Estudantes usam a dança para transformar a comunidade onde vivem - PORVIR
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Inovações em Educação

Estudantes usam a dança para transformar a comunidade onde vivem

Na periferia da zona oeste carioca, o projeto Revolução Urbana de Arte ocupa equipamento público abandonado com atividades culturais

por Criativos da Escola ilustração relógio 31 de agosto de 2018

Fiação resolvida. Bocais instalados. Lâmpadas novas. Apertaram o interruptor: faça-se a luz! Agora os educandos e educadores do projeto Revolução Urbana de Arte (RUA) contavam com iluminação apropriada no recém-ocupado espaço do Centro Social Urbano (CSU) da comunidade de Santa Margarida, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), equipamento público há anos abandonado.

É um espaço amplo que poderia abrigar atividades de danças urbanas do coletivo que, até então, era sediado em uma garagem que ficara pequena com o aumento do número de interessados. Decidiram dar uma destinação melhor para o CSU da comunidade, há anos sem manutenção ou reforma, do que deixá-lo em escombros. Mas, no dia seguinte, veio a surpresa: “Não havia mais nenhuma lâmpada. Tinha dado um trabalhão conseguir comprar todas elas e foram roubadas! Espaço sempre foi uma grande dificuldade para a gente”, relembra o aluno do 3º ano do Ensino Médio, Pedro Henrique de Castro, integrante do projeto e, hoje, professor de dança do RUA.

“Resgatamos pessoas da comunidade que não estariam fazendo nada e ocupamos seu tempo com mais cultura e ação social que é uma ferramenta muito boa para a transformação. [Com a participação no projeto] eu aprendi a me comportar, a respeitar as pessoas, a lidar com as coisas que vêm ao meu encontro, a cuidar do que recebo. Vou levar essa aprendizagem por toda a minha vida”, garante ele.

Resgatamos pessoas da comunidade que não estariam fazendo nada e ocupamos seu tempo com mais cultura e ação social que é uma ferramenta muito boa para a transformação

Maria Julia de Andrade, estudante do 1º ano do Ensino Médio, está há dois anos no projeto e já ministra workshops de vogue (estilo de dança difundido pela comunidade LGBTQI) e é jurada em competições. Ela afirma que o “RUA é uma família”. “Qualquer problema que a gente tem, mesmo pessoal, a gente leva para lá e transforma em dança”, conta ela. E complementa: “na dança também mostramos questões sociais. Não é só uma coreografia, isso é o que mais impacta quando olhamos o projeto: fortalecemos a zona oeste”.

Cultura na zona oeste
Mas o grupo não esmoreceu com as dificuldades iniciais. Afinal, tentar combater a exclusão social por meio da arte e cultura, principalmente por meio da dança – um dos objetos centrais do coletivo RUA, que conta, atualmente, com cerca de 70 integrantes – merece esforços. O coletivo foi criado em dezembro de 2013 pelo educador Douglas Barros, também conhecido como DG, e está há cinco anos realizando atividades culturais na periferia do Rio de Janeiro (como festivais, workshops e apresentações). Hoje, conta com alguns eixos para ministrar suas aulas: o RUA Start (para iniciantes), o RUA Project (para quem já experiência), o RUA Streaming (para integrantes já em nível avançado e que desenvolvem suas próprias coreografias) e o RUA Family (para os pais que levam seus filhos nas aulas).

O RUA Family, contam, surgiu de uma constatação peculiar: os integrantes do coletivo repararam que muitos pais – “na verdade, mães”, destaca DG – levavam seus filhos e filhas para as aulas. Decidiram realizar uma atividade que ocupasse o tempo dessas mães que esperavam por sua “prole”. “Muitas mães tinham uma história de ausência do papel masculino na família, sobrecarregadas com a criação das crianças, baixa autoestima e dificuldades com sobrepeso”, avalia o educador DG. A partir dessa experiência, os familiares dos educandos passaram a ser parceiros mais ativos do projeto, dando sugestões e auxiliando em diversas atividades.

O sistema de aulas do coletivo se baseia nos integrantes mais experientes, por meio do Treino Monitorado (TM), compartilhando técnicas, teoria e vivências com os novos integrantes. DG conta, orgulhoso, que quatro ex-alunos estão cursando a graduação em dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – instituição que reconhece o RUA como polo de estágio para seus discentes -, que três companhias de dança se originaram a partir das aulas do coletivo e que, atualmente, estão expandindo a área de atuação, desenvolvendo outros projetos de arte urbana, como fotografia e vídeo.

