Como reforçar a confiança e vínculo entre professores e alunos diante das incertezas de 2021 - PORVIR
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Coronavírus

Como reforçar a confiança e vínculo entre professores e alunos diante das incertezas de 2021

Professores explicam por que é interessante investir em momentos de escuta dos estudantes para estreitar laços e desenvolver empatia

Parceria com LIV

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 5 de março de 2021

Antes de pular para a parte do texto, um exercício: tente lembrar de um professor do qual você gostava muito na escola ou na faculdade. Pode ser que aprender aquela disciplina nem sempre fosse fácil, mas a discussão era com certeza mais prazerosa, certo? Isso porque uma parte importante do processo de ensino-aprendizagem está ligado às relações humanas, o que inclui os vínculos entre professores e estudantes.

No ano passado, a suspensão das aulas presenciais ainda em março, quando todo mundo estava se adaptando a um novo ano letivo, dificultou que esses dois grupos pudessem se conhecer e estabelecer vínculos. Como fica esse processo em 2021?

📺 Vídeo: psicólogo e consultor Raul Spitz traz orientações para a relação professor-aluno

“O momento que estamos enfrentando hoje tem exigido muito dos educadores, dos estudantes e das famílias. Estamos iniciando um ano letivo com algumas marcas do que foi 2020, entendendo e reforçando protocolos de segurança. Criar e fortalecer vínculos entre educadores e estudantes é um desafio necessário porque é também o caminho possível para que ensino e aprendizagem possam acontecer. Ninguém ensina ou aprende bem quando não se sente visto, acolhido e ouvido”, explica Juliana Hampshire, psicóloga e consultora pedagógica do LIV (Laboratório Inteligência de Vida).

Ninguém ensina ou aprende bem quando não se sente visto, acolhido e ouvido

Estabelecer conexões com o outro relaciona-se ao trabalho com as competências socioemocionais, que, por sua vez, começa com o professor investindo em seu próprio autoconhecimento. Isso vai possibilitar que cada um conheça o que tem de potência e de vulnerabilidades, entendendo onde precisa se desenvolver para, depois, possibilitar o mesmo a seus alunos.

Metodologias, ferramentas e estratégias
Existe uma gama de estratégias para que o professor possa se aproximar dos alunos e permitir a troca de ideias cada vez mais efetiva e produtiva. Esse é o tema principal do e-book “Práticas para Aproximar Professores e Alunos”, produzido pelo LIV.

As iniciativas estão relacionadas a ações que os docentes podem empreender ou a mudanças em sua postura em sala de aula, como o olhar para a turma, que é composta por estudantes individuais, diferentes uns dos outros e com seus tempos, possibilidades e desejos próprios.

Esse conhecimento mais profundo de cada aluno está relacionado à técnica “momento extraclasse” apresentada no e-book. A ideia é que o professor possa, semanal ou quinzenalmente, convidar um pequeno grupo de estudantes para conversas fora do horário da aula com o objetivo de conhecer interesses, opiniões sobre diferentes temas e ouvir atentamente o que têm a dizer, além de também compartilhar algo de sua vida pessoal. A promoção desse vínculo também pode acontecer de maneira mais informal, seja lanchando junto com as crianças e jovens ou até mesmo participando das brincadeiras do intervalo.

O e-book também traz estratégias que podem ser aplicadas no cotidiano da vida na sala de aula, como “valorizar a comunicação não verbal”, isso é, o movimento corporal, o tom de voz e outras atitudes do estudante não relacionadas à fala, e “fazer perguntas abertas”, que possibilitam mais respostas que apenas sim ou não e, com isso, realmente impliquem o aluno na atividade e façam com que ele seja o protagonista daquela investigação. Se muitas vezes o conteúdo expositivo e as atividades tomam muito tempo da aula, é importante reservar um tempo para que os estudantes se expressem e possam construir um raciocínio mais amplo a partir das perguntas elaboradas.

