Abrigo tecnológico capacita sem-teto em São Francisco - PORVIR
Ivan Kruk

Inovações em Educação

Abrigo tecnológico capacita sem-teto em São Francisco

Empreendedor que já morou em abrigo criou projeto para preparar pessoas na mesma situação a trabalhar com tecnologia nos EUA

por Carolina Lenoir ilustração relógio 1 de dezembro de 2014

Em 2011, depois de passar por uma série de adversidades desde que resolveu se mudar de Las Vegas para São Franscico, nos Estados Unidos, em busca melhores condições de vida, o norte-americano Marc Roth se viu morando em seu carro e, pouco tempo depois, em um abrigo para sem-teto. Um folheto descartado na lixeira do abrigo foi o ponto de partida para uma reviravolta que tem impactado não só a sua própria história, mas também a de outras pessoas.

O anúncio era do TechShop, um espaço ao estilo de uma oficina que oferece equipamentos e aulas a quem se torna filiado e queira desenvolver seus próprios projetos. Marc gastou os últimos US$ 50 que tinha para se tornar membro e, depois de um ano às voltas com impressoras 3D, máquinas de corte a laser, cursos e softwares diversos, se reinventou profissionalmente e, em 2013, abriu uma startup, a SFLaser, que oferece serviços de cortes e gravações a laser. Para retribuir a oportunidade de recomeçar que lhe foi dada, Marc deu início, no mesmo ano, à criação do programa de treinamento The Learning Shelter  (Abrigo educativo, em livre tradução).

Além de providenciar acomodação gratuita, o projeto capacita profissionalmente, durante três meses, sem-tetos que sejam maiores de idade e tenham interesse na área de tecnologia. A expectativa é que, por meio de orientação e desenvolvimento de algumas habilidades bastante demandadas pelo mercado, os participantes sejam empregados ao fim dos 90 dias de treinamento. Foi exatamente isso o que aconteceu com os cinco alunos da primeira turma recém-graduada, que conseguiram recolocação profissional graças ao aprendizado proporcionado pela iniciativa.

O programa expõe os alunos à experiência prática em diversas ferramentas, máquinas e softwares, como impressoras 3D, plotters de recorte de vinil, cortadores a laser e programas de computador como Autodesk Inventor e Adobe Illustrator. Além disso, o The Learning Shelter oferece um currículo que pretende lapidar as habilidades técnicas e interpessoais dos participantes por meio de uma grade intensa de aulas. Para isso, Marc conta com um conselho formado por nove pessoas, desde designers de produtos até fabricantes do setor de tecnologia. No primeiro mês, os alunos participam do módulo Descoberta, em que são introduzidos ao trabalho com as ferramentas em um nível iniciante. Nesse estágio, os participantes aprendem questões técnicas como o uso seguro dos equipamentos, mas também definem um projeto pessoal no programa junto com os mentores, levando em consideração suas necessidades e interesses.

Os 45 dias seguintes são dedicados ao desenvolvimento, em que os alunos imergem em um nível mais avançado de uso dos softwares e máquinas que têm a ver com o projeto definido no módulo anterior. No módulo final, de 15 dias, os alunos se envolvem com a produção de um protótipo, que deve ser apresentado ao fim do curso. Em entrevista ao Porvir, Marc explica que esse currículo foi bastante influenciado pela sua experiência pessoal. “Começamos com as três máquinas mais fáceis e os softwares básicos para desbloquear o potencial dos alunos. O importante não é tanto que eles dominem esses conhecimentos, mas que se sintam confiantes a partir do processo de construção, algo que vem do fazer com as próprias mãos.”

De acordo com Marc, o programa tem investido no relacionamento com coordenadores dos abrigos de São Francisco, para que eles possam indicar candidatos ao treinamento. “Acredito que, conforme o programa avançar, os abrigos vão se abrir à ideia. Eles são responsáveis por uma grande quantidade de vidas e não dispõem de recursos suficientes para refletir sobre o futuro delas”, afirma. Segundo o dono da startup, o processo seletivo atual conta com assistentes sociais e parceiros da comunidade envolvidos em algum tipo de projeto social.

As empresas interessadas em contribuir com o programa podem tanto se dispor a contratar os estudantes como disponibilizar sua equipe para atuar na mentoria dos participantes. Para expandir o projeto e criar estrutura para receber mais do que cinco alunos por turma, o The Learning Shelter está em busca de financiamento. As doações podem ser feitas por meio do próprio site do programa. O objetivo é passar para turmas de 10 pessoas em curto prazo e, mais adiante, oferecer aulas para grupos de 30 pessoas.

Com isso, Marc pretende estender a oportunidade a mais desabrigados e ter a chance de conhecer pessoas como John, que hoje é voluntário no The Learning Shelter. “Ele era solitário como eu e tinha uma história parecida com a minha. Eu o conheci antes de abrir a primeira turma e patrocinei a sua filiação ao TechShop por alguns meses. Hoje, ele é uma espécie de mentor informal do programa. Sua mãe um dia apareceu na sede e me levou para jantar fora, mesmo com seu orçamento apertado, e me disse o quanto John quer retribuir o que fiz. Esse deve ser o propósito de tudo o que estamos fazendo.”

Marc também pretende orientar interessados em copiar o modelo do programa e replicá-lo onde quer que seja necessário. “Eu realmente sinto que isso está funcionando e que estamos movendo em uma boa direção. Espero que o programa seja sustentável e continue a ajudar as pessoas da maneira que tem nos ajudado. Estamos ensinando liberdade para aqueles que vivem com escassez, e essas ferramentas podem ser uma parte das suas vidas para sempre ou se tornar lembranças simbólicas. O tempo dirá”, finaliza Marc.


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educação de jovens e adultos, educação mão na massa, empreendedorismo, negócios de impacto social

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