Ao notar que os livros dos estudantes mineiros no lugar de abordar o acervo rupestre da região metropolitana de Belo Horizonte – um dos mais importantes do país – tratavam das cavernas de Lascaux, na França, o publicitário mineiro Ismael Libanio resolveu interferir. E tentou encontrar uma forma de ajudar os estudantes a descobrirem o que estava a sua volta. O desejo deu origem ao Memória de Elefante, projeto que ensina e estimula estudantes e educadores de escolas públicas de BH a trabalharem na produção de conteúdos sobre a realidade dos bairros em que estão inseridas as instituições. Em seguida, tudo é hospedado em uma plataforma on-line, que funciona como uma espécie de banco de dados onde outros usuários podem conhecer aspectos de regiões diferentes e, inclusive, montar sua playlist de pesquisa a partir dos vídeos, imagens e textos disponíveis na plataforma. “Ao distribuir livros didáticos para todo o país, o governo federal cria conteúdos genéricos para todos os alunos. Pensamos em mudar essa lógica e ajudar a valorizar a memória local”, afirma Libanio.
De acordo com ele, o projeto surge ainda como uma proposta para atender o modelo de educação integral nas escolas mineiras, que precisam de metodologias que fortaleçam a relação bairro-escola. “O diferencial é a capacidade de transformação. Na medida que o estudante conhece seu entorno e realidade, ele entende como as coisas acontecem, por que seu bairro não tem coleta seletiva ou por que o transporte local não é tão eficaz. Ele se torna capaz de reivindicar e transformar”, ressalta Libanio, que foi um dos oito selecionados dentre os mais de 70 inscritos que apresentaram seus negócios durante a sessão Debate entre Empreendedores, Investidores e Especialistas no Transformar 2013, na última quinta-feira, 4.
A primeira experiência do projeto – que faz parte do Voi, Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que desenvolve iniciativas educacionais em escolas públicas de Minas Gerais – aconteceu no fim de 2011. Antes de sair para além dos muros da escola estadual Carlos Góes, no bairro de Boa Vista, na capital mineira, estudantes e instituição precisaram debater quais temas seriam trabalhados. Resolveram abordar a ecologia e o meio ambiente do bairro, alunos e professores passaram por capacitações desde como manusear máquinas fotográficas e celulares até aulas sobre cidadania e direitos autorais. Passaram também por capacitações com um diretor de cinema, que orientou sobre técnicas de vídeo; um fotógrafo, que ensinou como tirar boas fotos; uma jornalista, responsável por orientar em técnicas de entrevista e escrita; e de uma historiadora para falar sobre a memória oral.
De volta para sala de aula, os materiais captados em campo pelos estudantes são hospedados na plataforma pelo Memória de Elefante. Nela, os vídeos, imagens, áudios e textos ficam disponíveis na biblioteca de mídia – que é também é aberta a outros usuários – para que, além de conhecerem a história de outros bairros, possam montar suas pesquisas a partir dos conteúdos no site. “É como num quebra-cabeça. Eles precisam montar cenário da forma como quiserem. Ao trabalhar o meio ambiente do seu bairro, por exemplo, ele vai perceber que é diferente do Amazonas, como normalmente são tratados nos livros.”
A distância
Para dar escalabilidade à iniciativa, um dos desafios de Libanio é tornar a capacitação on-line. Segundo ele, a ideia é que, a partir de oficinas EaD, escolas de todo o Brasil possam produzir conteúdos em cada um dos seus bairros, formando o reservatório de conteúdos locais. “A educação a distância daria condições de capacitar 600 escolas simultaneamente”, diz. No entanto, para levar a metodologia para outras escolas Libanio busca por investimentos. “Uma das formas de viabilizar o projeto é por meio do MEC. Apresentamos a proposta ao governo federal, que avaliou e autorizou como parte das atividades do Mais Educação. É preciso agora que as escolas solicitem para que seja implementado. Se atingirmos 2,5% do universo das escolas do Mais Educação, já se viabiliza financeiramente”, afirma.


Parabéns pelo projeto, concordo inteiramente com a fala do Ismael sobre os livros didáticos, nós enquanto educadores não devemos nos limitar a este material.