Outra prática que também tem sido adotada por alguns professores sob diferentes nomes e configurações é a “manchete”. Ao final de uma aula ou no encerramento de uma discussão, o professor pode pedir para que os alunos criem uma manchete de jornal resumindo o assunto debatido e sintetizando seus principais pontos.

As brincadeiras nos conectam com uma leveza a um espaço que consideramos seguro emocionalmente

Muitas dessas propostas podem ser adaptadas de acordo com aulas online ou à distância. Para Juliana, uma estratégia que deve ser levada em conta é a brincadeira e uso de ferramentas lúdicas, que não se limitam ao brincar infantil. “As brincadeiras nos conectam com uma leveza a um espaço que consideramos seguro emocionalmente. Quem está brincando está em movimento, o que é sinal de saúde”, explica.

Por isso, quando o professor usa ferramentas para inovar a forma de iniciar uma aula, ou propõe uma brincadeira com objetos de sua própria casa, isso gera mais interação, uma vez que possibilita a descoberta de alguma curiosidade sobre o docente, favorecendo sua conexão com os estudantes.

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Benefícios
Alguns especialistas e estudiosos apontam que esse trabalho consciente e empenhado para criar, estabelecer e fortalecer as relações entre professores e estudantes é um dos caminhos para que crianças e jovens possam trabalhar no desenvolvimento de sua inteligência emocional e, consequentemente, a moldar seu perfil enquanto futuro adulto.

Segundo Marilyn Price-Mitchell, pesquisadora americana e doutora em desenvolvimento humano, é possível que, a partir de seis atitudes – listadas em seu livro “Tomorrow’s Change Makers: Reclaiming the Power of Citizenship for a New Generation” – professores consigam desenvolver mais empatia em seus alunos, o que por sua vez os ajuda a se sentirem mais valorizados e compreendidos.

A ideia é que, se estudantes se sentirem verdadeiramente cuidados e respeitados por seus professores, são maiores as chances de cuidarem e se importarem com outras pessoas. O próprio trabalho do professor também pode ajudar a moldar esse cidadão mais responsável pelo exemplo: a dedicação dos docentes serviu de inspiração para um estudante ouvido no livro de Marilyn Price-Mitchell. (Confira a lista das seis atitudes)

Menina com mochila segurando a mão da mãe dela e indo para a escolaCrédito: Sasiistock/

Como ficam as relações da escola em 2021
Se no início do ano já existia um consenso que não seria possível retomar as aulas presenciais com turmas cheias em 2021, o agravamento do cenário da pandemia no Brasil exige ainda mais cautela.

Rosiane Justino, professora e coordenadora pedagógica de uma escola da rede municipal de Joinville (SC), explica que antes mesmo da pandemia, ela já buscava desenvolver estratégias para praticar a escuta ativa de seus alunos. Para ela, o movimento de ouvi-los possibilita a criação do vínculo e da empatia. “Isso nos ajuda a entender, por exemplo, por que alguns estudantes não fazem a tarefa de casa e quais dificuldades estão enfrentando. Nossos professores também estão sendo orientados a ter esse olhar mais cuidadoso”, comenta.

As vivências presenciais, mesmo em forma de rodízio, ajudam na aproximação entre professores e alunos. Entretanto, Rosiane também defende que é possível promover esse movimento de forma online, mas com desafios adicionais. “Nesses casos, eu diria que demanda o dobro de tempo para construir essas relações, além de mais esforço por parte do professor, já que ele precisa sempre retomar e reforçar o que foi trabalhado.”

O caso de atividades totalmente remotas usado como exemplo por Rosiane é a realidade de José dos Santos, mestrando em linguística e professor de uma escola de Paripiranga, na Bahia. A rede optou por dividir o ano letivo de 2021 em dois: metade destinada a retomar conteúdos de 2020 e metade destinada às atividades próprias de 2021.

