Você sabe o que é um igarapé? A palavra vem do tupi antigo e significa “caminho de canoa” (ygara, canoa, e apé, caminho). O termo é usado para nomear pequenos cursos d’água, geralmente estreitos e de pouca profundidade, que atravessam diferentes paisagens, de áreas de floresta a regiões urbanas.
O Igarapé Pricumã, cujo nome é associado à palavra indígena pericumã, que significa “lugar coberto de juncos”, em referência à vegetação aquática, corta a zona urbana de Boa Vista (RR) e faz parte do cotidiano de muitos moradores. O Parque Linear do Igarapé Pricumã, no bairro Cinturão Verde, possui uma extensa área verde margeando o igarapé, mostrando que um espaço ambiental também pode ser utilizado pela população para lazer.
Suas águas e margens contribuem para a drenagem da cidade, abrigam biodiversidade e revelam a relação entre o espaço urbano e a natureza.
Escolhi desenvolver o projeto “Graziela Barroso e a proteção do solo nas margens do Igarapé Pricumã” com minha turma do 4º ano da Escola Municipal Francisco de Souza Bríglia porque percebi que, embora fizesse parte do cotidiano dos estudantes, o Igarapé Pricumã ainda era um espaço pouco compreendido pela turma.
As crianças conheciam o nome do igarapé ou já haviam passado por locais próximos, mas não percebiam sua relação com a vegetação, a proteção do solo e o equilíbrio ambiental.
Nas aulas de ciências e geografia, observei que os estudantes sabiam falar sobre natureza, plantas e preservação, mas tinham dificuldade de relacionar esses conceitos ao próprio cotidiano. Um exemplo foi perceber que alguns chamavam a vegetação das margens do igarapé de “mato”, sem compreender seu papel na proteção do solo e na manutenção do equilíbrio ambiental.
A partir dessa percepção, busquei transformar um elemento presente na paisagem da cidade em objeto de investigação e aprendizagem. O projeto também abriu espaço para discutir como a ciência nasce da observação, da curiosidade e das perguntas que fazemos sobre o mundo ao nosso redor.
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Uma cientista para investigar o território
Para iniciar o trabalho, expliquei à turma que participaríamos da Feira de Ciências e que nossa missão seria conhecer uma mulher que fez ciência e descobrir como sua trajetória poderia nos ajudar a compreender melhor a natureza.
Escolhi apresentar aos estudantes a botânica Graziela Maciel Barroso (1912-2003). Nascida em Corumbá (MS), ela se tornou uma das maiores referências da botânica brasileira. Conhecida como “a grande dama da botânica”, formou pesquisadores em universidades brasileiras e contribuiu para ampliar o conhecimento sobre a flora do país.
Como pesquisadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Graziela identificou 11 novos gêneros e 132 novas espécies de plantas, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a flora brasileira. Entre os grupos estudados por ela estão famílias que reúnem plantas conhecidas, como o girassol e a margarida, e frutas como goiaba, pitanga e jabuticaba.
A escolha de Graziela não foi apenas uma homenagem a uma cientista brasileira. Sua trajetória ajudou a turma a perceber que estudar plantas também significa compreender os ambientes onde elas estão presentes e refletir sobre a importância da preservação.
A partir de sua história, conversamos sobre a presença das mulheres na ciência. A turma refletiu sobre por que conhecia poucas cientistas e percebeu que fazer ciência envolve observar, levantar perguntas, investigar e buscar explicações sobre o mundo ao nosso redor.

Ampliando a pesquisa
Para aprofundar o tema, utilizamos vídeos, textos informativos e materiais adequados à faixa etária sobre a trajetória de Graziela, a botânica e a importância da vegetação. As crianças foram incentivadas a levantar hipóteses, identificar informações e relacionar o que aprendiam às observações feitas no território.
Depois de estudar a função das raízes e da vegetação na proteção do solo, retomávamos as observações feitas sobre o Igarapé Pricumã para que percebessem a relação entre o conhecimento científico e o ambiente próximo de suas vidas.
Da pergunta à investigação
A pergunta que guiou o projeto foi: “Como as plantas podem ajudar a proteger o solo e o meio ambiente?”
A partir dela, propus questões próximas da realidade da turma:
- O que acontece com a terra quando não existe vegetação para protegê-la?
- Por que as plantas são importantes?
- Será que a ciência estudada em sala pode ajudar a cuidar do lugar onde vivemos?
Minha intenção era mostrar que fazer ciência começa com a curiosidade, a observação e a busca por respostas. As crianças seriam participantes desse processo, levantando hipóteses e construindo explicações a partir do próprio território.
O trabalho começou com uma roda de conversa para entender o que a turma já sabia sobre o Igarapé Pricumã, a vegetação local, os problemas ambientais da região e a participação das mulheres na ciência.
Antes de apresentar a história de Graziela Barroso, fiz perguntas como:
- “O que é uma cientista?”,
- “Vocês conhecem alguma mulher cientista?”,
- “Para que servem as plantas?”
- “Por que existem plantas nas margens dos rios e igarapés?”.
As respostas ajudaram a identificar os conhecimentos prévios da turma e orientar as próximas atividades.
