Se você quer entender o que grandes investidores do Vale do Silício, nos Estados Unidos, pensam a respeito da educação, precisa conhecer a AltSchool. Criada em 2013 por Max Ventilla, empreendedor e ex-funcionário do Google (do time que criou o Google+), a rede de pequenas escolas com sede em São Francisco, na Califórnia, e em Nova York, é formada por oito unidades com 35 a 120 alunos, do berçário à oitava série.
Desde sua fundação, a Altschool guarda muita semelhança com startups que criaram aplicativos que você deve ter no celular. Recebeu mais de US$ 100 milhões de investidores como Marc Andreessen (fundador do Netscape e investidor de marcas como Twitter e LinkedIn), da empresa Andreessen Horowitz, e do fundador do Facebook Mark Zuckerberg e sua mulher Priscilla Chan, que criaram um fundo para apoiar a personalização do ensino. Baseia seu produto em tecnologia, que é constantemente aprimorado por uma equipe de engenheiros e designers vindos de Apple, Google e Facebook.
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Apesar de ter recebido sucessivos aportes financeiros, a AltSchool se mantém pequena e investe em pesquisa e desenvolvimento para fazer o bolo crescer antes de dividi-lo, inclusive com escolas parceiras. Seria uma história parecida com tantas outras do Vale do Silício, não fosse a Alt School uma rede de escolas.
Para entender como o que acontece na sala de aula tão colada ao mundo da tecnologia, o Porvir conversou com Mohannad El-Khairy, assessor de negócios da AltSchool, que veio ao Brasil para participar do Transformar Educação, evento sobre inovação em educação organizado por Instituto Inspirare/Porvir, Fundação Lemann e Instituto Península, que aconteceu no último dia 4 em São Paulo (SP). O executivo conta que o maior desafio que a Alt School se coloca é proporcionar qualidade de ensino e aprendizagem para muitos e não apenas para alguns. “Como se consegue o mesmo resultado de um programa de personalização com um professor por estudante adaptado a um modelo de sala de aula com 20 ou 30 alunos para cada professor?”, questiona.
As pistas podem ser encontradas nas lab schools (escolas laboratório), onde a tecnologia é usada a favor do protagonismo do aluno para que ele defina seus caminhos de aprendizagem, que, como não poderia ser diferente, passam pela metodologia de projetos. Aos poucos, a plataforma criada pela própria escola vai entendendo as dificuldades dos alunos. No futuro, pretende ganhar inteligência artificial e deixar o professor ainda mais livre do trabalho repetitivo para que ele consiga escolher a melhor estratégia para suas aulas.
Leia a entrevista abaixo:
Porvir – O que uma escola criada no Vale do Silício e em meio a tantas empresas de tecnologia traz de diferente?
Mohannad El-Khairy – Viver no Vale do Silício permite presenciar muita inovação acontecendo e ver muitos setores sendo abalados por isso. Ao analisar quais fatores estão por trás desse fenômeno e os fundamentos que levam à disrupção, costuma-se encontrar algo que é conhecido, que é considerado verdade, e que vira o modelo atual de cabeça para baixo. A educação é provavelmente a área mais difícil para se fazer isso. Pode-se argumentar que um médico de hoje é melhor que o melhor médico há 100 anos, mas você não pode pressupor isso a respeito da educação. Ao olhar para o setor de EdTech e as tentativas de inovação, tenta-se escalar algo rapidamente, como em qualquer produto e modelo de negócio para internet. É assim que Google, Facebook e Snapchat trabalham. Você inventa algo que não é muito sofisticado e ao atingir uma quantidade grande de usuários, começa a inovar. Mas nenhuma das empresas de EdTech que existem hoje tentou a outra abordagem, que é a hardtech (jargão que designa a estratégia de crescer aos poucos, desenvolvendo expertise própria e investimento de longo prazo). A Tesla tem feito no setor automobilístico: criou um grande setor de pesquisa e desenvolvimento, fez muitos testes, planejou a construção dos veículos durante muito tempo e, uma vez que alcançou a receita certa, começou a produzir carros em escala. Por estar no Vale do Silício, onde a inovação é guiada pela experimentação, prototipação e pilotagem, adotamos essa abordagem de hard technology, criando uma rede de escolas laboratório, aqui na área da Baía de São Francisco e em Nova York. É engraçado que somos uma empresa de EdTech que está aprendendo sobre o papel da tecnologia em reorganizar o setor.
Porvir – E como isso se traduz na maneira que a AltSchool organiza a infraestrutura de tecnologia e ensina?
