Brincar é coisa séria. Presente em todas as infâncias, o ato de brincar articula o desenvolvimento humano e a cultura. Em diferentes sociedades, atividades como cantar, brincar de roda ou jogar peteca representam formas de interação lúdica que atravessam gerações.
Entre as comunidades indígenas brasileiras, como o povo Yudja, da aldeia Tuba Tuba, no Parque Indígena do Xingu (MT), o brincar vai além da diversão: está diretamente relacionado à transmissão de saberes. Pela fala e pelo convívio, as crianças aprendem a ler o mundo e a fortalecer a vida coletiva.
O documentário Waapa (2017), dirigido por David Reeks, Paula Mendonça e Renata Meirelles, evidencia como, entre os Yudja, as brincadeiras articulam aprendizado, cultura e convivência, demonstrando que o brincar é, essencialmente, um espaço de socialização e construção de conhecimentos.
O filme está disponível gratuitamente no YouTube da produtora de cinema e TV Maria Farinha Filmes.
Para aplicar em sala de aula
Inspirado pelo documentário, o Porvir fez uma seleção de 8 brincadeiras, retiradas de materiais de referência e bons apoios pedagógicos: o Manual Bilíngue de Jogos e Brincadeiras Indígenas, de Patricia Rossi dos Reis, da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), o e-book Do museu à escola: tecendo diálogos – brincadeiras indígenas, da equipe do MCI (Museu das Culturas Indígenas), e o site Parabolé. O Museu também disponibiliza, gratuitamente, uma série de materiais de apoio e formações para educadores.
As orientações a seguir, baseadas nesses materiais, auxiliam o professor a levar os jogos indígenas de maneira contextualizada:
- Evite o singular: não utilize termos genéricos como “o indígena”. O Censo Demográfico 2022 registrou 391 etnias, povos ou grupos indígenas residentes no Brasil, e 295 línguas indígenas. Sempre que possível, pesquise sobre a etnia que também pratica a brincadeira.
- Pesquise: antes de iniciar a atividade, apresente o povo de origem e sua localização geográfica. Isso ajuda a combater estereótipos e a situar o conhecimento no território. Neste link, você encontra uma série de instituições, bibliotecas e estudos ligados à educação indígena.
- Vá além da técnica: o foco não deve ser apenas aprender as regras do jogo. É fundamental discutir o valor da coletividade, a cooperação (em vez da competição) e a relação intrínseca com os elementos da natureza.
- Promova conexões: utilize essas práticas como ponto de partida para que os alunos investiguem as referências culturais dos povos originários de seus próprios estados. O Laboratório de Ensino e Material Didático da USP (Universidade de São Paulo) reúne uma série de livros indígenas didáticos e gratuitos para download.
Confira, a seguir, 7 brincadeiras indígenas e suas curiosidades:
Barbante | Cama de gato
A brincadeira conhecida como “cama de gato” é comum a diversos povos da América Latina e de outras partes do mundo e revela a riqueza das tradições indígenas.
Conhecida por diferentes nomes, ela assume significados próprios em cada contexto. Na língua guarani mbya, é chamada de nhevanga jaxy tata; entre os guarani ñandeva, de jacy tata, expressão que pode ser traduzida como “jogo da estrela”; já na língua do povo Noke Kuin (também conhecido como Katukina Pano), recebe o nome de kãchi.
Esses povos estão distribuídos em diferentes regiões do Brasil. Os guarani mbya e ñandeva vivem principalmente nas regiões Sul e Sudeste, em estados como Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Já os Noke Kuin habitam a região Norte, especialmente o estado do Acre, na Amazônia brasileira.
A brincadeira é realizada, em geral, por duas pessoas. Um dos participantes forma uma figura com um barbante entre os dedos, enquanto o outro retira o fio e constrói uma nova forma, sem desfazer completamente a anterior. O processo segue em sequência, exigindo atenção, memória, coordenação motora e habilidade manual.
O kãchi, praticado pelo povo Noke Kuin, já foi tema de uma exposição no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná.
Jogo da onça
Conhecido como adugo pelo povo Boe (Bororo), na língua boe wadaro, o jogo da onça reúne valores ligados à convivência, à observação da natureza e às relações entre os seres. A prática também aparece, com variações, entre outros povos indígenas, como os Guarani e os Yine (Manchineri).
No Brasil, esses povos estão distribuídos por diferentes regiões. Os Boe (Bororo) vivem principalmente no Centro-Oeste, no estado de Mato Grosso. Já os Guarani estão presentes no Sul e Sudeste, enquanto os Yine habitam a região Norte, especialmente o Acre.
