Antirracismo no currículo: baixe o livro que ensina a superar datas isoladas
Com download gratuito, obra reúne três anos de pesquisa e parceria entre universidades e escolas públicas sobre práticas pedagógicas voltadas à educação antirracista
por Ana Luísa D'Maschio
6 de janeiro de 2026
Você já ouviu falar em “pedagogia do evento”? O termo critica a prática de abordar datas comemorativas do calendário escolar (como o Dia da Consciência Negra ou o Dia dos Povos Indígenas) de maneira pontual, sem integração ao currículo.
Em contraponto, o livro “Artes Urbanas, Culturas Afro-Diaspóricas e Educação”, da Alexa Cultural em parceria com a Editora da Universidade Federal do Amazonas, propõe uma pedagogia da presença e da continuidade, integrando esses saberes ao cotidiano da escola e às experiências reais dos estudantes.Disponível para download gratuito, a obra é resultado de uma pesquisa realizada entre 2021 e 2023 que buscou responder a uma pergunta central: como transformar as leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira, africana e indígena, em práticas pedagógicas vivas, para além das efemérides?
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Do papel para a prática
O livro é organizado por Mônica do Amaral, professora da USP (Universidade de São Paulo), ao lado dos pesquisadores Renato Noguera e Maria da Glória Calado. A investigação reuniu equipes da USP, da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), com financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e colaboração de pesquisadores da UFPA (Universidade Federal do Pará).
A aposta central está nas docências compartilhadas como estratégia para reinventar o currículo e fortalecer uma educação antirracista conectada às realidades, culturas e experiências dos estudantes.
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O que são docências compartilhadas?
A estratégia central do projeto é a docência compartilhada. Isso significa que as aulas não são dadas apenas pelo professor sozinho, mas em um esforço coletivo que envolve professores da escola pública, pesquisadores da universidade e artistas populares (como mestres de capoeira, rappers e contadores de histórias).
Diferentemente do modelo tradicional, as aulas são conduzidas a partir da articulação entre diferentes áreas do conhecimento acadêmico e saberes das matrizes culturais africanas, afro-brasileiras e indígenas.
Organizada em cinco partes, a coletânea reúne reflexões teóricas e relatos de práticas pedagógicas que vão da discussão sobre o epistemicídio (apagamento de saberes negros e indígenas) à apresentação de propostas didáticas concretas desenvolvidas no dia a dia das escolas.
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De acordo com os organizadores, o objetivo é contribuir para a implementação efetiva e criativa da legislação, deslocando o currículo de uma perspectiva eurocêntrica e promovendo práticas educativas emancipatórias.
“A obra nasce de encruzilhadas, de encontros entre escolas públicas e universidades, entre periferias e centros, entre a oralidade dos becos e os silêncios das salas de aula. Elas demonstraram a importância da escuta e de um olhar atento à diversidade étnica e cultural dos estudantes, o que implica abrir-se ao que dizem os corpos, as vozes e os saberes que historicamente foram silenciados pelo projeto colonial de mundo. Um gesto ancestral que se atualiza no presente como parte fundamental de um projeto de renovação da educação pública deste país”, escrevem no prefácio do livro.
Exemplos em escolas públicas
A pesquisa acompanhou projetos reais que mostram como essa educação funciona na prática:
- Em São Paulo (capital e região metropolitana):
Na EMEF Professora Célia Regina Lekevicius Consolin, na Vila Maria, as docências compartilhadas articularam hip-hop, rap e filosofia iorubá ao ensino de geografia e história, com destaque para o trabalho com corporeidade e para o uso de letras de MC Soffia e Karol Conká em debates sobre história da África e empoderamento feminino.
Na EMEF Presidente Campos Salles, em Heliópolis, integradas ao projeto “Bairro Educador”, as ações envolveram turmas da EJA (Educação de Jovens e Adultos) e articularam letramento, capoeira e matemática, utilizando o jogo Mancala e conceitos da geometria africana.
Ainda na capital paulista, a EMEF Levy de Azevedo Sodré, no Capão Redondo, desenvolveu projetos como o “Hip-Hop Lab na Levy” e debates sobre feminismo hip-hop, mesclando linguagens como dança urbana (breaking), rimas e literatura.
Já a Escola Estadual Professor Mário Manoel Dantas de Aquino, em Ferraz de Vasconcelos, realizou batalhas de rima, diálogos inter-religiosos para enfrentar a intolerância religiosa e oficinas de química com extração de pigmentos naturais a partir de elementos ligados à capoeira.
Na EMEF Irineu Marinho, na Vila Prudente, a capoeira foi trabalhada como eixo pedagógico para alfabetização e letramento racial nos anos iniciais do ensino fundamental.
- No Rio de Janeiro (Duque de Caxias):
Na Creche Escola Municipal Dr. Álvaro Alberto foi realizado o projeto “Escutas interseccionadas desde as infâncias”. As atividades envolveram grafite, fotografia, capoeira e contação de histórias, incluindo a ressignificação do personagem Saci a partir de uma perspectiva ancestral ligada a Exu.
- Na Paraíba (João Pessoa):
A experiência foi desenvolvida na EEEM Doutor Otávio Novais por meio do projeto “Cursos de rio – formação e práticas no chão da escola”. As ações incluíram atividades sobre saberes quilombolas e ribeirinhos do Rio Gramame, círculos de leitura de literatura indígena na EJA e propostas que articularam matemática, símbolos Adinkra e poesia de Conceição Evaristo.
Por que isso é importante?
A obra também dialoga com cerca de 20 anos de pesquisas anteriores do grupo, realizadas em escolas públicas e organizações sociais, como a EMEF José de Alcântara Machado Filho e a ONG Casa do Zezinho, em São Paulo.
“Este livro é um manifesto que convoca a todos os educadores, gestores, pesquisadores e, sobretudo, as comunidades escolares, a se unirem em uma luta conjunta contra o racismo estrutural e o apagamento histórico. Ele é um convite para que a escola se transforme em um espaço vivo, onde a diversidade não seja apenas tolerada, mas celebrada como fonte inesgotável de força e inspiração”, registram os autores.





