Na comunidade onde leciono, muitas mulheres saem de casa ainda de madrugada. Percorrem longas distâncias para trabalhar, quase sempre como empregadas domésticas. Muitas são mães solo e convivem com a informalidade e a ausência de direitos trabalhistas. São mulheres que sustentam casas, histórias e afetos, mas raramente aparecem nos livros, nos discursos ou nas políticas públicas. 

Ao observar esse cotidiano, criei o projeto “Carolinas”, com o objetivo de conscientizar os estudantes sobre situações de subalternidade e estimular a empatia e a solidariedade. Para isso, recorri à literatura, à música e ao cinema como linguagens centrais do processo, que possibilitaram reflexões críticas sobre desigualdades, racismo e a omissão de programas sociais que afetam, sobretudo, mulheres pobres, pretas e periféricas.

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Trajetória

Desenvolvido ao longo de aproximadamente 70 aulas, entre março e novembro, com turmas do 9º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Professora Cynthia Cliquet Luciano, em São Sebastião (SP), o projeto foi estruturado como uma sequência didática de longa duração nas minhas aulas de língua portuguesa. Contei também com a colaboração da professora de artes, Luana Fida (Clique aqui para acessar o plano de aula).

Começamos o projeto com uma pergunta: quem são as mulheres que cuidam de tudo e quase nunca são cuidadas? A partir dela, organizamos o percurso que articulou literatura, análise linguística, oralidade, produção escrita, pesquisa de campo e linguagens artísticas, como cinema, teatro e artes visuais. Tudo devidamente alinhado às habilidades da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) previstas para o segmento.

Grupo de estudantes sentados em círculo em uma biblioteca escolar
Projeto reconectou estudantes à sua comunidade pelo legado de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Arquivo Pessoal

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Escuta inicial

A sequência didática partiu de uma roda de conversa guiada por perguntas que conectam o tema da invisibilidade social das mulheres à vida dos estudantes: vocês conhecem mulheres da comunidade que desenvolvem ações sociais? Quais leis são voltadas às mulheres? Como acontece a representatividade política no município? Qual a importância das creches? E qual é o papel das mulheres indígenas na sociedade?

Em seguida, projetei imagens de mulheres negras e indígenas escritoras, como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Geni Guimarães, Aline Rochedo Pachamama e Cristine Takuá. Com as fotos, provoquei os alunos a refletir sobre quais profissões imaginavam que elas exerciam. O objetivo era explicitar estereótipos e iniciar a leitura crítica de mundo antes da leitura dos textos.

Também apresentei alguns pontos da legislação que protegem as mulheres, como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a Lei do Stalking (perseguição obsessiva), conversando também sobre suas respectivas relatoras.

Análise de discursos

Em 8 de março, Dia Internacional das Mulheres e data simbólica para a discussão de gênero, recebemos a professora e coreógrafa Michele Nunes, mulher negra que desenvolve um projeto social de dança na comunidade. Na ocasião, ela compartilhou um pouco de sua trajetória, o que ajudou os estudantes a reconhecerem continuidades entre vida, trabalho e desigualdade.

Professora em pé fala com estudantes sentados em biblioteca escolar
O Projeto Carolinas combate a invisibilidade social ao questionar quais mulheres sustentam a comunidade e por que suas histórias raramente são contadas. Crédito: Arquivo Pessoal

Em seguida, passamos a estudar a vida e obra da escritora mineira Conceição Evaristo. Com a leitura do conto “Maria”, presente no livro “Olhos d’Água”, abordamos duas habilidades da BNCC em especial: a EF69LP44, voltada à identificação de valores sociais, culturais e humanos em textos literários, considerando autoria e contexto histórico; e EF89LP33, que trata da leitura autônoma e da compreensão de diferentes gêneros literários, com expressão de interpretações, avaliações e preferências dos estudantes.

A análise foi ampliada com a discussão de uma fake news sobre o linchamento de uma mulher negra no Guarujá (cidade do litoral paulista), permitindo relacionar ficção com situações reais envolvendo violência simbólica, desinformação e responsabilização social.

