Enquanto os filhos estudam, mães são alfabetizadas em escola no sertão pernambucano - PORVIR
Crédito: Marina Lopes/Porvir

Inovações em Educação

Enquanto os filhos estudam, mães são alfabetizadas em escola no sertão pernambucano

Em Cabrobó, escola municipal reúne mães para colocar um ponto final no ciclo de analfabetismo e escrever novas histórias por meio da educação

por Ana Luísa D'Maschio e Marina Lopes ilustração relógio 17 de novembro de 2022

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Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

Entre o trabalho do roçado e os afazeres domésticos, pouco sobrou tempo na infância para Maria Creuza Cavalcante aprender a “desenhar o nome”. Hoje, aos 49 anos, de volta à sala de aula na Escola de Referência em Ensino Fundamental Evandro Ferreira dos Santos, em Cabrobó, no sertão pernambucano, ela vê parte da sua história retratada no curta-metragem “Vida Maria”, do animador digital Márcio Ramos. 

Em apenas oito minutos, o premiado vídeo, também referência em cursos de direitos humanos, reflete como o trabalho infantil afasta meninos e meninas do brincar, do aprender, do direito a estudar – a violação atinge, aproximadamente, 80 mil crianças de 5 a 9 anos em todo o país, informa o Fórum Nacional de Prevenção e Trabalho Infantil. 

“Eu lembrei do meu pai ao assistir ao vídeo. Quando eu começava a estudar, ele dizia ‘vai trabalhar porque estudo não dá futuro a ninguém’”, recorda Maria Creuza, durante uma roda de conversa com outras mães de alunos da Evandro Ferreira, que recebe os estudantes do sexto ao nono ano em tempo integral, das 7h30 às 15h. Às terças e quintas-feiras, uma das salas de aula virou ponto de encontro para ela e outras mulheres que, diferentemente do desfecho da animação, encontram um espaço de acolhimento na escola dos filhos para aprender a ler e a escrever, e, assim, colocar um ponto final no ciclo de analfabetismo que acompanhou muitas gerações das suas famílias. 

Com o material escolar na mesa e o nome estampado na capa de um caderno, Maria Creuza reescreve o passado e começa a sonhar com o futuro por meio da educação. “Eu não tive quase tempo, estudei só até a primeira série. Na verdade, não estudei nem um ano completo, porque eu trabalhava em roça. Aqui eu estou começando a aprender. Ainda faltam algumas coisas, né? Eu ainda não sei colocar aqueles pontinhos nas letras, mas vou conseguir. Devagarzinho a gente vai desenrolando”, conta ela, que é mãe de seis filhos, com idades que vão de 11 a 31 anos.

Duas vezes por semana, das 14h às 16h, Maria Creuza deixa de lado os afazeres domésticos e vai para Evandro Ferreira, onde também estuda o filho mais novo, Juliano, de 11 anos, no sexto ano do ensino fundamental. Enquanto ele assiste à aula, Maria Creuza participa com outras mulheres do projeto “Distantes sim, desconectados não: família e escola, projetando sonhos, promovendo a inclusão”, que tem a proposta de alfabetizar mães, resgatando nessas mulheres o desejo de estudar e, assim, inseri-las na sociedade letrada ou até mesmo no mercado de trabalho. 

“Eu e meu filho: hoje, a gente sai junto da escola. Ele me incentiva, e eu incentivo ele. Ele me ensina, e eu ensino a ele”, reforça Maria Creuza, que pretende continuar os seus estudos e procurar uma turma da EJA (Educação de Jovens e Adultos) no município. E se antes faltava incentivo para seguir aprendendo, hoje a motivação vem dos próprios filhos, que sempre dizem: “Mainha eu tô muito feliz, siga em frente. Você é meu orgulho.”

Uma resposta aos impactos da pandemia 

Criar um projeto de alfabetização para as mães dos estudantes surgiu em 2021, quando as aulas presenciais ainda estavam suspensas para conter a disseminação do vírus causador da Covid-19. Nesse período, geralmente eram as mulheres que iam até a escola buscar as atividades impressas ou até mesmo a merenda disponibilizada aos estudantes. “Nós começamos a observar que muitas não assinavam o nome porque eram analfabetas. Entre aquelas que assinavam, muitas não liam e não tinham ideia do poder transformador da educação”, conta Elineide Alves, diretora da escola. 