Mohannad El-Khairy – Somos pessoas de tecnologia vindas de empresas como Google, Apple e Facebook, onde o ambiente de trabalho também evoluiu. Em vez de uma área de trabalho comum em corporações tradicionais, usamos espaços abertos para proporcionar maior colaboração e criatividade. Muitos dos componentes de design thinking que adotamos nas aulas vem dessas empresas, mas no final das contas, não estamos falando de como a criança aprende, mas o como isso acontece. É uma combinação de aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa e individual. A ideia é criar um ambiente que tenha como finalidade a personalização. O maior desafio que estamos enfrentando é como alcançar qualidade que venha de escala e não da escassez. Como se consegue o mesmo resultado de um programa de personalização com um professor por estudante adaptado a um modelo de sala de aula com 20 ou 30 alunos para cada professor? É por isso que, como uma empresa de EdTech, acreditamos que precisamos construir ferramentas que permitam a todos os participantes do ecossistema colaborarem para criar um caminho personalizado para cada criança.
Porvir – Poderia me dar exemplos de projetos que são desenvolvidos pelos alunos em sala de aula?
Mohannad El-Khairy – Parte da beleza do modelo é que as famílias têm acesso à (plataforma digital) Playlist não apenas para ver o que as crianças estão aprendendo, mas como estão aprendendo. Isso envolve os pais em torno da educação. É também por meio dessa plataforma que as crianças acessam a lição de casa, os pontos mais importantes a serem estudados e se comunicam com o professor. Eu levei o time de administradores para uma viagem de negócios a Dubai (Emirados Árabes Unidos) com o nosso fundador Max Ventila, que é pai de uma menina de cinco anos que frequenta a AltSchool. Ela está aprendendendo sobre frações e proporções e um dos projetos recomendados para ela na plataforma, que sabia que o pai estava em Dubai, foi criar uma réplica em blocos do Burj Kalifa, o maior arranha-céu do mundo. Existe um contexto personalizado ali. Isso é legal, mas o que eu acho mais impactante foi quando estávamos almoçando bem em frente à torre, ele começou uma videoconferência pelo FaceTime (aplicativo do iPhone) para mostrar a ela como o edifício era de verdade e tudo o que ela aprendeu começou a fazer sentido. Ele cruzou meio mundo, mas ainda assim contribuiu para o processo de aprendizado da filha naquele dia. Um outro exemplo que posso dar são as habilidades que a criança desenvolve em sala de aula. Você pode monitorar demonstrações de resiliência, garra e curiosidade, com o professores gravando tudo o que observam.
Porvir – Qual a reação dos professores quando se deparam com uma escola em que a tecnologia está em todos os lados?
Mohannad El-Khairy – Eles adoram. Especialmente quando o professor é 100% a favor da personalização, mas está frustrado porque não tem as ferramentas necessárias ou tem que lidar com muitos aplicativos e um grande volume de papel. Como você tira um relatório de tudo isso? Você pode considerar a AltSchool um sistema que permite aos professores oferecerem tarefas e também registrá-las. Tudo o que acontece em aula está digitalizado e isso permite ao professor entender o contexto da aprendizagem. Quando uma criança passa de um ano para o outro, o próximo professor não vê apenas uma lista de notas ou o boletim, mas por que o aluno ficou com C em uma disciplina ou A em outra. É completamente contextualizado.
Porvir – Além de construir sua própria tecnologia, a AltSchool também planeja vender a plataforma para outras escolas. Como isso deve acontecer?
Mohannad El-Khairy – Nós nos vemos como o operador do sistema e temos uma pequena equipe de conteúdo que reúne informações de outras plataformas como a Khan Academy. A tecnologia tende a fragmentar indústrias e é por isso que ela é disruptiva. Se você olhar como os serviços financeiros são hoje e como eram no passado, vai perceber que existe quase um aplicativo para cada. Os produtos de EdTech disponíveis no mercado ajudaram a fragmentar a educação e isso é parte da justificativa para a falta de inovação nas escolas. A AltSchool se destaca por ter criado uma plataforma para que o conteúdo se beneficie mutuamente por conta da conexão em rede com outras escolas. É isso que faz a tecnologia brilhar. Com ela, é possível tirar conclusões muito interessantes sobre como um determinado grupo de crianças, com certos atributos, pode ter uma trilha ideal de aprendizagem em relação a outro. É incrível porque as pessoas tendem a pensar que ensino personalizado deve ter seu currículo personalizado, sempre em uma relação um para um, mas não funciona assim. Você pode agrupar crianças com interesses semelhantes. E qual o fim disso? Pense no sistema que funciona em dispositivos móveis: você tem Apple iOS e Google Android. Nossos telefones são os pertences mais personalizados que temos e funcionam por um único sistema operacional. Essa analogia explica parte da visão de longo prazo termos. Um sistema operacional que proporciona às escolas acesso a ferramentas para entender suas crianças e permitir que desenvolvam o protagonismo para escolher seu próprio currículo. Se Billy gosta de beisebol e tem dificuldades com estatística, então o sistema pode sugerir um projeto baseado nisso. É o que a Playlist pode fazer. Hoje é o professor que ajuda nessa tarefa, mas pode-se também vir a se usar inteligência artificial e o sistema fazer isso sozinho. O trabalho do professor se torna mais estratégico em vez de apenas exercer controle. Isso ajudaria no desenvolvimento da criatividade, traria melhores resultados acadêmicos e adaptaria os alunos a um mundo em constante mudança.