Também lemos um artigo de opinião sobre a PEC da escala 6×1, proposta pela deputada federal Érika Hilton. Expliquei aos estudantes que uma PEC é uma Proposta de Emenda à Constituição e que, nesse caso, a discussão envolve a revisão da jornada de trabalho, questionando o modelo de seis dias trabalhados para um de descanso.

As leituras foram acompanhadas de atividades de compreensão e interpretação, além de reflexões sobre como a sobrecarga de trabalho afeta a saúde física e mental das mulheres, especialmente aquelas que acumulam trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidado com a família.

O curta-metragem “Vida Maria” e as canções “Maria, Maria” (Milton Nascimento e Fernando Brant) e “Maria da Vila Matilde” (de Douglas Germano, interpretada por Elza Soares) foram incorporados a esta etapa como textos multissemióticos. A partir deles, realizamos reflexões orientadas e um novo debate a partir de registros escritos, com exemplos de mães e avós que foram impedidas de estudar ou tiveram que migrar dos seus territórios em busca de oportunidades. Esta etapa estimulou o olhar crítico de diferentes linguagens e o reconhecimento de ciclos de violência que atravessam gerações.

A escrita como registro histórico

A apresentação da trajetória de Carolina Maria de Jesus marcou um novo momento da sequência didática. O nome do projeto, em sua homenagem, surgiu a partir das evidências de que muitas mulheres da comunidade vivenciam realidades semelhantes às vividas e retratadas por Carolina em sua obra. 

A leitura de “Quarto de Despejo”, livro do gênero diário que consagrou a autora nacional e internacionalmente, acontecia todas as sextas-feiras. Após as leituras, os estudantes se reuniam para momentos de escuta, troca e debate.

O trabalho com o diário possibilitou explorar a narrativa em primeira pessoa, a linguagem direta e o texto como documento histórico, situando a obra no contexto da urbanização de São Paulo e da história da população negra. Essa abordagem dialoga diretamente com a Lei 10.639/03, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica.

Ao longo do processo, os estudantes também produziram registros espontâneos sobre seus sentimentos e impressões diante da história de Carolina, exercitando a escrita autoral e ampliando as possibilidades de expressão, identificação e reflexão crítica.

Grupo de adolescentes lê livros ilustrados juntos em mesa redonda
Alunos debatem relações de trabalho femininas e desenvolvem memórias em primeira pessoa a partir de relatos reais. Crédito: Arquivo Pesoal

Pesquisa de campo

Carolina também nos inspirou a entrevistar mulheres da comunidade que atuam como empregadas domésticas. A atividade envolveu o planejamento coletivo do roteiro, o estudo do gênero entrevista, considerando quem seriam, quais temas deveriam ser abordados e como garantir a escuta respeitosa. 

Os estudantes também editaram os materiais produzidos, organizando falas, contextualizando os depoimentos e construindo um encerramento da produção textual, exercitando a habilidade de planejar, realizar e editar entrevistas orais previstas na BNCC (EF89LP13).

Também debatemos as violências e relações de trabalho vivenciadas pelas mulheres, assim como exemplos de respeito e valorização de seus contratantes. A partir desses relatos, os estudantes produziram textos de memória em primeira pessoa, exercitando empatia, coesão, coerência e revisão coletiva.

Três adolescentes leem juntos o livro infantil “Taynôh”
Taynôh explora as raízes dos povos originários e a conexão com a floresta com uma narrativa sobre memória, identidade e o tempo presente. Crédito: Arquivo Pessoal

Diálogo intercultural

A sequência avançou com o estudo de autorias indígenas contemporâneas, como as escritoras Aline Rochedo Pachamama (Churiah Puri), Cristine Takuá, e a artista visual Daiara Tukano. Além das leituras comparadas entre textos indígenas e não indígenas, rodas de conversa e pesquisas, abordamos as experiências anteriores das turmas, que tinham visitado a Aldeia Indígena Rio Silveiras, aqui mesmo na cidade de São Sebastião, e assistido a produções audiovisuais com protagonismo indígena, como o filme “Para’i”.