Localizada na região periférica da cidade, a instituição de ensino atende principalmente estudantes de baixa renda. “Muitos trabalham informalmente ou na agricultura, e os nossos estudantes vêm dessa realidade”, pontua a diretora. “Como a família não estudou ou teve que largar os estudos cedo para trabalhar, os alunos já estão habituados a essa situação. Às vezes tem aluno que, inclusive, não ingressa no ensino médio, ou está desmotivado para participar das aulas no ensino fundamental por causa desse histórico familiar”, explica. 

Fachada da escola. O muro é branco, com contornos na cor azul e tem círculos coloridos com letras. Em destaque é possível ler Escola de Referência em Ensino Fundamental Evandro Ferreira dos Santos
As turmas de alfabetização acontecem duas vezes por semana, das 14h às 16h / Crédito: Marina Lopes

Durante o período de distanciamento social, a escola teve dificuldades para interagir com estudantes de forma consistente, mesmo entre aqueles que contavam com acesso à internet. Tudo porque as mães não entendiam o que eram as aulas remotas e os filhos acabavam não participando. Intrigada com a situação, Elineide e a coordenadora pedagógica Luciene Campos entenderam que solucionar a questão passava por apoiar o desenvolvimento de quem cuidava das crianças em casa. Juntas, começaram a escrever um projeto voltado exclusivamente às mulheres da comunidade. “Mostramos a proposta para a Seduc [Secretaria de Educação de Cabrobó] e chamamos a equipe para uma reunião, em que apresentamos a nossa ideia de alfabetizar as mães para que elas pudessem incentivar os filhos na escola. Com isso, conseguimos a contratação de duas professoras com dedicação exclusiva para as atividades de alfabetização”, explica. 

O contexto de Cabrobó
O município de Cabrobó está localizado na bacia do Rio São Francisco, a 532 km do Recife (PE). O comércio varejista e a agricultura estão entre as suas principais atividades econômicas, destacando-se na produção de cebola, arroz e melancia. 

Com uma área territorial de 1.657,9 km², o município tem uma população estimada de 34.778 pessoas, segundo projeção do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Os dados do último Censo mostram que 5.091 pessoas, com 15 anos ou mais, não sabem ler e escrever no município, o que representa uma taxa de 23,7% da população em 2010. No mesmo período, a taxa do Brasil era de 9,6%. 

Em 2020, a cidade tinha registrado um salário médio mensal de 1,5 salários mínimos, sendo que a proporção de pessoas ocupadas em um trabalho formal era de 8,5% da população total. 

Fonte: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

A primeira aula do projeto “Distantes sim, desconectados não” foi realizada em 28 de julho de 2021. “Nós fizemos uma reunião e chamamos as mães para participar”, conta Elineide. A proposta: enquanto elas esperavam os filhos na escola, teriam algumas atividades exclusivas.  Nessas ocasiões, poderiam falar sobre sua vida e sonhos. Desde então, a turma passou a contar com a presença de cerca de 15 mães. “Trabalhamos a partir das necessidades dessas mulheres. Não é um ensino formal, mas uma forma de fortalecer o desejo de mudança delas, de transformar a vida por meio da educação.” 

A proposta também incentiva que as participantes deem sequência aos seus estudos: “Eu sempre digo aqui para as mães que esse é um incentivo para elas irem para a educação formal, para elas se matricularem na Educação de Jovens e Adultos”, ressalta a diretora, que está tentando fazer parcerias com escolas do município que oferecem EJA a essas estudantes. 

No entanto, a volta dessas mães à educação formal também passa por uma série de dificuldades: de estudar no período noturno, as necessidades de trabalho, o desencorajamento dos companheiros ou até mesmo a vergonha de chegar a uma sala de aula com mais de 30 anos sem sequer reconhecer as letras. Em alguns casos, o distanciamento da escola por tanto tempo também faz com que essas mães percam o interesse em estudar.

Perspectivas de futuro

No segundo semestre deste ano, Berenice Rodrigues, de 44 anos, decidiu fazer parte do projeto motivada por um convite especial, feito pela filha Luna, de 12 anos. “Tinham perguntado se tinha alguém da minha família que queria estudar. Minha mãe falou que não queria, eu não sei muito bem o porquê. Talvez seja porque ela terminou de estudar no quarto ano… Mas eu e as minhas irmãs a incentivamos a voltar a estudar”, diz Luna, que está no sétimo ano do ensino fundamental. 

