‘O Agente Secreto’: o que o filme ensina e como usá-lo em sala de aula
Crítico e professor de cinema, Sérgio Rizzo analisa 'O Agente Secreto' e oferece caminhos para discutir a ditadura brasileira e a linguagem do cinema com os seus alunos
por Sérgio Rizzo
12 de janeiro de 2026
Atualizado em 22 de janeiro de 2026
Por dois anos consecutivos, o cinema brasileiro conquistou espaço significativo entre os principais lançamentos internacionais da temporada. Em 2024/2025, foi “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que abriu, com o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza, uma expressiva trilha de reconhecimento em dezenas de países, culminando com o Oscar de Filme Internacional.
Esse protagonismo se mantém com “O Agente Secreto”, que reafirma a presença brasileira no circuito internacional. O longa iniciou sua trajetória com os prêmios de melhor direção, para Kleber Mendonça Filho, e de melhor ator, para Wagner Moura, no Festival de Cannes.
O reconhecimento também se estendeu a outras premiações: o longa recebeu dois Globos de Ouro, de melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em drama, concedido a Wagner Moura, e também disputou o troféu de melhor filme em drama, vencido por “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”.
O reconhecimento internacional segue em expansão e amplia ainda mais a presença do filme no Oscar. “O Agente Secreto” foi indicado nesta quinta-feira, 22 de janeiro, a quatro categorias: melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor seleção de elenco. A cerimônia de entrega será realizada em 15 de março.
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Importantes por chamar a atenção no exterior para a qualidade da produção brasileira, esses filmes têm um papel ainda mais significativo dentro do próprio Brasil, ao destacar a relevância do cinema nacional — representada por centenas de longas e curtas-metragens de ficção e de não-ficção lançados todos os anos — e a oportunidade de trazê-lo para o campo da educação.
Nesse caso, podemos contribuir para a formação de público e para a alfabetização audiovisual ao mesmo tempo em que incentivamos o desenvolvimento do pensamento crítico em relação a diversas pautas históricas, sociais e culturais do país.
Devemos sempre lembrar que no cinema, bem como na literatura e em outras formas de expressão artística, a forma e o conteúdo caminham juntos; na verdade, correspondem a um todo indissociável. É preciso tomar cuidado para não considerar que essas duas dimensões caminham separadamente, como se fosse possível falar a respeito de “temas” sem passar pelos recursos de linguagem empregados para os explorar.
Diferentes formas de ver e contar histórias
O contraste entre “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” é exemplar para essa discussão. Embora ambos construam narrativas ambientadas durante a ditadura que teve início com o golpe civil-militar de 1964, seus realizadores optaram por procedimentos bem distintos.
O primeiro toma como referência o modelo narrativo clássico, ainda hoje dominante na maior parte da produção audiovisual (filmes, séries e telenovelas). Nesse universo estilístico, os elementos estéticos e dramáticos são organizados em nome da clareza e da didática; há o pressuposto de que todos os espectadores devem compreender as mesmas coisas, entre elas o que move os protagonistas da trama. Os pensamentos, sentimentos e objetivos dos personagens costumam ser facilmente compreendidos, inclusive porque os diálogos contribuem para os explicitar, às vezes de forma reiterada e insistente, de modo a não deixar lacunas que possam incomodar a quem, hoje, talvez assista ao filme de olho também em aplicativos que rodam simultaneamente na tela do seu telefone celular, como os de mensagens e das redes sociais. Para um espectador “distraído”, é preciso muitas vezes ser repetitivo — como sabemos ao conversar com um interlocutor que ao mesmo tempo está em “outra sintonia”.