Ao conversar sobre o Igarapé Pricumã e o espaço onde hoje está a Praça do Tatu, percebi que muitas crianças tinham uma relação próxima com o lugar, pois frequentavam a praça para brincar, mas ainda não conheciam a importância ambiental.
Essa descoberta foi um ponto de partida interessante para todos nós: conhecer um lugar não significa necessariamente compreendê-lo. Os estudantes precisavam perceber a relação entre água, vegetação das margens, conservação do solo, erosão e as transformações ocorridas naquele espaço.
Observar e experimentar
A partir das descobertas da turma, o projeto ganhou um caráter mais investigativo. Os estudantes analisaram imagens do Igarapé Pricumã antes e depois das ações de revitalização da área da Praça do Tatu, identificando problemas como erosão, descarte inadequado de resíduos e retirada da vegetação das margens.
Para tornar esse conhecimento mais concreto, realizamos um experimento utilizando duas garrafas PET com solo: uma com cobertura vegetal e outra sem vegetação. Durante a simulação da chuva, as crianças observaram que o solo protegido pelas plantas permaneceu mais estável, enquanto o solo sem vegetação sofreu maior desgaste.
Logo depois, propus a seguinte provocação:
“Se na garrafa com vegetação as raízes ajudaram a segurar a terra, o que vocês acham que acontece com o solo das margens do Igarapé Pricumã quando chove e ele não tem vegetação para protegê-lo?”
A pergunta levou as crianças a compararem diretamente o experimento com o ambiente estudado. Elas perceberam que, assim como a água carregava mais terra no recipiente sem vegetação, a ausência de plantas nas margens de um igarapé pode favorecer o desgaste e o carregamento do solo.
A partir dessa relação, introduzimos o conceito de erosão e discutimos a importância da vegetação para proteger as margens e conservar o ambiente. O experimento ajudou os estudantes a compreender que as plantas não fazem parte da paisagem apenas como elementos visuais: elas desempenham funções importantes para o equilíbrio dos ecossistemas.
Produção coletiva
Depois de investigar o Igarapé Pricumã e compreender a relação entre vegetação, solo e preservação ambiental, os estudantes organizaram os conhecimentos construídos ao longo do percurso por meio de diferentes linguagens.
A turma produziu textos sobre Graziela Barroso e o igarapé, fez registros das descobertas, criou desenhos, elaborou gráficos com informações pesquisadas e construiu uma maquete representando as margens do igarapé antes e depois da recuperação ambiental.
A produção dos materiais também foi uma forma de registrar e expressar as aprendizagens construídas durante o projeto. Os estudantes que tinham mais facilidade com desenho, fala e atividades práticas encontraram outras formas de participar, além das atividades de leitura e escrita e preparar as apresentações para a Feira de Ciências.
Compartilhando descobertas
Como culminância, o projeto foi apresentado na Feira de Ciências da escola. Esse momento permitiu que os estudantes dividissem as descobertas construídas e as relações que estabeleceram entre ciência e território.
Eles explicaram quem foi Graziela Barroso, demonstraram o experimento sobre erosão do solo, apresentaram a maquete e compartilharam as aprendizagens construídas durante o percurso.
Um dos momentos mais marcantes foi perceber a reação de um aluno ao compreender a função das plantas na proteção do solo. Ele descobriu que elas não estavam presentes apenas para deixar o ambiente mais bonito, mas que suas raízes ajudam a proteger a terra e reduzir os impactos da chuva.
Essa descoberta ganhou ainda mais significado quando ele conseguiu relacionar o experimento realizado em sala ao que havíamos estudado sobre as margens do Igarapé Pricumã.
A participação de uma outra também foi uma evidência importante desse processo. Ao longo do projeto, ela passou a se envolver mais nas atividades de investigação e nas construções coletivas. Durante a Feira de Ciências, conseguiu apresentar o trabalho aos visitantes, explicando o que havia aprendido sobre Graziela, as plantas e a importância das raízes para a proteção do solo.
Para mim, esse momento mostrou que a aprendizagem por investigação também pode fortalecer a confiança, a participação e a autonomia dos estudantes.
Impactos e aprendizagens
O projeto ajudou os estudantes a compreender a importância da vegetação para a proteção do solo, a conservação dos recursos hídricos e a preservação do Igarapé Pricumã. Eles também ampliaram seus conhecimentos sobre Graziela Barroso e passaram a reconhecer a contribuição das mulheres para a ciência.
Ao longo do processo, desenvolveram habilidades de investigação, observação, argumentação, comunicação e trabalho em equipe. Mais do que aprender sobre um conteúdo específico, passaram a olhar para o lugar onde vivem de outra forma.
A experiência também despertou o interesse de outros professores da escola pela possibilidade de trabalhar conteúdos a partir de espaços conhecidos pelas crianças. O projeto mostrou que um mesmo tema, como a história e as transformações do Igarapé Pricumã, pode ser explorado por diferentes áreas do conhecimento,
O maior aprendizado foi perceber que o território onde os estudantes vivem não é apenas cenário da aprendizagem, mas também uma fonte de perguntas, descobertas e produção de conhecimento.

