Em 2025, o Brasil somava 46,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, segundo a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O tamanho do grupo é proporcional à sua diversidade. Para reconhecer que esse público reúne diferentes realidades, desejos e urgências, adota-se também o termo juventudes, no plural.

Para mapear quem responde a essas demandas, a Fundação Otacílio Coser lançou o Mapeamento pelas Juventudes 2025, iniciativa cujo questionário foi revisado pela Fundação Roberto Marinho. A plataforma reúne 138 organizações da sociedade civil voltadas à geração de oportunidades para jovens em todo o país. Juntas, essas instituições alcançaram mais de 1 milhão de pessoas em 2024.

“O Mapeamento atende à nossa missão de gerar dados sobre as juventudes e dar visibilidade a organizações de base, fora do eixo Rio-São Paulo, onde o investimento social privado é mais forte. Queremos criar pontes entre onde estão os recursos e onde a ação comunitária de fato acontece”, afirma Ana Flávia Gomes, superintendente da Fundação. 

Duas pessoas sentadas lado a lado exibem tênis de cano alto, um par preto e outro azul-claro, diante de parede grafitada.
No Brasil, falar em juventudes é reconhecer que não existe uma única experiência de ser jovem. São diferentes trajetórias, desejos e urgências que se cruzam em um país marcado por desigualdades. Crédito: Aedrian Salazar/Unsplash

Júlia Tavares, coordenadora do projeto, destaca que a meta ao reforçar o desejo de promover processos colaborativos entre as instituições mapeadas. “Nós buscamos ampliar a colaboração intrasetorial e intersetorial, ou seja, falamos de poder buscar parceiros no setores público e privado e dar visibilidade à essas atuações”.

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Com o objetivo de entender os impactos do Mapeamento para as organizações que figuram na plataforma, a Fundação está realizando uma pesquisa de avaliação, que já mostra dados relevantes. Cerca de 87% das respondentes (24 de 138) afirmam que o Mapeamento teve uma contribuição média a alta para a visibilidade da organização, enquanto 79% afirmam que a ferramenta ajudou a compreender melhor a atuação em diferentes territórios brasileiros. 

Como explorar o mapeamento
A navegação no site permite visualizar a presença das entidades por estado. São Paulo lidera com 69 instituições, seguido por Rio de Janeiro (37) e Espírito Santo (32). 

Também estão disponíveis cinco filtros para conhecer as 138 organizações mapeadas: área de atuação; perfil da organização; faixa etária atendida; público específico atendido; e jovens alcançados em 2024. O filtro de público específico abrange 10 categorias: de meninas e mulheres a populações LGBTQIAPN+, povos tradicionais e jovens fora da escola e do mercado de trabalho.

As frentes de trabalho dividem-se em sete eixos: cultura, esporte e/ou lazer; empreendedorismo; educação básica; capacitação e treinamento; empregabilidade; educação técnica e desenvolvimento de liderança. 

Nas fichas individuais, o leitor encontra também informações sobre a atuação de cada organização em conselhos de direitos, assim como sobre os conselhos e redes dos quais participa. “Queremos evidenciar que o terceiro setor precisa atuar em conjunto com as políticas públicas de acesso e garantia de direitos das juventudes”, explica Júlia.

Conheça a seguir três organizações que figuram no projeto. 

Com atuação em Umburanas, no semiárido baiano, a AMS (Associação Mulheres do Sertão) foi criada em 2021 por um grupo de mulheres agricultoras que se uniu para fortalecer a geração de renda e a agricultura familiar na região. Para Daiana Reis, presidente da instituição, a autonomia financeira feminina é um dos pilares do projeto. “Quando a mulher se torna empoderada, ela tem o poder de decisão, tem a sua liberdade que envolve a questão financeira. Muitas vezes, elas são obrigadas a ficar em um lugar ou até em um relacionamento porque não têm opção e não se sentem valorizadas por não ter uma renda.” 

Já a iniciativa com as juventudes surgiu ao perceber o movimento dos jovens após a conclusão do ensino médio. “Quando os nossos jovens se formam, geralmente eles ficam sem saber para onde vão ou o que vão fazer. Um dos motivos de fundar a associação foi trazer políticas públicas para a região para incentivar a geração de renda e diminuir o êxodo rural de pessoas que vão buscar melhores condições nas cidades grandes”, explica Daiana.

A AMS estrutura grupos produtivos em 15 comunidades rurais nas áreas de apicultura, cozinha comunitária, artesanato, agroecologia, corte e costura e cultura (envolvendo arte, lazer, esportes, educação, reforço escolar e colônia de férias). A entidade promove também o Festival AMS, reunindo apresentações de capoeira, música e feiras locais.

“Nós fomos criadas [com um pensamento] de que a roça não era boa, que a gente tinha que estudar e ir para a cidade grande, nem que fosse para trabalhar como doméstica. Mas o artesanato e a agricultura familiar vêm de geração em geração. Se eu não ensinar aos meus filhos, a nossa cultura e identidade acabam se perdendo.” 

Além de ter dois jovens contratados para apoiar a gestão da organização e ter planos de tornar o espaço que abriga sua a sede um centro digital e comunitário onde jovens podem estudar, a associação firmou parcerias que hoje beneficiam 21 jovens mulheres em outras comunidades. “Muitas pensavam em ir embora, mas decidiram ficar por conta do projeto”, relata.

