Educação midiática ganha mapa interativo com iniciativas de todo o Brasil
Com mais de 200 iniciativas desenvolvidas em todo o país, o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, desenvolvido pelo Porvir em parceria com a Secom e a Unesco, fortalece a formação crítica e promove o uso consciente da mídia nas escolas
por Ana Luísa D'Maschio / Vinícius de Oliveira
10 de fevereiro de 2026
Diante de um ambiente informacional complexo, marcado pelo alto volume de conteúdos, pela disseminação de desinformação e por diferentes formas de manipulação, a educação midiática assume papel fundamental na formação de crianças e jovens capazes de acessar, analisar e produzir informações de maneira crítica, ética e responsável. O fortalecimento dessas competências é central para a promoção da cidadania e da democracia.
Nesse contexto, a SECOM/PR (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o Governo do Reino Unido e o Porvir, lançou, nesta terça-feira (10), o Mapa Brasileiro da Educação Midiática. A plataforma organiza e dá visibilidade a 226 iniciativas de educação midiática desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil.
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Participação pública e construção coletiva da iniciativa
O projeto foi desenvolvido a partir de um processo colaborativo iniciado com a Consulta Pública sobre Educação Midiática, realizada entre 2023 e 2024, que recebeu 496 inscrições de escolas, universidades, governos locais e organizações da sociedade civil. Em 2025, a curadoria final foi consolidada com o apoio técnico do Governo do Reino Unido e do Porvir.
“O objetivo é apoiar a construção de estratégias que ampliem o acesso à informação de qualidade, fortaleçam o uso responsável das tecnologias e contribuam para o enfrentamento da desinformação e para o fortalecimento da democracia”, destaca Tatiana Klix, diretora do Porvir.
Na abertura do evento, David Almansa, diretor do Departamento de Direitos na Rede e Educação Midiática da SECOM/PR (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), destacou que a ferramenta não é uma ação isolada, mas parte estratégica de um ecossistema que visa transformar a relação do brasileiro com o ambiente virtual.
Segundo David, o mapa atua como um braço de apoio à implementação dos novos currículos escolares. “O mapa não está solto dentro da nossa estratégia. Ele complementa um conjunto de iniciativas que já acontecem, como a implementação dos currículos de educação digital e midiática na educação básica”, explicou. Ele ressaltou que 2026 é o ano definitivo para que essas diretrizes cheguem às salas de aula e que o mapeamento servirá de referência prática para gestores escolares em todo o país.
O representante da SECOM/PR considera que a alfabetização midiática é a ferramenta mais eficaz para enfrentar problemas estruturais que migraram para o digital. Ele conectou a iniciativa ao debate sobre a proteção de crianças e adolescentes e ao combate às violências no ambiente digital, como o racismo e a misoginia.
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Educação midiática como ferramenta de cidadania digital
Inédito no país, o Mapa Brasileiro da Educação Midiática reúne experiências que promovem o pensamento crítico, a cidadania digital, a análise da mídia, a produção de conteúdo, a checagem de fatos e o letramento digital, oferecendo inspirações e recursos para educadores, gestores públicos, pesquisadores e formuladores de políticas.
O desenvolvimento revelou um cenário de grande riqueza conceitual e capilaridade regional. Segundo a jornalista e consultora em educação midiática Cristiane Parente, a prática no Brasil não é homogênea, mas sim sustentada por quatro raízes teóricas principais: a educomunicação (com sua forte tradição latino-americana), a mídia-educação (historicamente ligada ao audiovisual), a alfabetização midiática e informacional (conceito estruturado pela Unesco) e a educação midiática propriamente dita.
O mapeamento revelou que a educação midiática permeia todas as regiões do país por meio de múltiplas linguagens. Segundo a consultora, o uso de rádio, produções audiovisuais e podcasts tem sido decisivo para combater a desinformação e desconstruir estereótipos, permitindo que a comunicação se molde às realidades locais.
“Nós tivemos também uma força muito grande das universidades e dos projetos de pesquisa e extensão. Isso mostra como a nossa universidade é importante e como devemos valorizar a pesquisa e as universidades brasileiras. As universidades públicas e também as privadas têm a sua importância”, afirmou.
Ela aproveitou o momento para rebater críticas históricas direcionadas ao ambiente acadêmico, reforçando que a produção de conhecimento é a base para uma sociedade mais crítica:
“Precisamos valorizar e acabar com essa história de dizer que em universidade se faz ‘balbúrdia’ ou ‘baderna’. Não. (Ali) se faz pesquisa, se faz extensão e se colocam as pessoas para pensar, para refletir e para acabar com a desinformação.”
