“Ainda Estou Aqui” acaba de entrar para a história do cinema mundial. É a primeira vez que uma produção brasileira ganha o Oscar na categoria “Melhor Filme Internacional”, prêmio concedido a longas-metragens produzidos fora dos Estados Unidos, com diálogos majoritariamente em um idioma diferente do inglês. O feito reforça a relevância do debate sobre direitos humanos e expõe ao mundo as atrocidades cometidas durante a ditadura militar no Brasil.
A produção também concorreu a Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz. Fernanda Torres disputou o Oscar 26 anos após a indicação de sua mãe, Fernanda Montenegro, por sua atuação em “Central do Brasil” (1998), dirigido por Walter Salles. Esta foi a última vez que o Brasil esteve representado em categorias de atuação. Recentemente, Fernanda recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama. Até agora, o filme já acumulou 39 prêmios.
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A atriz interpreta Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, sequestrado e assassinado em 1971, durante o período ditatorial. Eunice dedicou a vida à busca por justiça após o desaparecimento do marido, tornando-se um símbolo de resistência das famílias das vítimas do regime. Após 26 anos, a advogada e especialista em direitos indígenas conseguiu que o Estado admitisse o assassinato do ex-deputado. “Isso é uma prova de que a arte pode durar pela vida, até em momentos difíceis como esta incrível Eunice Paiva, que eu fiz, passou. E a mesma coisa está acontecendo agora, em um mundo com tanto medo. Este filme nos ajuda a pensar em como sobreviver em momentos duros como este”, declarou a atriz ao receber o prêmio.
Ao receber o Oscar neste domingo, 2 de março, Walter Salles também homenageou Eunice Paiva. “Obrigado, em primeiro lugar, em nome do cinema brasileiro. É uma honra receber esse prêmio num grupo tão extraordinário de cineastas. Eu o dedico a uma mulher que, depois de uma perda durante um regime autoritário, decidiu não se curvar e resistir. Esse prêmio é dedicado a ela. Seu nome é Eunice Paiva”, disse. “Eu dedico esse prêmio também às duas mulheres extraordinárias que deram vida a ela, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro”, complementou.
Com mais de 5 milhões de espectadores, o filme desperta crescente curiosidade entre os estudantes sobre o contexto histórico e o impacto cultural da obra. A conquista do Oscar e dos demais prêmios reforça a necessidade de reflexão sobre o passado recente do Brasil, especialmente no que diz respeito à memória e à verdade.
Com classificação indicativa de 14 anos — faixa etária próxima à dos alunos do 9º ano, etapa em que costumeiramente o tema da ditadura militar é tratado nas escolas — “Ainda Estou Aqui” se torna um recurso valioso para professores. Ele permite integrar discussões sobre direitos humanos, memória histórica e os impactos do regime militar às aulas, promovendo o engajamento da turma em diferentes momentos.
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Histórico recente
No final de dezembro, o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), mencionou o filme “Ainda Estou Aqui” e o desaparecimento de Rubens Paiva durante a ditadura para argumentar que a Lei da Anistia (concessão do perdão a todos que haviam cometido crimes políticos durante o regime ditatorial) não se aplica ao crime de ocultação de cadáveres ocorridos naquele período.
Em 2015, o Ministério Público Federal denunciou os ex-militares Sebastião Curió Rodrigues de Moura (Major Curió) e Lício Augusto Ribeiro Maciel, acusados de crimes cometidos durante operações contra a Guerrilha do Araguaia, movimento armado na Amazônia na década de 1970.
Flávio acolheu o recurso do Ministério Público, enfatizando que o crime de ocultação de cadáver vai além do ato de esconder fisicamente o corpo; também inclui a omissão sobre seu paradeiro, o que impede os familiares de exercerem o direito de sepultá-lo, configurando crime em flagrante. O caso ainda será julgado pelos demais ministros em sessão no plenário virtual.
Exemplos no Porvir
Em entrevistas e na seção Diário de Inovações, que reúne relatos de prática de educadores de todo o país, o tema da ditadura e dos direitos humanos já foi retratado diversas vezes aqui no Porvir.
Em conversa com o repórter Ruam Oliveira, Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e ex-ministro da educação, defendeu a presença do tema nas escolas. “É preciso haver educação sobre política, educação democrática, que não tenha medo de falar das coisas”, afirma. Ele também sente que, de certa forma, ainda há um receio em tratar de temas da história recente em sala de aula.