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Já “O Agente Secreto” percorre outra trilha, aberta pelo modelo narrativo moderno, que pede um espectador mais ativo. Nessas situações, que se multiplicam no cinema desde os anos 1960, o sentido do filme só é efetivamente alcançado por cada um de nós, de maneiras muito particulares que dizem respeito ao nosso repertório artístico (os filmes, livros, canções e outras obras que conhecemos ao longo da vida), à nossa trajetória de vida (quais as experiências pessoais, familiares e sociais que tivemos), às nossas coordenadas culturais (onde nascemos, onde crescemos), ao conjunto de nossos valores e crenças.
Além disso, “O Agente Secreto” incorpora também características pós-modernas, sobretudo ao se apresentar como um filme que se refere o tempo todo a outros filmes, num exercício de cinefilia que insere o próprio cinema no coração do filme. Diante de uma obra aberta como essa, somos convidados o tempo todo a, digamos, “completar as lacunas”. Conversar com outras pessoas sobre o que sentimos e enxergamos nela pode tornar-se um exercício fascinante de escuta. Em cada coração, uma sentença.







Dentro de cada espectador, um filme diferente terá sido “construído”. No diálogo entre espectadores, diversas “construções” passam a ser entrelaçadas, sem que uma seja mais autêntica e verdadeira do que outra. Não há um único segredo a ser desvendado, como em tramas de mistério detetivescas; há muitos segredos a serem compartilhados.
Vejamos o que disse a respeito do filme o crítico David Beal, da revista “Film Comment”, de Nova York (EUA):
“‘O Agente Secreto’ é a história de um homem perseguido pelas forças da ditadura militar brasileira na década de 1970. Mas é também uma série de digressões vívidas, sugestivas e por vezes fantásticas que tentam capturar algo da energia frenética e bizarra da sociedade brasileira sob a ditadura, como se a única maneira de pintar um retrato completo daquela época fosse por meio de uma mistura de falta de direção, mito, autobiografia, figuras de gênero e outros impulsos cinematográficos heterogêneos que se sucedem rapidamente. O filme, ambientado durante o Carnaval e absorvendo parte de seu espírito inebriante, é obcecado pela textura da cultura popular no Brasil; é, entre outras coisas, um arquivo das diversas lendas urbanas, folhetins e programas de rádio que animavam uma sociedade em crise.
Acima de tudo, é um filme cuja essência é o próprio cinema. Desde seu último filme, ‘Retratos Fantasmas’, Kleber Mendonça Filho tem se concentrado cada vez mais em como ir ao cinema já foi um elemento central da vida popular em sua cidade natal, Recife. ‘O Agente Secreto’ é, de certa forma, uma tentativa de ressuscitar o centro, hoje um tanto decadente, daquela cidade do nordeste do Brasil como um lugar vibrante que era, nas palavras de Mendonça, ‘marcado por mundos de fantasia’ — um lugar em que o cinema comercial e o espaço sagrado da sala de cinema fizeram mais do que qualquer outra coisa para moldar o imaginário social e organizar as impressões das pessoas sobre a violência extrema, caótica e sancionada pelo Estado.”
David Beal nos oferece, com esse resumo que traduz a sua visão do filme, alguns dos elementos-chave para discuti-lo em sala de aula com adolescentes e jovens:
1) Cinefilia: o cinema como experiência e memória
Quais são os “mundos de fantasia” alimentados pelos alunos? Quais são as suas referências culturais e como seus repertórios são construídos? “O Agente Secreto” recria um período, em 1977, que as salas de cinema — algumas gigantescas, como a do Cinema São Luiz, do Recife — correspondiam ao epicentro do lazer e do imaginário popular. Essas salas desapareceram quase por completo. Milhões de brasileiros nunca foram ao cinema.
- Quais as diferenças entre aquela experiência cinematográfica dos anos 1970 e o consumo do audiovisual hoje, maioritariamente doméstico e em telas pequenas?
- O que perdemos? E o que eventualmente ganhamos?
“O Agente Secreto” combina elementos de diversos gêneros: filmes policiais e de suspense, terror e comédia. É como se ele “piscasse” o olho para nós sempre que passeia por um desses registros e sempre também os alterna subitamente — uma cena mais leve, de humor, pode repentinamente se tornar mais dramática e pesada.
