Descobertas do telescópio James Webb dão novo impulso à astronomia na sala de aula - PORVIR
Crédito: Canva Pro

Inovações em Educação

Descobertas do telescópio James Webb dão novo impulso à astronomia na sala de aula

O Porvir conversou com especialistas e estudantes que colocam a mão na massa quando o assunto é astronomia, e mostram que o tema não é tão distante assim da escola

por Ana Luísa D'Maschio ilustração relógio 4 de agosto de 2022

Os mistérios do espaço celeste instigam o homem desde os primeiros povos da antiguidade. A influência do Sol, as explosões estelares e a possibilidade de vida fora da Terra até hoje aguçam a curiosidade e são manchetes do noticiário a cada descoberta da astronomia. E a mais recente é um feito histórico: o supertelescópio James Webb, o maior telescópio espacial já lançado pela ciência, que faz parte de um programa liderado pela NASA (Agência Espacial Norte-Americana), registrou, em meados de julho, as fotografias mais nítidas e profundas feitas do Universo. 

Com investimento estimado em US$ 10 bilhões (R$ 50 bilhões), o James Webb vai “alterar de forma fundamental o nosso entendimento sobre o universo”, segundo a agência espacial norte-americana. “É de se esperar grandes avanços em relação a algumas questões referentes à matéria e energia escura, dois dos principais enigmas que intrigam os cientistas da atualidade”, explica o professor de física Cristian Annunciato, da escola Lourenço Castanho, em São Paulo (SP). 

“A astronomia é uma das ciências mais antigas e, no entanto, as tecnologias espaciais são recentíssimas e revelam o universo com cada vez mais detalhes e precisão. É muito interessante ver como a mais antiga das ciências se beneficia com os avanços da mais nova das ciências”, opina João Batista Garcia Canalle, presidente da OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica)

Mas não é preciso tanto investimento para tentar observar os astros. Para o estudante Djalma Prado da Silva, de 18 anos, e seus colegas da Escola Estadual Professor José Vieira de Moraes, em São Paulo (SP), uma compra de aproximadamente R$ 70 dá conta do recado: com canos de PVC, parafusos, cantoneiras, fitas dupla-face e lentes objetivas (uma de foco maior e outra ocular, de foco melhor, retirada de monóculos de fotografia), eles criaram, em dois meses, o próprio telescópio.

A noite de observação aconteceu na quadra da escola, com a presença de mais de cem estudantes. “Precisamos melhorar muito ainda, mas já tivemos pontos positivos. Já conseguimos ver a lua bem nítida e, entre os próximos objetivos, queremos tentar ver algum planeta. Depende do clima, pois o céu precisa estar limpo, né? Se tiver nublado, você não consegue ver nada claro”, explica Djalma.

Orientados pelo professor Eduardo Santos Carvalho, de química, os alunos inscreveram o projeto na 21ª Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Tecnologia), voltada para jovens educadores da educação básica, na área de STEAM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática). “Foi incrível participar da Febrace. Contamos com uma banca de especialistas que fez muitas perguntas, tivemos nosso momento de falar também e conhecer outros projetos. Mesmo virtual, por causa da pandemia, foi uma grande experiência”, comenta o estudante. 

Para Djalma, o ensino da astronomia deveria ser mais estimulado em todas as escolas, bem como o investimento em atividades de longo prazo. “Deveriam existir mais professores como o Eduardo, que nos incentivava muito e apoiou o projeto desde o começo. Quem sabe não é em uma atividade dessas que o jovem descobre o que vai seguir futuramente?”, reconhece Djalma. “Passaria o dia todo falando sobre astronomia. Ainda não decidi o que cursar na universidade, mas a astronomia está na lista. Adoraria aprender mais sobre a ciência natural que estuda os corpos celestes do universo”, garante. 

Dicas para a sala de aula

No Brasil, a graduação em astronomia é oferecida apenas pela USP (Universidade de São Paulo), UFS (Universidade Federal de Sergipe) e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Cursos livres como o de Astrofotografia Básica, ministrado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo (onde se localizam o planetário e a Escola Municipal de Astrofísica), ou disciplinas de pós-graduação ligadas às faculdades de física são alternativas para quem deseja saber mais sobre estrelas, nebulosas e galáxias.

“A astronomia é algo que desperta o interesse dos estudantes. Eles gostam de falar sobre a origem do universo, de como uma estrela gera energia e qual o tamanho do nosso planeta em relação aos outros astros e estrelas próximas”, explica o professor Cristian Annunciato. 

Aluno de doutorado em ensino de física na USP, Cristian comenta: se engana quem pensa que estudar astronomia na prática precisa apenas de telescópios e de um local com noites de céu estrelado. “É possível, por exemplo, criar modelos tridimensionais do sistema solar ou até mesmo de constelações. Atualmente, há diversos aplicativos (disponíveis em Apple iOS e Android), como o Startracker, Star Walk e Sky View, que facilitam muito a observação de constelações e planetas no céu”, indica.

Levar para a sala de aula o debate sobre como a astronomia está presente nas atividades cotidianas é um caminho indicado por Christian. Seja falar sobre a divisão dos períodos de tempo (dia, mês e ano), criar uma representação em escala de onde estamos no nosso sistema solar, ou, na aula de história, conversar sobre o desenvolvimento das civilizações, como os egípcios. Usar um simulador astronômico, como um stellarium, é ponto de partida para debater a relação entre astronomia e astrologia, “calculando” os verdadeiros signos dos alunos. 