Panorama nacional das iniciativas mapeadas
Tatiana, do Porvir, destacou a diversidade de projetos. “As iniciativas mapeadas envolvem universidades, institutos federais, escolas, governos locais e organizações da sociedade civil e contemplam múltiplos formatos, como formações de professores, oficinas, pesquisas, metodologias pedagógicas, cineclubes, produtos midiáticos e materiais didáticos”, explica. A plataforma permite buscas por região, tipo de instituição, formato de aplicação e abordagem metodológica. O mapa está disponível gratuitamente neste link.
As iniciativas reunidas no Mapa Brasileiro da Educação Midiática podem ser exploradas a partir das abordagens metodológicas adotadas, o que ajuda a compreender como a educação midiática se concretiza em diferentes contextos do país. O mapeamento reúne ações que vão da análise crítica da mídia e da checagem de fatos à produção de conteúdos, articulando estratégias que estimulam tanto a leitura crítica da informação quanto o protagonismo e a autoria de crianças, jovens e educadores.
A plataforma também permite navegar pelos projetos segundo o formato de aplicação, evidenciando a diversidade de meios e modelos adotados pelas iniciativas brasileiras. Pesquisas, formações, produções midiáticas e ações educativas em diferentes linguagens compõem o conjunto de experiências mapeadas, revelando a riqueza de soluções criadas em todo o país para o desenvolvimento de competências midiáticas.
Além disso, o levantamento destaca projetos alinhados a temas transversais, como cidadania digital e uso seguro da internet, acesso a bens culturais e divulgação científica, reforçando o papel da educação midiática na promoção de direitos, no enfrentamento da desinformação e na ampliação do acesso ao conhecimento em um ambiente informacional cada vez mais complexo.
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Projetos revelam impactos locais e saberes diversos
Durante sua participação no webinário, Antônia Alves, professora adjunta da UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso) e coordenadora do projeto Educom.Indígena, um dos projetos presentes no mapa, detalhou os desafios metodológicos de trabalhar com a educação digital junto aos povos originários. Ela ressaltou: “Se já é difícil trabalhar com povos indígenas dentro do território de um só povo, imagine em um lugar onde temos a presença, por exemplo, de 42 povos”.
Antônia relatou que o projeto reconheceu o domínio técnico dos estudantes, transformando-os em “lideranças mediadoras de todo esse processo”. Destacou, ainda, que a maior lição foi o exercício da escuta. Ao longo da iniciativa, o tempo acadêmico precisou se adequar à realidade indígena, pois “o nosso tempo é diferente do tempo deles”, reforçando que, nesse contexto, a educação digital acontece de forma coletiva.
Ao dizer que “a comunidade está dentro da escola”, ela mostrou que não há separação entre escola e vida na terra indígena. Enquanto, nos centros urbanos, a escola costuma ser um espaço isolado da família, nessas comunidades o aprendizado é intergeracional.
Fundadora da COAR Notícias, Marta Alencar explicou como a iniciativa piauiense que une checagem de fatos e educação midiática é um verdadeiro exemplo de como a educação midiática pode ser adaptada para contextos de “deserto de notícias”. Criado em 2020, o projeto nasceu sob o impacto do caso de Fabiane Maria de Jesus, que foi cruelmente torturada e perdeu a vida em 2014 após ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças em um boato que circulou no litoral paulista.
Em sua fala durante o webinário, ela reforçou a importância de adaptar a linguagem aos contextos locais. Ao utilizar áudios e expressões regionais, como no manual “Arriégua! Olhe as fake news”, o projeto consegue dialogar com pessoas com pouco ou nenhum letramento, alcançando públicos que, muitas vezes, são ignorados pelo jornalismo tradicional dos grandes centros.
O impacto dessa abordagem é perceptível em relatos que vão desde professores que adotam o material em sala de aula até caminhoneiros que, sensibilizados por áudios de checagem, decidiram buscar a vacinação. Mesmo com recursos limitados, a iniciativa já distribuiu mais de 500 exemplares físicos de seu guia em quatro estados, além de manter uma presença digital, fato que chegou a inspirar campanhas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Confira outros projetos que unem tecnologia, saberes e territórios
– Saúde na Floresta (PA), da Rede Mocoronga de Comunicação Popular, que forma jovens comunicadores ribeirinhos e indígenas articulando saúde, educação e sustentabilidade;
– Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis (SC), que há 24 anos democratiza o acesso à cultura e promove a formação audiovisual de professores e estudantes;
– Vozes Daqui Parelheiros (SP), agência de comunicação que conecta juventudes, saberes ancestrais e ações de reflorestamento no extremo sul de São Paulo;





