À frente do IB (International Baccalaureate) desde 2021, o finlandês Olli‑Pekka Heinonen traz uma bagagem importante para o debate educacional global. Ex‑ministro da Educação e Ciência, ex‑diretor da Agência Nacional Finlandesa de Educação e ex‑secretário de Estado do Primeiro‑Ministro, ele também comandou a Yle, a emissora pública do país. Essa combinação de experiência política, visão sistêmica e liderança em inovação ajuda a explicar sua atuação atual: pensar a educação não como transmissão de conteúdo, mas como um ecossistema capaz de formar cidadãos preparados para um mundo em constante transformação.

Criado em Genebra, na Suíça, em 1968, o IB nasceu como uma fundação sem fins lucrativos com o propósito de estabelecer uma qualificação acadêmica padronizada e reconhecida globalmente. Atualmente, a organização está presente em mais de 150 países e já impactou trajetória de quase 2 milhões de estudantes em todo o mundo, com um currículo que atravessa a educação básica, da educação infantil ao ensino médio.

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Nesta entrevista ao Porvir, o especialista finlandês defende que acesso a informação deixou de ser o diferencial, e que o papel da escola, agora, é ajudar os jovens a desenvolver uma “bússola interna”: curiosidade, pensamento crítico, competências socioemocionais e capacidade de aprender ao longo da vida. Para ele, essas qualidades são decisivas para navegar por um futuro incerto, marcado pela automação, pela complexidade global e por desafios que exigem ação, não apenas conhecimento teórico.

IB no Brasil
No Brasil, hoje um dos países que mais crescem dentro do IB, com cerca de 80 escolas, o debate envolve desde a integração com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) até a expansão para redes públicas, a formação docente e o diálogo com universidades. Segundo o executivo do IB, além de fortalecer práticas pedagógicas alinhadas às competências globais, o programa também amplia oportunidades acadêmicas, já que o é reconhecido por universidades de diversos países.

A procura pelo IB continua em alta. Em 2025, mais de 1.500 estudantes brasileiros serão candidatos ao Programa de Diploma, e cerca de 70% deles deverão obter o Diploma Bilíngue, um diferencial importante tanto no Brasil quanto no exterior.

Dentro do IB, componentes como monografia, o TOK (Teoria do Conhecimento) e o CAS (Criatividade, Atividade e Serviço) incentivam os alunos a formular perguntas, analisar evidências e conectar o conhecimento a desafios do mundo real. Nesse contexto, a tecnologia torna-se uma ferramenta de pesquisa, colaboração e criação, e não de consumo passivo.

Na conversa abaixo, ele discute o futuro da educação, os caminhos para transformar culturas escolares, o papel da tecnologia e da IA, e como o IB tem buscado apoiar escolas e professores na construção de experiências que promovam não apenas desempenho acadêmico, mas o desenvolvimento humano.

Porvir – No livro Learning as if Life depended on it (Aprender como se a vida dependesse disso), você menciona que a informação não é mais o diferencial. Como os educadores podem ajudar os alunos a irem além da simples recuperação de informações para desenvolver o que você chama de “bússola interna” para um futuro incerto?

Olli-Pekka Heinonen: Desenvolver uma “bússola interna” não significa que a informação não tenha valor, mas o que importa agora é o que somos capazes de fazer com ela e o que estamos dispostos a fazer. Nesse sentido, questões de motivação, autonomia, identidade e propósito tornam-se centrais. Na prática, a aprendizagem não pode parar na teoria. 

Educar não é transmitir conteúdo, é cultivar um ecossistema que prepara cidadãos para um mundo em transformação, diz Olli‑Pekka Heinonen Crédito: Divulgação/IB

Por exemplo, não basta só falar sobre mudança climática, precisamos envolver a autonomia do aluno: como eles podem gerenciar seu próprio processo de aprendizagem e tomar ações concretas que gerem valor para suas comunidades? Estamos testando isso no IB em um projeto chamado “Systems Transformation Pathway” (“Caminho para a Transformação de Sistemas”), onde substituímos cursos com foco em estudos de grandes questões da atualidade (clima, biodiversidade, migração) baseados em pensamento sistêmico e trabalho em equipe.