O cientista político argumenta que é necessário explicar, por exemplo, as diferenças entre esquerda e direita, entre querer mais atuação do Estado e políticas sociais ou menor atuação do poder público. “São duas posições democráticas, eu tenho a minha preferência, mas reconheço o outro lado”, avalia. Contudo, o ex-ministro afirma que um corte radical deve ser feito quando se trata da ditadura militar brasileira.
“Tradicionalmente, as ditaduras no Brasil foram de direita ou de extrema direita e devem ser denunciadas, mas não porque são de direita. Não há como ser neutro em relação à abominação que foi a ditadura. Tortura não é aceitável, censura não é aceitável e supressão do direito ao voto não é aceitável”, reitera.
Projetos escolares
Dois projetos da segunda edição do Prêmio Professor Porvir também abordam pedagogicamente o direito à justiça e à memória.
“Onde Estão?” é a pergunta que deu nome à iniciativa das professoras Carolina Piccarone Ellmann e Malu Vieira com os alunos do 8º ano da Escola Lumiar Pinheiros, de São Paulo (SP). Durante um trimestre, a proposta contou com objetivos pedagógicos que envolveram compreensão crítica da história recente do Brasil, fortalecimento das habilidades de pesquisa, produção textual e análise de fontes, resultando em um documentário sobre os desaparecidos durante a ditadura militar.
Para integrar os alunos do 4º ano do ensino fundamental da EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Philó Gonçalves dos Santos, de Perus (SP), ao contexto histórico e ambiental da região, o professor Danilo Daniel levou os alunos a campo. A escola foi construída ao lado do cemitério Dom Bosco, cuja instalação teve pouca fiscalização e impactou sensivelmente a natureza ao redor.
Quando inaugurado, os governantes passaram a utilizá-lo para enterrar pessoas perseguidas pela ditadura militar. À época, o local era chamado de “Vala Comum” ou “Vala Clandestina de Perus”. A turma visitou o memorial instalado ali, voltado à preservação da história.
| Planos de aula |
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| O Portal Memórias da Ditadura sugere possibilidades metodológicas de trabalho do ensino de história da ditadura e educação em direitos humanos, com 22 Sequências Didáticas Temáticas e uma trilha pedagógica de Ensino por Projetos. |
Papel político da música
A trilha sonora de “Ainda Estou Aqui”, assinada pelo músico australiano Warren Ellis, traz Gal Costa, Tim Maia, Caetano Veloso, entre outros grandes nomes, e envolve a trama com profundidade e emoção. A voz grave de Erasmo Carlos, em “É preciso dar um jeito, meu amigo”, música de 1971, é um dos exemplos: sua guitarra invade a sala com uma letra sobre as agruras do período político. “As crianças são levadas pela mão de gente grande/Quem me trouxe até agora/Me deixou e foi embora como tantos por aí”.
De acordo com o crítico musical Jotabê Medeiros, a trilha é um dos pilares da obra. “Sua presença tem um duplo sentido: primeiro, emoldurar cada cena, dar relevo e realçar a atmosfera cênica; e um segundo efeito, o de lembrar que, no nevoeiro escuro de um período tenebroso, havia uma arte sendo realizada com excelência e destemor. Enquanto a vida estava por um fio, quase paradoxalmente, a música seguia plena de excelência e criatividade ilimitada”, afirma, em texto publicado no site Farofafá.
Um exemplo dessa inventividade é a música “Jimmy, renda-se”, de Tom Zé. Lançada em 1970, utiliza colagens sonoras de palavras e uma construção lírica que, embora pareça desconexa à primeira vista, revela uma crítica à influência estrangeira na música brasileira.
Sugestões para os educadores: durante as aulas, os professores podem promover debates e atividades interdisciplinares para explorar o papel dos movimentos musicais no contexto da ditadura militar, destacando como a música e as artes foram usadas como poderosas ferramentas de crítica social e resistência cultural.
Outra abordagem interessante é analisar o Movimento Tropicalista, que surgiu durante o período e desafiou convenções estéticas, políticas e culturais ao misturar elementos da música brasileira com o rock psicodélico e a arte pop, a fim de contestar o autoritarismo do regime.

