Um laboratório queimado pode receber investimentos para ser reconstruído, além de novos equipamentos. Recuperar o tempo dedicado às pesquisas, porém, é outra tarefa. Entre a hipótese e a descoberta científica, há anos de coleta de materiais, formação de equipes e construção de conhecimento. É essa dimensão – intraduzível em um orçamento de reconstrução – que o incêndio na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) coloca em evidência.
Na noite de 7 de outubro, no campus do Recife (PE), o fogo atingiu um prédio que abrigava laboratórios de fármacos, genética e informática. Entre os espaços afetados está o Nupit-SG (Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino). As perdas materiais foram inicialmente estimadas em cerca de R$100 milhões, mas seus efeitos ultrapassam os limites da universidade.
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Este foi o terceiro incêndio registrado na UFPE em oito dias. Em 30 de setembro, o fogo atingiu um laboratório do Departamento de Física; em 4 de outubro, parte do Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal. Nenhuma das ocorrências deixou feridos. A Polícia Federal investiga as causas, e, até o momento, não há confirmação de ação criminosa nem de ligação entre os episódios.
A sequência ocorre em um contexto de denúncias de ameaças a universidades nas redes sociais. O MEC (Ministério da Educação) anunciou que acionaria a Diretoria de Combate a Crimes Cibernéticos da PF para uma apuração específica dessas mensagens, que também motivaram uma denúncia da UFF (Universidade Federal Fluminense). A eventual relação entre as ameaças e o incêndio na UFPE ainda não foi estabelecida.
“É um momento de tristeza cívica”, afirma Roberto Guerra, professor do Departamento de Ciências Administrativas e diretor do Parque Tecnológico e Científico da UFPE. Para ele, a destruição compromete a trajetória de grupos consolidados e sua participação na pesquisa internacional. “Quanto tempo vai levar para recuperarmos tudo isso?”, questiona.
A pergunta também diz respeito à sociedade: quantas respostas são perdidas ou demoram mais para chegar quando uma pesquisa é interrompida? Na avaliação de Guerra, a reconstrução vai exigir recursos e rapidez para que as equipes recuperem suas condições de trabalho e seu protagonismo científico.
Papel social da universidade
O próprio histórico do Nupit ajuda a entender o alcance dessa perda. Instalado no edifício que anteriormente abrigou o restaurante universitário, o núcleo se consolidou como espaço multidisciplinar voltado a medicamentos e tecnologias para a saúde.
Em maio de 2020, passou a atuar na testagem de Covid-19. Já em 2021, a inauguração de um laboratório de biossegurança nível 3 ampliou as condições para estudar microrganismos causadores de doenças. Em março de 2023, a UFPE informou que o núcleo havia realizado mais de 120 mil exames RT-PCR para identificar a doença. O atendimento alcançou municípios pernambucanos e deu suporte à comunidade universitária e ao Hospital das Clínicas.
Essa trajetória mostra como uma estrutura construída ao longo de anos pôde ser mobilizada diante de uma emergência coletiva, beneficiando a população local no enfrentamento à pandemia.
Guerra também menciona que no laboratório estavam sendo desenvolvidos estudos (por meio da startup Iara Systems) que poderiam contribuir para mitigar os danos de derramamentos de petróleo no oceano. O alcance social dessas pesquisas vai além da recuperação ambiental: produzir conhecimento sobre a contaminação pode orientar a proteção da saúde e das condições de trabalho de comunidades que dependem do mar. A própria UFPE mantém iniciativas voltadas aos efeitos do petróleo sobre pescadores e marisqueiras, aproximando a investigação científica de questões como renda, alimentação e preservação dos modos de vida.
Investimento em inovação
O prédio também fez parte da trajetória inovadora da universidade. Guerra recorda que por lá passaram a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, o escritório regional do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e uma incubadora de empresas. “São atividades que aproximam o conhecimento acadêmico de serviços, tecnologias e aplicações fora do campus.”
Dados recentes ajudam a dimensionar esse papel. No ranking do INPI referente a 2025, a UFPE registrou 50 depósitos de patentes de invenção e ficou em 12º lugar entre os depositantes residentes no Brasil. Sete das dez instituições que encabeçam a lista são universidades públicas. O indicador não resume sua contribuição social, mas evidencia sua participação na criação de tecnologias.
Para Guerra, reconhecer essas contribuições exige mudar a maneira como sociedade e Congresso encaram o financiamento das universidades públicas e da ciência. “Não é um gasto, é um investimento em capital humano qualificado, em inovação tecnológica”, afirma. O retorno, argumenta, aparece na formação de profissionais e no desenvolvimento de conhecimentos capazes de melhorar a saúde, enfrentar problemas ambientais e contribuir para a economia do país.
O professor também relaciona as dificuldades da instituição à trajetória recente do financiamento federal. Em sua avaliação, a universidade não pode continuar funcionando com um orçamento que foi “esmagado no governo anterior [de Jair Bolsonaro]” e que “está sendo aos poucos recomposto”. Sua cobrança é por um compromisso permanente com a manutenção das condições de ensino e pesquisa, para além dos recursos emergenciais anunciados após a tragédia.
Universidade que transforma vidas
A perda também atravessa projetos de vida. Em depoimento publicado no LinkedIn, o professor Pierre Lucena chama atenção para quem sustenta a atividade científica: “Por trás de cada laboratório, de cada equipamento e de cada pesquisa existem professores, pesquisadores, técnicos e estudantes que dedicam boa parte de suas vidas à produção do conhecimento”.
Ao recordar sua própria trajetória, Lucena acrescenta: “Sei o quanto a universidade transforma vidas, porque transformou a minha”. A interrupção de uma pesquisa atinge, desse modo, tanto a produção de conhecimento quanto a formação de quem poderá dar continuidade a ela.
Segundo pronunciamento do MEC, cerca de 200 mestrandos e doutorandos foram afetados. A pasta anunciou que atuará com a Capes para preservar bolsas e estender prazos, além de apoiar a continuidade dos estudos em instituições parceiras no Brasil e no exterior. Também informou que recomprará os equipamentos perdidos em parceria com outros órgãos e destinará aproximadamente R$28 milhões para a construção de um novo prédio.
Investigação e mobilização
Enquanto a reconstrução é organizada, as causas do incêndio permanecem sob investigação da Polícia Federal. Em outra frente, o MEC anunciou que acionará a Diretoria de Combate a Crimes Cibernéticos para apurar ameaças a universidades nas redes sociais. Segundo a Agência Brasil, a UFF (Universidade Federal Fluminense) também denunciou o recebimento de mensagens ameaçadoras. A apuração desses textos não estabelece, por si só, uma ligação com o fogo na UFPE.
A mobilização emergencial é necessária, mas Guerra espera que ela produza um compromisso duradouro. “É importante que a sociedade se mobilize em prol da educação não apenas na tragédia”, afirma. “Proteger a universidade pública significa preservar as condições para que estudantes se tornem pesquisadores, equipes mantenham suas investigações e o país desenvolva respostas para seus problemas.”
Parte do que se perdeu já tinha resultados conhecidos. Outra parte estava nas perguntas que ainda poderiam ser respondidas.