Além do pedido feito pela filha, Berenice também quis fazer parte do projeto para aprender a escrever mensagens de texto pelo WhatsApp e, com isso, deixar de enviar apenas áudios para se comunicar. “Meu marido tentou me matricular algumas vezes na EJA, mas eu não tinha vontade de estudar. Dessa vez, foi incentivo meu mesmo. Meu e dessa menina mais nova”, afirma a mãe de Luna. 

Um mulher de cerca de 44 anos caminha em uma estrada de terra ao lado de uma adolescentes de 12 anos
Berenice Rodrigues, de 44 anos, vai à escola junto com a filha Luna, de 12 anos / Crédito: Fredson Santos

Berenice diz ter encontrado na escola da filha o acolhimento e o apoio necessários para seguir em frente. E já faz planos para o futuro: “Sonho em fazer a prova do Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] e entrar em medicina. Medicina, assim, enfermagem. Entendeu?”, sorri Berenice. 

Trabalhar com os sonhos e as perspectivas de futuro das mulheres é apenas uma das dimensões do projeto. “A mãe quer ser alfabetizada, mas não quer passar o dia fazendo uma atividade de leitura e escrita. Quer falar da vida, dos sonhos, quer se sentir acolhida. A gente procura trazer um pouco dessa realidade para fazer sentido para ela”, observa Elineide. 

A realidade das mães na sala de aula 

No dia em que o Porvir visitou a escola Evandro Ferreira, as mães participavam de uma roda de conversa sobre o curta-metragem “Vida Maria”. A aula tinha a proposta de fazer as participantes refletirem sobre as suas trajetórias. “A ideia era: cada uma delas deveria se apresentar, contar parte da sua vida e dizer os nomes dos seus avós, pais e filhos. Depois, trabalhamos o filme ‘Vida Maria’, que sensibilizou muitas mães. Elas disseram que o filme se assemelhava a suas vidas”, conta a professora Maria Ademailde Silva. 

Para a educadora, trabalhar com uma turma de mães com diferentes níveis de conhecimento é um desafio, mas ao mesmo tempo é um trabalho gratificante. “Tem mães que já são alfabetizadas, mas algumas não sabem nem fazer o próprio nome. Então, as que sabem se juntam com as que não sabem, e isso já ajuda muito. É muito gratificante você poder compartilhar aquilo que você sabe com elas.”

Confira, abaixo, a videorreportagem de Marina Lopes
e conheça mais detalhes do projeto:

O trabalho desenvolvido na escola parte de uma perspectiva freiriana, que valoriza a cultura popular e o contexto em que as mães estão inseridas para dar sequência ao processo de alfabetização, letramento e inclusão. “Paulo Freire alfabetizou adultos em 40 dias porque trouxe o contexto dessas pessoas para o processo. Ele ensinou não só o alfabeto e a formação de palavras, mas trouxe uma alfabetização crítica. Quando você traz algo do meio das pessoas, você dá uma criação de sentido para que elas se sintam motivadas a participar do projeto”, analisa Luciene Campos, coordenadora pedagógica da escola, em referência à experiência de Freire na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, realizada em 1963.

Paulo Freire alfabetizou adultos em 40 dias porque trouxe o contexto dessas pessoas para o processo

Com essa visão, aliada à necessidade de manter o interesse das mães na escola, receitas, listas de compras, contas de energia, histórias de vida e questões relacionadas à educação dos filhos se tornam insumos importantes para as aulas. Em uma atividade chamada “Chá Folclórico”, por exemplo, as mães trocam experiências sobre o uso de chás para fins medicinais e terapêuticos. Já em outra aula, que aconteceu na semana de festejos do aniversário da cidade (11 de setembro), as mulheres saíram para um piquenique para refletir sobre a realidade do município. 

“Eu chego em casa com umas receitas novas e umas coisas diferentes. Isso tem sido muito bom! É uma fase em que a gente revisa muita coisa, faz passeios e se sente parte da escola. Estou sempre participando [do projeto] e incentivando meus filhos a não faltar nas aulas”, diz Diana da Silva, de 48 anos, que também trabalha como auxiliar de serviços gerais da escola. Apesar de já ter concluído o ensino médio em 2005, ela quis frequentar as aulas para ajudar as outras mães e para revisar o que aprendeu. “Tempo livre para estar lendo um livro a gente não tem, né? Então é bom que a gente revisa aqui no projeto.” 

