“Em todas as salas, em todas as aulas, tudo que eu falo sobre política, tem um preconceito gerado muito grande, que é levado à corrupção”, diz o professor. Na lousa, o quadro mostra linhas de estudo das ciências sociais, como antropologia, sociologia e ciência política. Pouco depois, o professor pergunta: “2018 é ano de?”. Uma aluna responde: “eleições”. Sob olhares dos jovens, ele continua: “alguém cogita uma possibilidade do que poderia mudar no Brasil com um novo presidente? Alguém? Nada?” Corta. Essa é uma das cenas do documentário “Eleições”, dirigido por Alice Riff, que mostra o cotidiano de uma escola pública estadual de São Paulo, a Doutor Alarico Silveira, no bairro da Barra Funda, na capital, durante o período de eleições para o grêmio estudantil de 2018. O filme tem estreia nacional prevista para março de 2019, mas já começa a ser exibido em festivais de cinema, como o DOK Leipzig, na Alemanha, no final de outubro, e o Festival do Rio em novembro.
A sequência de imagens após a aula sobre política traz os estudantes em atitude oposta à passividade que aparentam em sala. Os adolescentes, agora, estão envolvidos em trabalhos em grupo e em discussões sobre composição de chapas, imagem dos candidatos, igualdade, feminismo, diferenças, ser político, espaço de fala, tipo de música e altura do som que podem ouvir no intervalo.
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Filmado nos primeiros meses deste ano, a ideia do documentário nasceu, segundo Alice Riff, do interesse em saber se a luta dos estudantes permaneceu após as ocupações das escolas em 2015 (quando alunos protestaram contra um projeto de reorganização no Estado, que transformaria escolas de dois ciclos – fundamental e médio – em unidades de ciclo único; os estudantes conseguiriam que o governo suspendesse a mudança após 60 dias de protestos). Outro motivo foi a percepção, nas eleições de 2016, de que havia uma desconexão entre os jovens e a política e o sistema democrático, com o aumento de votos brancos e nulos e o surgimento da extrema direita entre a juventude.
Alice queria ainda acompanhar as transformações que estão para acontecer na educação pública, como a reforma do ensino médio e discussões sobre o projeto conhecido como “escola sem partido” (cujo objetivo, segundo idealizadores, é impedir que professor influenciem alunos sobre temas como política e religião).
Filmar as eleições para o grêmio foi uma forma de se aproximar dos alunos. “O grêmio é o espaço institucionalizado em que o jovem pode ter participação política dentro da escola”, explica Alice, que é formada em ciências sociais e cinema e dirigiu outros documentários, como o longa “Meu Corpo é Político” e os curtas “Cidade Improvisada” e “100% Boliviano, Mano”.
Para a diretora, a graça do filme é colocar todos os pontos de vista existentes nos grupos em um processo democrático. “É um processo de escuta, todos podem falar, ter opiniões, posicionamentos, dizer como veem a escola, a direção e os professores. Cabe aos alunos saberem com qual grupo se identificam mais”, conta.
Participante das eleições e do documentário, a estudante Amanda Gomes Macêdo, 16, aluna do 2o ano do ensino médio, diz que as duas experiências foram interessantes. “Foi bom saber que alguém queria ver o que acontece dentro da escola. Queria passar para as pessoas o que estava acontecendo em uma escola pública. Ajudou a abrir a mente dos alunos sobre o universo de filme. Os alunos escutavam o que a gente tinha para dizer, o que a gente achava que precisava melhorar. Não dá para escutar só o que o ministro fala, o que o secretário fala, e, sim, tem que escutar os alunos. Acho bem importante isso, até porque a gente que move a escola, a gente que vai ser beneficiado ou não, independente do que aconteça”, afirma.
Sobre as eleições, Amanda conta que queria fazer algo diferente pela escola. “Tivemos a ideia de fazer uma chapa só de meninas. Acabou encaminhando para o lado errado hoje em dia, mas na época foi interessante. A gente tinha pouco tempo para se entender. A gente se conheceu em cinco minutos e tinha que estar junto todo dia, fazendo reunião, fazendo as coisas. Fiz amizades que posso levar. Teve todo o processo de conversar com alunos. A gente fez amizade com os mais novos. Conversava, ia todo dia, fazia cartazes, campanha. A gente colocou foto no perfil do Facebook para pedir voto na nossa chapa, o que está acontecendo na eleição hoje em dia. A gente colocou significado em tudo que fazia”, lembra.
Leidiane Andrade Alves, 18, aluna do 2o ano do ensino médio, também considera as duas oportunidades, de participar das eleições e do filme valiosas. “Fiz várias amizades no começo do ano. Estou com elas até hoje. Espero que dure bem mais. Fiz amizade com o pessoal do filme. São todos muito legais.”
João Vitor Marsullo Scarpa Braghirioli, 18, aluno do 3o ano do ensino médio, participou do conselho das eleições, fazia a ponte entre os alunos e a direção da escola. Ele conta que a atividade ajuda a ter voz na escola. “A gente começa a não ter medo da secretaria. Fala o que quer que mude. Eles escutam mais hoje em dia. Antigamente não, ninguém ligava. Agora, conversam com a gente”, diz. Alguns dos problemas que mais incomodam os estudantes, de acordo com o João, é a estrutura do prédio, como falta de cabos de energia e de lâmpadas e alagamentos em salas. “Começaram a mudar agora. Começou uma reforma na escola”, conta.
Anderson Righetto, 31, professor de sociologia na rede pública do Estado de São Paulo, é o educador que aparece na cena que inicia este texto. Foi escolhido como interlocutor entre a direção da escola e o grêmio estudantil nos últimos dois anos pelo seu entrosamento com os estudantes. “A questão do diálogo é fundamental para o adolescente resolver problemas. A escola é um microespaço onde funciona muito bem a política. Faz uma equiparação com a política atual, que não funciona, que não tem diálogo. Tem um candidato prestes a se eleger (para presidente) com base na falta do diálogo”, diz Anderson.
O professor explica que o grêmio estudantil ganhou relevância e força dentro da escola após as ocupações de 2015. A política, agora, é de gestão democrática na educação, de acordo com Anderson. “Mesmo assim, é difícil fazer os estudantes terem consciência de que participando daquilo vão conseguir mudar algo na realidade deles.”
As filmagens na escola foram positivas nesse sentido, segundo o professor, porque os alunos quiseram participar ativamente. “Foi uma experiência muito boa. Ninguém imaginava como eram os bastidores de um filme. Foi uma experiência antropológica. Com o filme, houve uma troca entre as pessoas. Rolou mais humanidade. Achei lindo ter filmado isso, foi um recorte histórico, um documento mesmo, que agora esta aí.”
Segundo Alice, “Eleições” mostra que é preciso preservar os espaços de discussão para fazer com que a política seja mais tangível. “Pensando sobre o momento atual, o filme constrói uma narrativa que faz com que a diversidade dentro da escola seja possível. O conflito de ideias, o debate, não só é possível como é transformador. Nesse momento que vivemos, os estudantes, no dia a dia e na troca de ideias, passam o recado de que não tem problema ter ideias diferentes, precisa que a democracia exista. O filme coloca o espaço da escola, que deve ser radicalmente democrático. É o local, como outros locais, igreja, família, esporte, onde os estudantes estão se construindo.”
O filme será distribuído para todo o Brasil pela Olhar Distribuição. A produção foi feita por meio do Edital Videocamp de Filmes – Edição 2017, iniciativa da plataforma Videocamp. Teve ainda patrocínio da Coca-Cola Brasil.