A confiança do aluno no professor é essencial para construir uma aprendizagem de qualidade e integral

Apesar do novo modelo, José comenta que as práticas têm dado certo muito por conta de trabalhos previamente desenvolvidos com os estudantes ainda de forma presencial, como a construção de vínculos. “É importante que os docentes conquistem o respeito e não o medo do estudante. A confiança do aluno no professor é, na minha opinião, essencial para construir uma aprendizagem de qualidade e integral, e é a chave para essa construção de vínculos”, explica.

Uma das estratégias para colocar isso em prática é reposicionar o estudante como protagonista do seu processo de aprendizagem, afirma José, o que pode ser feito a partir de metodologias diversas, como, por exemplo, reservando espaços para que os estudantes compartilhem o conhecimento prévio que têm sobre determinado conteúdo.

Além de ter impacto direto na aprendizagem, a relação entre alunos e professores também pode ajudar a aprimorar processos escolares e as próprias atividades propostas. “Nós estamos trabalhando com o envio de sequências didáticas para 15 dias, que foram elaboradas coletivamente pelo corpo docente. Um dia desses perguntei aos alunos o que acharam das propostas, se tinham dúvidas, ao que uma aluna me respondeu que uma das questões estava vaga e sem sentido. Esse episódio foi importante porque nos ajudou a perceber o quanto eles aprenderam, como estão críticos e reflexivos sobre as atividades. Você acha que se não houvesse confiança a aluna iria falar, sabendo que foi uma atividade feita pelos professores?”, reflete José.

Incerteza diante da pandemia
Além de todo o contexto urgente e delicado da pandemia no Brasil, que afeta diretamente a saúde mental e bem-estar de todos, a falta de clareza sobre o futuro das aulas nas escolas impõe mais uma camada de apreensão e ansiedade sobre o corpo docente.

O que eles buscam é sentir-se amparados, acompanhados, querem saber quem está ao lado deles para atravessar essas incertezas

Juliana faz uma analogia com as máscaras de oxigênio em aviões: se a instrução sempre reforça que o adulto deve colocar a sua própria máscara antes de ajudar os filhos, por exemplo, compreende-se que é preciso estar minimamente inteiro para poder cuidar do outro. “Isso vale também para os educadores. Além de encontrar em suas rotinas esse espaço de respiro e cuidado, é muito importante também lembrar que os estudantes não buscam nos adultos respostas práticas quanto às incertezas desse cenário que vivemos. O que eles buscam é sentir-se amparados, acompanhados, querem saber quem está ao lado deles para atravessar essas incertezas.”

Abordar todos os esses cenários de forma franca com crianças e jovens também é uma possibilidade de caminho a ser seguido. Assim, abre-se espaço para que expressem como estão se sentindo. “Nós não confiamos em quem tem todas as respostas, mas em quem nos escuta. Essa confiança, em uma relação em que será garantido um espaço de escuta, funciona como base para todo o processo de aprendizagem. O que se transmite de conteúdo ganha relevância quando as relações estabelecidas em aula são acolhedoras”, aponta a psicóloga.

Para José dos Santos, essa autorreflexão e autocuidado dos professores está relacionada ao processo de autoconhecimento e gestão de sentimentos e emoções, sobretudo considerando que em 2020 e 2021, os níveis de ansiedade entre professores aumentaram muito.

“Por conta de uma sobrecarga muito grande, muitas vezes vamos para sala de aula sem nem perceber que estamos sendo agressivos na maneira de falar. Se o educador não sabe gerir suas emoções, certamente não vai saber controlar sua ansiedade. Uma pontinha de ansiedade todo mundo sente, a questão é quando isso fica alterado. Nesses casos, isso prejudica a saúde mental do professor e a aprendizagem, já que os alunos podem absorver esses sentimentos”, defende.

📺 Vídeo: psicólogo e consultor Raul Spitz traz orientações para a relação professor-aluno

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TAGS

educação integral, engajamento familiar, ensino fundamental, ensino médio, socioemocionais, tecnologia

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