“Outra forma de estimular os alunos é levá-los para algum local com pouca poluição luminosa para que possam contemplar uma noite estrelada. Da mesma forma que o céu noturno despertou o interesse dos nossos antepassados, os alunos se maravilham ao ver a imensa quantidade de astros e estrelas visíveis no céu noturno”, comenta o professor, que também sugere filmes como “Apollo 13” e “Estrelas além do tempo” para uma imersão no tema da exploração espacial.

Além das estrelas

Com inscrições voltadas a alunos de escolas públicas e privadas, a OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia) registrou, nesta edição de 2022, 1.181 milhão de alunos participantes, com mais de 2 milhões de estudantes inscritos – recorde histórico do projeto, iniciado em 1998. Em paralelo à OBA, acontece a MOBFOG (Mostra Brasileira de Foguetes), que comemorou 16 anos de existência e, neste ano, atingiu 154 mil participantes. 

Enquanto a mostra promove demonstrações práticas, com construção de foguetes pelos alunos, as provas da OBA contam com quatro níveis de dificuldade e longa duração: duas horas para o nível fundamental e três horas para o nível médio. O recém-lançado aplicativo “OBA Simulado” (disponível para o sistema Android e iOS) permite que os interessados refaçam os testes das edições anteriores. 

Para muitos estudantes, há uma certa magia na profissão, no sentido de investigar o passado e registrar a história. “Sempre que olhamos o universo vemos o passado, porque a luz demora para chegar até nós: quanto mais distante está um objeto, mais no passado estamos vendo aquele objeto. Estamos vendo agora como ele era a milhões ou bilhões de anos”, explica João Canalle.

Mas a astronomia não se restringe a estudar esses objetos distantes, reforça o especialista. “Podemos estudar planetas que estão logo aqui, bem próximos da gente, seu clima, sua tectônica. Podemos também estudar as estrelas – as que estão mais próximas são mais facilmente estudáveis –, nuvens interestelares que estão aqui na nossa galáxia, nas proximidades do sol, são ainda mais facilmente observadas”, aponta João. “Há ainda a cosmologia, que se dedica a estudar as aglomerações de galáxias. E o pessoal de galáxias propriamente dito, que tenta entender como elas se agrupam, se deformam, evoluem e como se formam.” 

De acordo com João, a astronomia tem muitas subáreas e abrange todo o universo acima da atmosfera, e muitas novidades estão por vir.  “Com o telescópio James Webb, vamos, com certeza, estudar o universo com muito mais detalhe, assim como o Hubble nos permitiu grandes avanços.”

A própria história da NASA também desperta o interesse pelo assunto. “Saber que um cientista que ajudou a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial, a desenvolver os temíveis mísseis V-2, foi o mesmo que, anos depois, ajudou a levar o ser humano à Lua, parece um roteiro de filme”, comenta Cristian Annunciato.

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Estímulo e aprendizado

A paixão da estudante Geovana Sousa Ramos começou cedo, ainda na infância, quando passava as noites de olho no céu de Manaus, sua terra natal, ou folheando os livros didáticos que traziam ilustrações e informações sobre os planetas. “Aquilo me fascinava e me fazia pensar no quanto somos ‘insignificantes’ no mundo’”, relembra. Assim que teve contato com um curso de astronomia oferecido pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), no 2º ano do ensino médio da escola estadual Áurea Pinheiro Braga, decidiu que estudar os astros seria sua profissão.

“Além do curso da UFAM, que contava com treinamentos muito interessantes, digo que o que me inspirou, ainda no ensino médio, foi assistir os conteúdos e a produção científica do pessoal da graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como o Observatório do Valongo (laboratório de pesquisa e extensão em astronomia) também na UFRJ. Sonhava em trabalhar no Observatório e hoje estou ao lado deles”, conta.

Envolvida nas iniciativas de divulgação científica e em cursos voltados para todas as faixas etárias oferecidos pelo Observatório, Geovana também participa do podcast “Minuto da Astronomia”. Clique para ouvir um episódio:

Hoje aluna de física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Geovana participou, em 2021, do projeto Caça Asteroides. A iniciativa, resultado de uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e o programa International Astronomical Search Collaboration (IASC), ligado à NASA, é voltada à popularização da ciência entre os jovens. Ela detectou 46 novos asteroides e recebeu uma certificação da agência norte-americana pelo achado, como conta em seu canal no YouTube:

Geovana acredita que a escola deve estimular o interesse das crianças pela ciência e pela astronomia, valorizando a curiosidade e as respostas dos meninos e das meninas quando perguntam por que o céu é azul ou por que o mar é salgado. “Fazer a criança refletir é, para mim, a grande chave para estimulá-las nessas áreas.” 

Focada em abrir espaço para meninas e mulheres na ciência, Geovana sonha em trazer o Prêmio Nobel para o Brasil. Para ela, ganhar o mais prestigiado entre os reconhecimentos científicos seria uma maneira de mostrar ao mundo os méritos da ciência brasileira, mesmo tão pouco valorizada internamente. “Esse é meu objetivo maior na vida”, garante.

Para saber mais


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aprendizagem baseada em projetos, ciências, tecnologia

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