A Copa do Mundo de futebol masculino de 2026 tem seu capítulo final no próximo domingo (19). Embora o torneio coincida com as férias escolares na maior parte do Brasil, são infindáveis os debates envolvendo temas que vão além do que acontece dentro das quatro linhas e que podem aparecer na sala de aula.
As façanhas realizadas pelo goleiro Vozinha colocaram Cabo Verde entre os assuntos mais comentados deste mês. Perguntas como: qual a história do país?, quantas Copas ele já jogou? ou como ele se relaciona com o Brasil? surgiam à medida em que ele se destacava como um dos grandes personagens desta edição da Copa do Mundo. O goleiro alcançou uma fama estratosférica e hoje acumula mais de 28 milhões de seguidores.
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Colonialismo e a torcida pelos “azarões”
Mas o interesse dos internautas não estava apenas em Vozinha, e estendeu-se ao seu país de origem. O arquipélago, descoberto em 1460 por navegadores italianos e portugueses, foi uma colônia marcada sobretudo pelo tráfego escravista e só conquistou a independência em 1975.
Para além do álbum de figurinhas, o futebol, como esporte mais famoso do mundo, acaba demonstrando também essa capacidade de atrair a curiosidade das pessoas para temas que não necessariamente são pênaltis, tiros de meta, faltas ou cartões amarelos. O colonialismo, por exemplo, foi um dos muitos assuntos puxados pela Copa do Mundo, e fez com que torcedores brasileiros optassem pela torcida por países que são ex-colônias ou simplesmente “azarões”.
Rafael Silva, historiador e colunista do Porvir, destaca que essa identificação com as seleções latino-americanas decorre de passados coloniais semelhantes. O educador ressalta que, apesar de muito diferentes na atualidade, Brasil e Estados Unidos compartilharam origens comuns. “Se observarmos as questões do colonialismo, há processos relativamente próximos, separados por cerca de 50 anos, com independências em períodos semelhantes, presença europeia e utilização de mão de obra escravizada. Existe uma certa proximidade histórica”, lembra.

Apesar desse contexto histórico, as manifestações de apoio aos Estados Unidos nas redes sociais não foram tão significativas quando comparadas ao que aconteceu com Cabo Verde ou Paraguai, por exemplo.
“Os Estados Unidos se tornaram uma grande potência, e os brasileiros não se identificam com isso; eu diria até que, muitas vezes, torcem contra. Em algum nível, os brasileiros se entendem dentro da lógica de um país que foi colonizado e acabam se identificando com outros países que passaram por esse processo. Mesmo em relação a países que não sofreram o colonialismo da Idade Moderna nos mesmos moldes, acredito que muitos brasileiros tendem a se identificar com seleções consideradas menores”, ressalta o educador.
Entre os vizinhos, a exceção é a Argentina, por causa não apenas da rivalidade histórica no futebol, mas também por questões sociais, políticas e culturais. “Existe o estereótipo do argentino como alguém que se vê como a Europa da América do Sul, além dos casos de racismo que ganharam bastante destaque nos últimos anos”, afirma.
Debates que ultrapassam as quatro linhas
Desde 2018, os jornalistas Aurélio Araújo e Carlos Massari se debruçam a olhar com atenção para os assuntos que surgem a partir do futebol, mas que são maiores que o campo. Criadores do perfil “Copa Além da Copa”, com presença nas diferentes redes sociais, eles dedicam sua produção de conteúdo a discutir assuntos como história, política, cultura, entre outros, todos com o propósito de ir “além da Copa”.
Em um torneio ampliado, agora com 48 seleções, cresce também a quantidade de temas suscitados. Desde questões culturais à imigração, passando por identidade nacional, língua, racismo e representatividade, não apenas professores de história ou educação física encontram na competição assunto para suas aulas.
Aurélio lembra que mesmo em outras Copas, as questões das diásporas e dos processos migratórios estiveram sempre muito presentes.
A França é um exemplo mais conhecido, porque reúne filhos e netos de imigrantes vindos de antigas colônias francesas. O Marrocos também chama atenção por ter uma seleção formada, em grande parte, por jogadores nascidos fora do país, mas ligados culturalmente a ele. Essas tensões envolvendo migração, dominação ou colonialismo surgem enquanto se assiste a um jogo de futebol, mas alcança outros espaços de discussão.
“Os filhos de imigrantes quando vencem, por exemplo, costumam ser plenamente reconhecidos como franceses; quando perdem, muitas vezes passam a ser tratados como estrangeiros. Esse tipo de situação permite discutir pertencimento, preconceito e identidade de uma maneira muito concreta”, exemplifica.
O atacante Belga Romelu Lukaku, em artigo publicado no site The Players Tribune, relatou essa dualidade. Segundo ele, quando tinha apenas 11 anos e começava a trajetória no futebol, foi questionado durante o jogo sobre sua nacionalidade.
“Eu pensei: ‘De onde eu vim? O quê? Eu nasci na Antuérpia. Eu vim da Bélgica”, escreveu. E acrescentou: “Quando as coisas corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga. Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses”.
Do total de participantes desta Copa do Mundo, apenas oito tiveram em seus times apenas atletas nascidos em seus territórios: Brasil, África do Sul, Tchéquia, Colômbia, Suécia, Arábia Saudita, Áustria e Panamá.
Alguns casos que são reflexos de migração, dupla nacionalidade e naturalização chamam também a atenção. Curaçau, por exemplo, lidera esse ranking: 25 dos 26 convocados não nasceram lá, mas sim na Holanda, de quem o país foi colônia por séculos.
O que significa pertencer a uma nação?