Essa visão tem orientado mudanças profundas no IB, que busca fortalecer a autonomia do estudante, ampliar o pensamento sistêmico e conectar o aprendizado a problemas reais. Projetos como o Systems Transformation Pathway (Caminho para a Transformação de Sistemas), que faz parte do currículo IB, exemplificam essa direção, substituindo abordagens tradicionais por experiências de investigação e colaboração em torno de temas como clima, biodiversidade e migração.

Porvir – No mesmo livro, você diz que encontrar um caminho sustentável requer redefinir termos como progresso e qualidade de vida. Se o objetivo da educação não é mais apenas preparação econômica, mas o bem-estar, qual o primeiro passo para uma escola começar essa transformação cultural? 

Olli-Pekka Heinonen: Se levarmos a sério as mudanças no mundo do trabalho e como tarefas humanas estão sendo automatizadas, perceberemos que não sabemos quais serão os empregos do futuro. Por que não deixar que a paixão e a motivação dos jovens guiem o caminho? Quando você faz algo por paixão, cria algo significativo para si e para os outros. 

O objetivo final deve ser o “florescimento humano”, seja individual, comunitário ou global. Essa é a mudança de mentalidade que os educadores devem considerar.

Porvir – No Brasil, o IB ainda carrega o rótulo de programa para elites. Para ganhar escala, o gestor precisa focar na viabilidade prática da operação. Quais arranjos podem reduzir custos de certificação e treinamento, tornando o programa sustentável fora do nicho de alta renda?

Olli-Pekka Heinonen – É importante saber que, hoje, quase metade das escolas IB no mundo são públicas. O IB tem buscado parcerias cada vez mais próximas com governos para levar os benefícios de seus programas a mais alunos, em contextos variados.

Em países como Peru, Índia e Costa Rica, o IB foi incorporado a políticas educacionais mais amplas, alinhado aos currículos nacionais e sustentado por um investimento contínuo na formação docente.

Quando esse trabalho começa cedo e fortalece a pedagogia baseada na investigação, o IB potencializa o que as escolas e as redes de ensino já buscam alcançar. Em muitos cenários, as escolas IB funcionam como centros de inovação, influenciando as práticas de todo o ecossistema educacional ao redor.

Porvir – Que tipo de apoio é oferecido à escola que deseja se tornar IB?

Olli-Pekka Heinonen – Apoiamos as escolas com formação. Ao se tornar uma escola IB, o professor entra em uma comunidade global de educadores. Essa troca entre pares e os workshops permitem que o professor adote a nova abordagem de forma motivadora, sentindo-se apoiado por uma rede mundial.

Também observamos modelos de cooperação entre governos, fundações e redes de ensino que compartilham programas de formação, recursos pedagógicos e processos de implementação. Esse tipo de colaboração reduz as barreiras operacionais e permite que os programas se mantenham vivos ao longo do tempo em diferentes contextos sociais. A verdadeira medida do sucesso é quantos alunos estão engajados em uma aprendizagem rigorosa e profunda.

Porvir – Uma das maiores preocupações dos gestores brasileiros é o chamado “duplo currículo”. Como integrar elementos como TOK (Teoria do Conhecimento) e CAS (Criatividade, Atividade e Serviço) sem sobrecarregar os alunos? 

Olli-Pekka Heinonen – A situação de um “currículo duplo” geralmente surge quando novas abordagens são “empilhadas” sem uma integração real com o sistema já existente. No Brasil, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e o IB compartilham princípios centrais, como a investigação, a interdisciplinaridade e o desenvolvimento socioemocional.

Estruturas como TOK e CAS ajudam a dar vida a essas competências na prática escolar diária, conectando o aprendizado acadêmico com a reflexão e o engajamento comunitário. 