  • Generation Brasil: empregabilidade e inclusão produtiva como fatores de mudança 

Com foco na mobilidade socioeconômica, a Generation Brasil faz uso de uma metodologia criada para conectar dois mundos: o mercado de trabalho, com suas vagas e oportunidades, e os jovens formados na educação básica, que muitas vezes não têm acesso a essas posições. 

“A nossa metodologia parte de alguns passos, e o primeiro deles é um entendimento profundo do que o mercado está buscando. Partimos da premissa de que não adianta formar um aluno em uma profissão sem demanda. Por mais óbvio que isso pareça, muitas vezes os programas de inclusão produtiva formam os jovens mais no sentido educacional, e não necessariamente para o mercado”, explica Andrea Matsui, presidente-executiva da Generation Brasil.

A entidade oferece cursos gratuitos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco. As formações abrangem tecnologia (como desenvolvimento júnior, análise de dados e suporte a data centers) e áreas como vendas e atendimento digital. 

Os cursos são destinados a jovens de 18 a 29 anos, sempre com a meta de formar turmas compostas por 50% de mulheres e 60% de pessoas negras. “A nossa equipe está usando o Mapeamento das Juventudes 2025 para identificar possíveis parceiros. Nossos programas podem ser o próximo passo para jovens atendidos por organizações que focam em estudantes que ainda estão no ensino médio, por exemplo”. 

Depois das formações, os jovens iniciam a Jornada de Empregabilidade, na qual a Generation apoia os participantes com revisões de currículo e perfil no LinkedIn, foto profissional e disponibiliza uma mentora de empregabilidade para acompanhá-los nos processos seletivos e na compreensão das diversas plataformas de emprego.

“Nós temos como meta chegar a 80% de empregabilidade dos participantes em até 180 dias”, diz Andrea. A Generation também desenvolveu um sistema próprio, que mapeia e dispara vagas para os jovens, e conta com um grupo ativo de ex-alunos que indicam novos participantes para as formações.

  • Projeto Arrastão: temas das juventudes em prol do desenvolvimento socioemocional e inclusão no mercado de trabalho

“Quando lançamos uma rede no mar e usamos a técnica da pesca de arrasto, vamos pegar inúmeras espécies de peixe. O Projeto Arrastão parte dessa premissa de atender pessoas de diversas idades e com todas as suas particularidades”, conta Hugo Ricardo, gerente de serviços das juventudes do Projeto Arrastão, criado em 1968 com o objetivo inicial de contribuir para a geração de renda de mulheres periféricas de São Paulo. 

Hoje, a missão é formar cidadãos capazes de transformar a realidade e o meio em que vivem, por meio de cinco frentes de atuação: Centro de Educação Infantil, Centro da Criança e do Adolescente, Programa de Formação de Jovens, Núcleo de Empreendedorismo e Inovação e Desenvolvimento Comunitário. Todas as atividades acontecem no contraturno escolar, tanto pela manhã quanto à tarde.

A iniciativa contempla todas as faixas etárias das famílias do Campo Limpo, distrito da zona sul de São Paulo. No caso dos jovens, mais do que pensar apenas na inserção no mercado de trabalho, o projeto dedica-se ao desenvolvimento socioemocional, pessoal e profissional, abordando temas fundamentais como educação para a sexualidade, uso de álcool e drogas e segurança na internet.

Ao ingressarem na organização, os jovens são divididos em dois ciclos. No primeiro, além de conhecerem a instituição e compartilharem expectativas e sonhos, aprendem sobre projeto de vida, educação financeira, informática básica, artes e competências socioemocionais. Ao final desse ciclo, o Arrastão avalia a maturidade de cada participante, que passa para o ciclo dois, voltado à qualificação técnica para o mercado de trabalho. 

Nessa segunda fase, cada jovem recebe o apoio de um mentor dedicado a orientar seu plano de carreira. O programa organiza visitas guiadas a empresas parceiras e articula processos seletivos dentro da própria organização, estratégia que ajuda a diminuir o nervosismo do candidato no primeiro contato com o entrevistador.

Das 100 jovens atendidos pelo projeto em 2025, 61 conseguiram um emprego. Nos últimos três anos, a taxa média de inserção no mercado de trabalho variou entre 70% e 75%. “Ao longo de quase seis décadas de atuação, o Projeto Arrastão passou por constantes transformações para continuar atendendo às demandas do território. É um processo de compreender o que está ao redor e se moldar para responder às necessidades desse público. Por isso, realizamos processos de escuta contínuos com a comunidade”, completa Hugo.

Próximos passos 

Realizado a cada dois anos, o Mapeamento das Juventudes tem a sua terceira edição programada para 2027. A ideia é tornar a plataforma mais interativa, com novos filtros e funcionalidades, em um movimento de criação de uma verdadeira comunidade de organizações. Para isso, a Fundação Otacílio Coser reforça a importância do trabalho conjunto e do coinvestimento, buscando potenciais parceiros para apoiar a realização dessa terceira rodada do projeto.

Fique por dentro 

Conheça as 138 organizações mapeadas e explore o universo de instituições brasileiras que se dedicam às juventudes: fundacaootaciliocoser.org.br/mapeamento2025/

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