“Uma das perguntas mais interessantes é justamente o que significa pertencer a uma nacionalidade. O que faz alguém ser brasileiro, francês ou espanhol? A nacionalidade depende apenas da fronteira de um país? É possível alguém pertencer a dois lugares ao mesmo tempo? Essas identidades são construções históricas e culturais, não algo natural”, aponta Aurélio.
Cabo Verde guarda uma outra similaridade importante, que pode servir de mote para debater questões profundas sobre colonialismo. Rafael Silva afirma que quando os colonizadores lá chegaram, o arquipélago era desabitado e os portugueses levaram populações africanas para colonizar as ilhas. O território tornou-se um importante entreposto comercial entre a África e o Atlântico. “Em tese, não existiam povos nativos em Cabo Verde, então toda a população é afro-diaspórica”.
Futebol como espelho de preconceitos
Nem todos os temas que aparecem em grandes eventos são leves ou tranquilos. Ao mesmo tempo que a Copa iluminou a valorização cultural e identitária de muitas nacionalidades, também evidenciou violências concretas, com específico detalhe a ataques racistas.
Quando descontentes, muitos torcedores expressaram seu desapontamento lançando mão de palavras racistas e ofensas raciais. Para Felipe Vinícius de Paula Abrantes, professor de Educação Física no IFMG (Instituto Federal de Minas Gerais) campus de Ribeirão das Neves e integrante do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a origem estrangeira, em diversas ocasiões, virou instrumento de ataque a jogadores quando eles não supriram determinada expectativa.
“Existe uma lógica segundo a qual a convivência é aceita desde que as pessoas negras ocupem um determinado lugar ou cumpram um papel social específico. Quando fogem dessa expectativa, o racismo é rapidamente acionado como forma de desqualificação”, reflete.
Sobre ataques racistas vindos das torcidas, o educador acrescenta que “essas manifestações violentas acabam ficando mais evidentes no contexto do futebol porque ainda persiste a crença de que o estádio é um espaço permissivo para esse tipo de comportamento”.
As 48 seleções que estiveram no torneio disputado no Canadá, nos Estados Unidos e no México compõem um mosaico, tanto em questão de origens, culturas e idiomas, quanto em estilos de futebol. Felipe, contudo, avalia que é oportuno refletir a respeito das centralização de poder no futebol.

“A questão é estrutural. O simples aumento do número de vagas não resolve a disparidade nem a desigualdade existente no futebol mundial. O problema passa por recursos, organização, políticas de fomento, investimento nas categorias de base, tanto nos clubes quanto nas seleções, além da existência de calendários esportivos que contemplem todas essas categorias”, destaca.
O pesquisador, que é um dos autores do livro “O ensino do futebol: Para além da bola rolando”, também afirma a importância de observar aspectos econômicos. “As federações mais ricas, ligadas a países com maior poder econômico e ligas mais estruturadas, continuam concentrando poder no futebol”.
E quando se trata de força, a Copa do Mundo é um prato cheio para debater geopolítica. Luís Renato Vedovato, professor de Direito Internacional Público e docente da FCA (Faculdade de Ciências Aplicadas) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), lembra que atualmente há um grande interesse entre os países em sediar a competição.
Recentemente a Fifa (Federação Internacional de Futebol Associado) divulgou que a Copa do Mundo de 2034 será sediada na Arábia Saudita. O vizinho Catar recebeu os jogos em 2022. Luís cita ambos os exemplos, além dos esforços dos Estados Unidos para melhorar a imagem do país em 2026, como formas de mostrar força e poder e influência. “Em nenhuma outra situação um presidente dos Estados Unidos tentou interferir em um resultado, como ocorreu naquele episódio envolvendo o cartão vermelho aplicado a um jogador”, comenta o educador em referência a Folarin Balogun, atacante da seleção dos Estados Unidos, cuja suspensão após a expulsão diante da Bósnia foi derrubada pela Fifa, permitindo que ele atue normalmente.
Essa tentativa de limpar a imagem internacional de um país ou de um líder político é também conhecida como “sportswashing”.
Esperança e convivência: lições de casa da Copa
Publicamos recentemente, aqui no Porvir, uma matéria destacando como fracassos e perdas dentro do campo podem ensinar e fortalecer habilidades socioemocionais dos alunos.
Mas, quando se trata da identificação com outros países, a vitória deles também pode ser motivo de alegria. “Ver alguém que é, em tese, mais fraco conseguir vencer quem fez tudo de acordo com o que se esperava, é uma surpresa. E essa surpresa é o que nos move”, argumenta Luis.
“Como somos seres com esperança, imaginamos que, apesar de todos os percalços que enfrentamos, quando chegar a nossa oportunidade, vamos vencer. É como se nos faltasse apenas uma oportunidade. Talvez essa situação, especialmente a dos cabo-verdianos, esteja justamente no fato de que eles tiveram essa oportunidade e retratam a possibilidade de qualquer pessoa que também tenha uma oportunidade conseguir se destacar”, ressaltou.
O professor argumenta que a Copa do Mundo também ajuda a entender e valorizar a diversidade, mostrando aos estudantes que, mesmo com diferentes culturas, vestimentas e hábitos alimentares, é possível conviver.
“A Copa do Mundo e essas grandes competições demonstram que os seres humanos ganham muito quando permitem a construção de pontes, e não de muros. Nesse caso específico desta Copa, temos uma situação marcante: a do Irã. Apesar de o país ter tido seu direito internacional violado, ter sido atacado e obrigado a disputar suas partidas em um território diferente daquele em que inicialmente jogaria, ele se propôs a construir pontes. Essa é uma forma de despertar nos estudantes o pensamento sobre quem deseja unir, em vez de dispersar”, destaca.