Esse percurso resultou na exposição “Sabedoria Ancestral”, na galeria de arte Cândido Portinari, dentro da escola. A mostra reuniu pesquisas, pinturas e reflexões que valorizam os saberes ancestrais e a diversidade das vozes dos povos originários, com homenagem especial a Aline Rochedo Pachamama, primeira indígena a fundar uma editora voltada às línguas indígenas e à reparação linguística e territorial por meio dos livros.

Debate público

Em parceria com a Associação Rosas Negras, formada por mulheres negras da comunidade e atuante na promoção de ações antirracistas, de acolhimento social e assistencial, fortalecemos o diálogo entre a escola e o território.

Como parte dessa articulação, assistimos ao documentário “Doméstica”, dirigido por Gabriel Mascaro, e realizamos uma roda de conversa com a participação do professor de História, Edvanaldo Serafim, aprofundando o debate a partir das experiências retratadas no filme.

A discussão teve como eixo o dia 13 de maio de 1888, data em que a Lei Áurea foi assinada por Princesa Isabel, problematizando seus impactos históricos e sociais para a população negra. O debate crítico sobre o processo de escravização manteve o foco nas experiências das mulheres negras e na persistência das desigualdades no pós-abolição.

Três jovens atuam em cena de atendimento médico no palco
A adaptação teatral de “O Sonho de Bitita” destaca o talento autoral dos estudantes na criação de cenários, figurinos e atuação. Crédito: Arquivo Pessoal

Expressões artísticas

Como produto final, organizamos um caderno coletivo com os textos de memória produzidos pelos estudantes. Em agosto, durante a Festa da Leitura da escola, montamos uma exposição em homenagem à trajetória de Carolina Maria de Jesus, com curtas-metragens, fotografias, objetos, jogos e produções artísticas.

O projeto extrapolou os limites da sala de aula por meio do trabalho desenvolvido no Grupo de Teatro Baobá, idealizado e dirigido por mim, que desde 2022 promove montagens com temática antirracista. Os estudantes participaram das atividades no contraturno escolar e, neste ano, diante do envolvimento profundo com a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus, decidimos levá-la ao palco com a adaptação da peça de teatro “O Sonho de Bitita”.

Os figurinos e os cenários foram concebidos e produzidos pelos próprios estudantes, fortalecendo o caráter autoral e coletivo do processo. O roteiro e a direção contaram com a minha participação. A apresentação ocorreu no Teatro Municipal da cidade e foi reconhecida com o prêmio de Melhor Peça na categoria Ensino Fundamental II no FestiArt, reforçando o impacto artístico e pedagógico da experiência.

Assista à íntegra da peça “O Sonho de Bitita”

Impactos e aprendizagens

Os resultados para os estudantes foram o desenvolvimento do pensamento crítico, a consciência das desigualdades sociais vivenciadas por mulheres e suas consequências, a importância de lutar por direitos trabalhistas e de não se calar diante das violências vivenciadas, muitas vezes, por mulheres da própria família.

Também compreenderam a importância da literatura e da escrita como instrumentos de denúncia social e de registro histórico. Reconheceram, também, que em suas próprias comunidades existem muitas mulheres como Carolina Maria de Jesus: mulheres que criam seus filhos sozinhas, lutam pelo acesso à educação e seguem trabalhando, mesmo em condições adversas e sem acolhimento social.

Além disso, tiveram acesso à autoria de mulheres pretas que, apesar das restrições de acesso à escolarização formal, tornaram-se grandes artistas e escritoras. Aos poucos, foram encorajados a acreditar em seus potenciais e em seus sonhos.

Professora e produtora cultural. Formada em Letras, é especialista em Literatura Infantojuvenil e Educação Indígena. Atua como professora de Língua Portuguesa e Literatura na rede municipal de São Sebastião e desenvolve projetos voltados à temática...

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