Diana da Silva sorri enquanto fala sobre o projeto
Diana da Silva participa do projeto e hoje também trabalha na escola / Crédito: Fredson Santos

Resultados que motivam a escola

Em pouco mais de um ano de projeto, a diretora Elineide Alves avalia de forma positiva os primeiros resultados. Entre as evidências de que estão no caminho certo, ela cita as histórias de mulheres que conquistaram um emprego formal ou que já foram alfabetizadas e conseguiram realizar alguns dos seus sonhos por meio da educação, como é o caso de Arileide Rocha, que no início do ano assinou pela primeira vez a matrícula dos dois filhos. 

Quando chegou ao projeto, Arileide não sabia reconhecer as letras. Ela conta que um dos seus maiores constrangimentos era ter que sujar o dedo de tinta para assinar com a impressão digital. “Eu tinha vontade era de sair correndo e me esconder”, relembra. No entanto, após três meses de participação assídua nas aulas do projeto “Distantes sim, desconectados não”, ela já consegue escrever com letra cursiva o próprio nome. “Hoje em dia, quando chego lá na Caixa [Econômica Federal] para ver o meu dinheiro, boto a folha na parede e assino meu nome, para todo mundo ver”, orgulha-se Arileide, que conseguiu tirar um novo RG, dessa vez sem a expressão “NÃO ALFABETIZADO”. 

mulher posa para foto segurando dois RGs, um com a menção "Não Alfabetizado"e outro, o mais novo, assinado
Arileide Rocha exibe com orgulho o seu novo RG, dessa vez assinado / Crédito: Marina Lopes

Levar cidadania para as mães de Cabrobó por meio da alfabetização virou notícia mundo afora. Com o projeto “Distantes sim, desconectados não: família e escola, projetando sonhos, promovendo a inclusão”, a escola conquistou o segundo lugar no prêmio Melhores Escolas do Mundo (World’s Best School Prize), promovido pela organização britânica T4 Education, na categoria superando adversidades. 

Educar famílias gera impacto no desenvolvimento de crianças e adolescentes

Além de contribuir com o desenvolvimento das mães e de abrir possibilidades para que elas se aproximem novamente da educação formal, experiências como as da escola Evandro Ferreira dos Santos caminham na direção do que apontam pesquisas educacionais globais e indicadores nacionais: investir em ampliar a escolarização das mães gera impacto positivo no desenvolvimento de crianças e adolescentes. 

De acordo com o documento “Envolver as famílias na alfabetização e aprendizagem“, produzido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), nunca é cedo ou tarde demais para iniciar a alfabetização. “Pais desfavorecidos, que não possuem competências fortes de literacia, necessitam de apoio orientado para converterem em realidade as ambições que têm para seus filhos”, aponta o estudo. Uma intervenção precoce ajuda a prevenir o abandono escolar e promove uma cultura de aprendizagem ao longo da vida. 

Mulher posa para foto com uma bebê
Algumas das mães também levam os filhos para a sala de aula / Crédito: Fredson Santos

O levantamento “Mobilidade intergeracional de Educação: Comparações Internacionais”, feito pelo Imds (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), a partir de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), de 2014 – a última com esses indicadores disponíveis para consulta –, mostrou que 69,8% dos filhos cujos pais concluíram o ensino superior tendem a seguir o mesmo caminho. Por outro lado, para os filhos de pais que não concluíram o ensino médio, a chance dos filhos se formarem em um curso universitário cai para 10,4% e 58,3% tendem a deixar a escola antes de completar o ensino médio. 

Quando você eleva o nível educacional das famílias e das comunidades, você melhora o ambiente educacional para as crianças se desenvolverem

“Quando você eleva o nível educacional das famílias e das comunidades, você melhora o ambiente educacional para as crianças se desenvolverem. Qualquer professor de escola pública sabe disso. As crianças se socializam nas famílias e nas comunidades, não é? A escola sozinha não é capaz de produzir o contexto sociocultural para promover o êxito escolar das crianças das classes populares”, avalia Maria Clara di Pierro, professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo). 

O impacto desse trabalho com as mães já é sentido no dia a dia da escola. “Teve a questão da alfabetização, mas teve também o empoderamento dessas mulheres por meio da educação. E isso se reflete nos filhos: eles estão mais perto da escola, participando mais. As mães ajudam os filhos, e os filhos ajudam as mães”, garante Elineide. 

**A pauta foi selecionada pelo 4º Edital de Jornalismo de Educação, iniciativa da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação) em parceria com o Itaú Social. As matérias serão publicadas durante o mês de novembro de 2022.


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alfabetização, eja, equidade, Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

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