Quantas vezes você saiu da sala de aula sem voz ou rouco, de tanto pedir atenção aos alunos? Ou em dias em que sua voz estava mais baixa, passou horas sem intervalo para se hidratar? E quando a alergia ao pó do giz provoca aquela sensação imediata de garganta inflamada?
A voz é o principal instrumento de trabalho do professor, mas fatores como o barulho excessivo, falta de pausas e até a poluição do ar podem comprometê-la seriamente. Em uma sala cheia de adolescentes ou nos corredores agitados de uma escola, o risco de surgirem problemas vocais é ainda maior.
Nas redes sociais do Porvir, uma professora escreveu: “Tenho dois tons de voz em sala de aula: o berrânico ou o gritânico”. Seu comentário, apesar de humorístico, levanta uma reflexão importante: os professores sabem como cuidar da sua saúde vocal?
Fatores como carga horária excessiva, estresse emocional, falar enquanto carrega peso e o tempo de serviço também influenciam o surgimento desses problemas.
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O que diz a academia
Os professores estão em um grupo de risco elevado para distúrbios vocais devido ao uso excessivo da voz. Um estudo internacional publicado na plataforma PubMed com educadores indianos revelou que 57,7% dos docentes já haviam enfrentado distúrbios vocais ao longo da vida, quase o dobro da taxa observada entre os não-professores (28,8%).
Outro levantamento, intitulado “Distúrbio de voz relacionado ao trabalho em professores da educação básica: revisão de escopo”, publicado em 2025 na revista “Distúrbios da Comunicação”, aponta que problemas de saúde vocal relacionados ao trabalho dos professores estão se tornando cada vez mais comuns.
A disfonia (rouquidão, voz áspera ou anasalada), de acordo com o levantamento, afeta entre 18,5% e 97% dos professores, dependendo de fatores como o ambiente de trabalho e a carga vocal exigida. Pesquisadores da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso) também identificaram que 8 a cada 10 educadores apresentam algum distúrbio vocal.
Como aprender a cuidar da voz?
A fonoaudióloga especialista em voz, Fabiana Zambon, ressalta que os professores trabalham em condições de alto risco vocal, com classes grandes e ambientes extremamente ruidosos. Além disso, muitas salas de aula no Brasil não têm preparo acústico, o que aumenta as chances de lesões nas cordas vocais.
“Dificilmente os educadores recebem treinamento sobre como cuidar da voz e sobre comunicação. Eles entram no mercado de trabalho com um alto risco de desenvolver alterações vocais, sem saber como prevenir”, afirma Fabiana, que também é mestre e doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).
Ela é coautora do guia “Bem-estar vocal: uma nova perspectiva de cuidar da voz”, produzido pelo SinproSP em parceria com CEV. O documento responde a questões práticas e objetivas sobre como os professores podem cuidar da sua voz:
- Por que a voz é tão importante para os professores?
- Por que os professores têm tantos problemas vocais?
- Como saber se preciso procurar um especialista?
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Ser um profissional da voz
Não são só os cantores ou locutores que precisam tomar cuidados com a voz. Os educadores também são profissionais da voz. Fabiana destaca, inclusive, que os professores têm muito mais “quilometragem” vocal do que outras pessoas.
Como nem todos associam educadores à categoria de “profissionais da voz”, a percepção sobre como cuidar da voz não é suficiente. E os problemas vocais devem ser vistos como um desafio coletivo.
“É necessário um cuidado individual, mas também uma ação coletiva para melhorar as condições de trabalho e garantir um ambiente que favoreça a saúde vocal dos professores”, sugere.
Corpo e voz conectados
O corpo e a voz estão interligados. Se o corpo estiver tenso, é provável que a voz também saia tensa. O cansaço ou a falta de energia podem se refletir diretamente na qualidade vocal.
“Um corpo mais solto e com maior consciência corporal ajudará na produção vocal. O corpo também tem relação direta com nossa comunicação”, diz Fabiana.
O guia de voz do SinproSP também explora essa conexão entre corpo e voz, abordando questões como:
- A relação entre sono e a voz;
- Como a água pode ajudar a deixar a voz mais limpa;
- Como um problema vocal pode afetar a qualidade de vida do professor.
O ambiente escolar e a voz
Ambientes com muitas pessoas, como as salas de aula, estão frequentemente cheios de barulho. Como fica a voz dos professores nesse contexto?
Alguns educadores conseguem usar microfones para diminuir o volume da voz. No entanto, Fabiana alerta que o uso do microfone nem sempre protege a voz, pois, se o professor já tem o hábito de falar alto e forte, o microfone não quebra esse costume sem um treinamento adequado.
As condições de trabalho, como a acústica das salas, influenciam diretamente na saúde vocal dos docentes. Mesmo com todos os cuidados, os professores continuam em risco devido ao ambiente inadequado.
Oficina de voz no Festival Encontro com o Porvir
Pensando nesta realidade dos educadores brasileiros, o Festival Encontro com o Porvir trará uma oficina prática de cuidados com a voz que será ministrada pela fonoaudióloga Fabiana Zambon. Os participantes da oficina receberão uma versão impressa do guia de cuidados vocais e participarão de uma autoavaliação com a especialista.