Quando a implementação está alinhada aos objetivos do currículo nacional e à prática em sala de aula, o IB deixa de ser uma camada extra de conteúdo.

Porvir – Como o IB tem avançado no diálogo com as universidades públicas para que o diploma possa, eventualmente, complementar ou reduzir a dependência de vestibulares?

Olli-Pekka Heinonen – A experiência internacional mostra que o alinhamento entre currículo, avaliação e acesso ao ensino superior é perfeitamente possível. Na Costa Rica, por exemplo, esse processo ajudou a criar uma ponte entre o que se aprende na escola e o que as universidades valorizam.

Sistemas de admissão universitária costumam evoluir gradualmente. Nesse contexto, diferentes formas de demonstrar aptidão acadêmica tendem a coexistir, ampliando os caminhos para os estudantes em vez de concentrar toda a pressão em um único exame.

Porvir – Mudar o papel do professor, de quem transmite conteúdo para quem orienta a aprendizagem, desafia a gestão e pode elevar a rotatividade de profissionais na escola. Como o gestor deve apoiar e reter esses educadores durante essa mudança cultural?

Olli-Pekka Heinonen: Apoiar os professores enquanto seu papel evolui para a mediação do pensamento crítico e da curiosidade é parte importante de qualquer transformação educacional. A experiência mostra que os professores permanecem engajados nos processos de mudança quando recebem confiança, tempo para se adaptar e oportunidades contínuas de desenvolvimento profissional. Reformas sustentáveis são aquelas que acompanham o educador durante toda a transição e constroem consistência ao longo do tempo, em vez de exigir resultados imediatos.

Porvir – Escolas brasileiras têm investido em conectividade. Qual a proposta IB para garantir que dispositivos e ferramentas de IA apoiem a investigação em vez de apenas digitalizar o modelo tradicional de memorização?

Olli-Pekka Heinonen – A tecnologia só melhora a aprendizagem quando serve a um propósito educacional claro. Os sistemas de ensino não deveriam começar pelos dispositivos, mas sim pelo tipo de aprendizagem que desejam promover.

Ferramentas digitais podem apoiar uma investigação profunda ou simplesmente replicar práticas tradicionais em formato digital. O fator determinante é a pedagogia, especialmente o que os alunos são convidados a fazer com a informação. Nesse processo, autonomia, motivação, identidade e propósito tornam-se centrais.

As experiências em países vizinhos mostram que a conectividade gera impacto real quando vem acompanhada de formação docente e orientação pedagógica sólida. Com a inteligência artificial, o desafio é ainda maior: os alunos precisam aprender como essas ferramentas funcionam, questionar seus resultados e desenvolver autonomia intelectual ao lidar com elas. O futuro da educação dependerá não apenas das ferramentas disponíveis, mas da capacidade dos estudantes de pensar criticamente e formular perguntas que realmente façam sentido.

Porvir – O Brasil é o oitavo país que mais cresce para o IB. Qual a sua avaliação sobre isso? É o currículo ou o desejo das famílias de que os filhos estudem no exterior?

Olli-Pekka Heinonen – Percebi em minha visita ao Brasil que há uma forte mentalidade de inovação na educação e prontidão para novas soluções tecnológicas e pedagógicas. Isso se alinha ao IB. Além disso, há interesse em competências para o mercado de trabalho global. Em paralelo, também estamos trabalhando para aumentar a conscientização sobre o que é o IB entre pais e universidades brasileiras.

O IB é reconhecido mundialmente pela alta qualidade. Não acreditamos que o histórico financeiro ou social deva determinar quem se beneficia dele. Queremos aumentar o acesso. Muitos países implementam o IB em escolas públicas para que elas funcionem como “faróis” ou centros de inovação que impactem todo o sistema.


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É diretor e editor do Porvir e faz parte da equipe desde 2014. Nesse tempo, já produziu séries sobre formação de professores e guias multimídia sobre temas como educação socioemocional, tecnologia, participação estudantil e aprendizagem prática....

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