A trilha sonora exerce um papel importante na criação dessas atmosferas, pois certos andamentos musicais estão associados a determinados gêneros cinematográficos (e, portanto, a sensações que sentimos ao ouvir esses andamentos).
- Como os alunos observam essa “dança” audiovisual a que o filme nos convida?
📌 O Agente Secreto – Trilha Sonora – Spotify
📌 Cinco curiosidades sobre a trilha sonora do filme
📌 Confira algumas referências cinematográficas da trama
📌 Os dias de terror e glória da Perna Cabeluda, lenda pernambucana que está no filme
2) Brasil dos anos 1970: a história além dos livros
Quando falamos de um tempo em que não vivemos — por exemplo, em aulas de história —, há uma tendência a tornar o passado “chapado”, resumido a poucos eventos. Perdemos de vista a história do cotidiano e a multiplicidade de fatos e personagens que protagonizaram aquele tempo. Para entender o que isso representa, basta prestar atenção ao Brasil que vivemos diariamente, hoje, e imaginar que, daqui a 50 anos, as pessoas vão se referir ao nosso presente com base em duas ou três datas, dois ou três personagens-chave. Nem de longe isso corresponderá à intensidade de existir hoje no Brasil (e no mundo).
Com a sua multiplicidade de elementos culturais, “O Agente Secreto” procura recriar um passado multifacetado, em que não importam apenas os grandes fatos sociais e políticos, mas também (e principalmente) a maneira como eles criam uma grande moldura dentro da qual cidadãos comuns vivem as suas vidas. Filmes, músicas, roupas, cenários, objetos, diálogos e situações corriqueiras combinam-se para essa recriação (que, não custa lembrar, é isso, pura recriação a partir de elementos de memória coletiva e individual).
- Qual será a percepção do Brasil dos anos 1970 criada pelo filme em alunos que nasceram no século 21?
- Em que medida essa percepção contrasta com os conhecimentos que têm daquele período?
- Já conversaram com seus pais, tios e avós sobre o que cada um deles se lembra daquele tempo?
3) Violência e ditadura: poder e sociedade
A aliança civil-militar responsável pelo golpe de 1964 e pela manutenção do estado ditatorial por duas décadas está sugerida em diversas situações de “O Agente Secreto”, com destaque para a atuação do empresário que encomenda o assassinato do pesquisador universitário interpretado por Wagner Moura. No início do filme, há uma referência a um estudante desaparecido que teria sido morto por policiais — e é também um policial (rodoviário) que, na primeira sequência, a do posto de gasolina, tenta extorquir o protagonista.
Vislumbram-se aspectos de uma sociedade violenta e corrupta, em que os agentes do Estado atuam em nome de interesses privados, e na qual a autoridade do “guarda de esquina” parece respaldada pelo modo autoritário de governar o país.
- Quais são os elementos da trama que ajudam a construir essa maneira de observar a sociedade brasileira dos anos 1970 — que um letreiro do filme descreve, ironicamente, como “uma época cheia de pirraça”?
- Como os alunos associam o comportamento dos personagens ao cenário político?
- Como o drama dos desaparecidos ganha contornos?
- E como as narrativas a serviço dos interesses do regime e de seus agentes eram construídas? Qual o papel da imprensa (jornais, emissoras de rádio e TV) na construção de uma visão de sociedade?
Sentiu falta de algo importante nessa análise? Deixe seu comentário sobre como você levaria ‘O Agente Secreto’ para a sua realidade escolar e vamos ampliar essa conversa.
Sérgio Rizzo
É jornalista, crítico, professor de cinema, diretor e roteirista. Integra o comitê de seleção do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. Acompanhe sua newsletter em oventonoslevara.substack.com
Atualizado em 22 de janeiro de 2026