A dinâmica do jogo envolve dois participantes e estratégias distintas. De um lado, um jogador controla a onça, representada por uma peça; do outro, o adversário conduz 14 cachorros. O objetivo da onça é capturar os cachorros ao saltar sobre eles, de forma semelhante ao jogo de damas. Já os cachorros precisam atuar de forma coletiva para cercar a onça e bloquear seus movimentos.
O jogo se destaca pela simplicidade: pode ser feito com materiais acessíveis, como papel, lápis, tampinhas ou pedras — ou até mesmo desenhado no chão, com os próprios participantes representando as peças.
Curiosidade: O jogo da onça faz parte da exposição “MYMBA’I, Pedindo licença aos espíritos, dialogando com a Mata Atlântica”, do Museu das Culturas Indígenas. Clique aqui e saiba como visitar.
Cabo de força
Entre os Tikmu’ún (conhecidos como Maxakali), que vivem principalmente no estado de Minas Gerais, a brincadeira recebe o nome de yãy tat ax putix. Assim como em outras culturas, a dinâmica envolve duas equipes que seguram as extremidades de uma corda e tentam puxar o grupo adversário para o seu lado.
Para organizar o jogo, marca-se o limite de cada campo no chão, que pode ser feito com um risco na terra, giz ou até um pedaço de tijolo. Vence a equipe que conseguir arrastar a outra para o seu território.
Além de trabalhar força e resistência, a brincadeira promove cooperação, equilíbrio e participação coletiva, pois pode envolver pessoas de diferentes idades e habilidades.
Entre o povo Huni Kuin, no Acre, crianças e adultos participam juntos dessas atividades.
Jogo de cabeça
O jogo ãjãí, nome dado na língua do povo Mỹky a uma brincadeira tradicional, é praticado pelos povos Mỹky e Manoki, conhecidos como Irantxe, que vivem no estado do Mato Grosso.
A principal característica do jogo é o uso exclusivo da cabeça para tocar a bola. Feita com a seiva de uma árvore, semelhante a uma cola branca, a bola é aquecida, moldada em forma de disco e depois inflada, ganhando leveza e elasticidade.
A partida acontece em um campo dividido ao meio, com dois times posicionados em lados opostos. O objetivo é fazer a bola passar três vezes para o campo adversário sem que ela seja defendida. Não há número fixo de jogadores nem tempo determinado de duração, e a cada ponto marcado o time recebe um prêmio.
Mais do que competição, o ãjãí envolve saberes tradicionais e o trabalho coletivo da comunidade, desde a produção da bola até a organização do jogo.
A prática foi registrada no filme “Ãjãi: o jogo de cabeça dos Myky e Manoki” (2019), do coletivo de cinema Ijã Mytyli, que também mostra aspectos do cotidiano desses povos, como a caça, o preparo de alimentos e o trabalho das mulheres.
Flaici
O Flaici é uma brincadeira de mãos praticada por crianças do povo Kaingang, nas terras indígenas do Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, no Paraná.
Inspirado nos tradicionais jogos de mãos, o Flaici é uma adaptação do “Tricilomelo”, muito popular entre as crianças. A brincadeira consiste em realizar gestos rítmicos com as mãos, geralmente acompanhados por músicas ou cantos, criando conexão e interação entre os participantes.
Mais do que diversão, o jogo fortalece os laços de amizade e a integração social dentro da comunidade. Ao brincar, as crianças também se aproximam de sua cultura, valorizando a tradição e a identidade Kaingang.
Brincadeira do sapo (Taroké)
A brincadeira do sapo é uma atividade coletiva que estimula a imaginação e a interação entre os participantes.
Tradicional entre as crianças do povo Tukano, da região do Alto Rio Negro, na Amazônia, o jogo é conhecido como Taroké e faz parte do conjunto de práticas lúdicas transmitidas entre gerações.
Sem a necessidade de materiais, a brincadeira acontece de forma livre, com pelo menos dois participantes. Um deles assume o papel de comandante e conduz o jogo por meio de comandos que todos devem imitar.
Os jogadores pulam como sapos e seguem instruções como pular com uma perna só, tampar um dos olhos, cair ou rolar no chão. A cada comando, novos desafios surgem, exigindo atenção e agilidade do grupo.
Cata-vento de folha
O cata-vento de folha é uma brincadeira tradicional também comum entre os povos indígenas da região do Rio Negro, no Amazonas.
Feito com materiais simples, como folhas grandes de buriti e firmes e pequenos gravetos, o brinquedo é construído pelas próprias crianças, que exploram o ambiente ao seu redor para encontrar os elementos necessários.
A dinâmica consiste em fazer o cata-vento girar com a força do vento ou com o movimento das mãos. Para isso, a folha é cortada e fixada em um ponto central com um graveto, formando um objeto leve e funcional.