Dançando na garagem
DG – idealizador do coletivo RUA – narra como tudo começou: integrava uma companhia de dança profissional, o “Jovens da Periferia”, como professor, bailarino e intérprete, atuando em comunidades da zona oeste do município como Batan, Macaé, Padre Miguel, Bangu e Realengo. Percebeu que inúmeros jovens de sua comunidade tinham interesse em participar de atividades de dança: “eu até levava alguns de carro, com a permissão dos pais”. Porém a companhia na qual trabalhava ficava muito distante desses jovens, o que fez com que juntasse essa galera na garagem de sua casa. “Nosso bairro tem um histórico de violência e a proposta era pela arte, tendo a dança como uma ferramenta, modificar, de algum modo, a realidade”, explica ele.

“Realizamos eventos, workshops e muitas outras atividades com a comunidade. Nos apresentamos nos colégios da região. Tudo que fazemos é o mais aberto possível. Não é uma escola de dança, coisa que soa inacessível. É um coletivo que preza pela cultura da zona oeste”, destaca Maria Júlia.

Vemos, também, o entorno da comunidade sendo modificado. Alunas e alunos que estudam em escolas da região e que integram o coletivo levam essa mensagem para outros jovens. O RUA gera muitos multiplicadores

“Vemos, também, o entorno da comunidade sendo modificado. Alunas e alunos que estudam em escolas da região e que integram o coletivo levam essa mensagem para outros jovens. O RUA gera muitos multiplicadores”, ressalta DG.

O educador cita uma ação do coletivo que marcou a comunidade: a campanha de arrecadação de verbas e doações (chamada “Se essa rua fosse minha”) para transformar uma das salas do CSU, que estava em escombros, em um teatro comunitário. Porém, lembra que ainda contam com problemas relacionados ao espaço: uma das salas, devido à falta de algumas telhas, alaga em dias de chuva e algumas das portas do Centro são vandalizadas. “A questão é resistir, mas não só: resistir e educar. Acreditar que quem está lá fora tem muitas dificuldades. Conversamos e decidimos tentar, o máximo possível, levar para as pessoas a importância da atividade, o que gerou uma comoção do bairro com o espaço”, analisa ele.

Dança: o corpo que fala
Dançar na periferia não é fácil. Quem “ousa” se aventurar por essa expressão artística pode enfrentar dura resistência da família. “Minha mãe me apoia, mas é uma dificuldade que percebi em diversos companheiros e companheiras. A família acha que é só um hobby ou coisa de vagabundo. Não veem [a dança] como uma possibilidade profissional”, conta Maria Júlia. (Veja no fim desta matéria vídeo do grupo RUA).

“Havia um preconceito. Imagina, chegar para a minha mãe e falar: ‘estou fazendo dança’. Para mim, gerou muitos problemas”, confidencia Pedro, que também trabalha como monitor de dança em uma escola pública. “Eu conheci a dança através da escola. Pensei: assim como outros foram um canal em minha vida para que a dança entrasse, eu poderia ser também um canal para outras pessoas. Isso, mesmo com todas as dificuldades, mudou minha vida e eu posso mudar outras também”, complementa ele.

A dança faz parte de mim. É como eu me expresso: dançando

DG avalia que muitos dos problemas que alunas e alunos enfrentam têm semelhanças. “São conflitos familiares, em especial com o pai; baixa autoestima; traumas na infância; abusos sexuais. Levamos isso para os palcos, principalmente no espetáculo “Umanamente”, que contou com laboratórios baseados em técnicas de improviso, transformando traumas em expressão artística. Eles não precisam falar, mas pensar por meio de suas coreografias”, relata ele.

Segundo Pedro, participar desse espetáculo – de certa forma terapêutico – foi muito importante para que ele escolhesse sua área de trabalho: a dança. “[O espetáculo] retrata nossas histórias, nossas dificuldades, abriu portas para eu que possa fazer o que quero”, afiança o jovem.

“A dança faz parte de mim. É como eu me expresso: dançando. O RUA foi o ponto de partida para eu evoluir, pesquisar sobre minha área, me aprofundar e me exercitar. Abri a cabeça”, comenta Maria Júlia, quando perguntada sobre o significado da dança em sua vida. “Essa experiência é única”, conclui Pedro.


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competências para o século 21, criativos da escola, educação integral, ensino médio

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