço, disponibilizando acervos inéditos. Entre as preciosidades expostas estão as correspondências pessoais.
Em caixas de correio interativas, o público pode ler transcrições de cartas e, ao tirar um telefone antigo do gancho, ouvir a narração de uma mensagem afetiva escrita por Anísio para sua esposa. “A cada carta que a gente encontrava, ficava mais encantado com a pessoa que ele era para além de todo o seu legado profissional”, conta Jéssica.
As correspondências também revelam sua relação com os estudantes. A equipe encontrou mensagens de alunos das Escolas Parque convidando Anísio para atividades como a inauguração de uma horta ou de uma biblioteca.
A mostra recupera ainda as relações de Anísio com nomes importantes da cultura e da educação nacional. Fotografias, livros e dedicatórias registram vínculos com o antropólogo Darcy Ribeiro, o pesquisador e professor Paulo Freire, o poeta amazônida Thiago de Mello, entre outros.
Na obra “Capitães da Areia”, publicado em 1937, Jorge Amado incluiu Anísio Teixeira entre os homenageados, chamando-o de “amigo das crianças”. Há também uma dedicatória pessoal do escritor ao educador que reforça essa relação. Nela, Jorge Amado afirma que Anísio saberia “amar e compreender essas crianças abandonadas” retratadas no romance e na vida real.
Para saber mais
4. Entender a presença de Anísio na educação brasileira
Grandes instituições da educação brasileira também têm ligação com o educador, apesar de não serem de amplo conhecimento. A exposição ajuda a conectar algumas dessas histórias.
Anísio foi diretor do Inep (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos) de 1952 a 1964 — instituição que hoje leva seu nome. Além disso, atuou como secretário-geral nos primeiros anos da Capes (Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e participou da criação da UnB (Universidade de Brasília), ao lado de Darcy Ribeiro (1922-1997).
Na concepção da universidade, Darcy definiu suas bases, Anísio estruturou o modelo pedagógico e o arquiteto Oscar Niemeyer deu forma às ideias no projeto do campus.
A atuação de Anísio nessas instituições mostra sua preocupação em unir escola pública, pesquisa e formação de professores e pesquisadores. Na mostra, uma de suas frases em destaque sintetiza seus ideais políticos: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública.”
5. Refletir sobre uma história que ficou sem resposta
Uma das imagens produzidas para a ocupação mostra Anísio Teixeira com o fardão dos integrantes da ABL (Academia Brasileira de Letras). A fotografia recria simbolicamente um momento que o educador não chegou a viver.
No início de 1971, Anísio se preparava para concorrer a uma cadeira na instituição. No dia 11 de março, depois de participar de uma conferência na FGV (Fundação Getúlio Vargas), no Rio de Janeiro, seguiu para o edifício onde morava o escritor Aurélio Buarque de Holanda, integrante da ABL. Anísio pretendia conversar com ele sobre sua candidatura, mas não chegou ao encontro.
Dois dias depois, seu corpo foi encontrado no poço do elevador do edifício. A versão divulgada na época apontou uma queda acidental, mas relatos e documentos conhecidos posteriormente levantaram dúvidas sobre essa narrativa.
As circunstâncias da morte foram investigadas pela CNV (Comissão Nacional da Verdade) e pela Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da Universidade de Brasília. Embora o relatório da UnB tenha reunido indícios que contestam a tese de acidente, o caso permanece sem uma conclusão definitiva.
Para saber mais: no livro “Breve história da vida e morte de Anísio Teixeira” (2019), o pesquisador João Augusto de Lima Rocha reúne depoimentos e documentos e defende a hipótese de que o educador tenha sido detido por agentes da ditadura antes de chegar ao prédio.
Serviço
Ocupação Anísio Teixeira
75ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural
Período: até 15 de novembro de 2026
Local: Itaú Cultural
Endereço: Avenida Paulista, 149, Bela Vista, São Paulo (SP)
Curadoria: Itaú Cultural e Itaú Social
Consultoria: Ingrid Dittrich Wiggers
Entrada gratuita
Mais informações: site da Ocupação Anísio Teixeira
Curso Anísio Teixeira e a Educação Integral
Plataforma: Escola Fundação Itaú
Carga horária: 4 horas
Modalidade: autoformativa
Valor: gratuito
Certificado: sim
Inscrições: página do curso na Escola Fundação Itaú

