Por que vale a leitura

Entender como funciona o Global Teacher Prize e quem pode participar.

Conhecer os critérios usados pelo júri para avaliar as candidaturas.

Descobrir como apresentar uma prática docente com impacto e evidências.

Antes de se tornar a professora mais influente do mundo e chegar ao Top 10 do Global Teacher Prize, conhecido como o “Nobel da Educação”, Débora Garofalo trabalhava com robótica em uma escola pública da periferia de São Paulo. Foi ali que nasceu o projeto Robótica com Sucata, apresentado pelo Porvir pela primeira vez em 2016 e que, anos depois, ganharia escala internacional, chegando à formação docente e às políticas públicas.

A trajetória ajuda a responder a uma dúvida comum entre professores que pensam em se candidatar: uma prática precisa ser grande, envolver muitas escolas ou contar com uma estrutura sofisticada para chamar a atenção do júri? Para Agustín Porres, diretor regional para a América Latina da Varkey Foundation, organização responsável pelo prêmio, a resposta é não.

“Na educação, não existe trabalho pequeno. Cada passo, cada esforço, cada decisão pode ser determinante para ajudar as crianças a aprender mais e melhor”, afirma Agustín. “Muitos dos nossos finalistas começaram com um projeto desenvolvido em uma única sala de aula. O júri não mede o tamanho de uma iniciativa, mas a profundidade do seu impacto.”

As inscrições para o Global Teacher Prize 2027 ficam abertas até 12 de outubro de 2026. Embora o formulário esteja em outros idiomas, as respostas podem ser preenchidas em português.

Para Débora, participar da premiação já é uma forma de reconhecer e dar visibilidade ao trabalho construído nas escolas. “Não se inscrevam apenas para ganhar um prêmio. Inscrevam-se para dar visibilidade ao que vocês constroem diariamente. A escola pública brasileira produz soluções todos os dias e precisamos fazer com que essas propostas sejam conhecidas.”

Por mais brasileiros no prêmio

Desde 2015, o Global Teacher Prize recebeu mais de 100 mil inscrições e indicações de diferentes partes do mundo. Ao longo das dez primeiras edições, 14 educadores brasileiros chegaram às listas de finalistas — entre eles, Débora, que ficou no Top 10 em 2019.

O Brasil aparece desde as primeiras edições da premiação. Em 2018 , Diego Mahfouz Faria Lima, de São Paulo, foi reconhecido pelo trabalho de transformação de uma escola pública que enfrentava altos índices de evasão.

Em 2020, Doani Emanuela Bertan, também de São Paulo, destacou-se pelo trabalho com educação bilíngue inclusiva, em português e Libras. Em 2026, o professor de biologia Galileu da Silva Pires, de Manacapuru (AM), ficou entre os 50 selecionados com o projeto ArapainaAtivo, voltado ao acesso à água potável em comunidades ribeirinhas.

A edição de 2027 também ampliou os perfis que podem disputar o prêmio. Quando o Global Teacher Prize foi criado, em 2014, explica Agustín, o foco estava no professor em sala de aula, figura que continua no centro da premiação. Desde então, a Varkey Foundation passou a reconhecer também educadores responsáveis pela aprendizagem em outros contextos.

“A forma como ensinamos e aprendemos está mudando em todo o mundo, e faz sentido que os critérios do prêmio acompanhem essas transformações”, afirma. “Vimos educadores excepcionais transformando a aprendizagem em contextos cada vez mais diversos e não queríamos deixá-los de fora.”

Agustín espera que a mudança também aumente a participação brasileira. “Esperamos receber ainda mais candidaturas do Brasil. O país tem um ecossistema muito rico de programas comunitários e educadores digitais que agora podem participar.”


Quem pode concorrer?

  • professores que atuam em escolas;
  • educadores que trabalham em contextos não formais, inclusive com refugiados;
  • professores de cursos online que acompanham grupos de forma contínua;
  • fundadores ou líderes de programas educacionais com responsabilidade direta pela aprendizagem de crianças e jovens.

Os candidatos precisam ter pelo menos cinco anos de experiência e atuar diretamente na aprendizagem de estudantes entre 4 e 18 anos.

O vencedor ou a vencedora do Global Teacher Prize recebe US$ 1 milhão (R$ 5 milhões, aproximadamente), além da projeção internacional proporcionada pela premiação..


Para Agustín, há características que aparecem com frequência nas experiências brasileiras que avançam na seleção. “Conheço muitos professores da região e posso dizer que os professores brasileiros têm uma criatividade muito particular. Acredito que isso venha também de um contexto único e muito desafiador: um território enorme e realidades profundamente desiguais.”

Muitas dessas histórias, afirma, têm algo em comum: escolas abertas às suas comunidades e projetos que ultrapassam a sala de aula para responder a problemas concretos do entorno. “O que vemos repetidamente são professores que transformam essas limitações em força para agir.”

Mostre o que mudou

Foi justamente de um problema do território que surgiu a Robótica com Sucata. Débora começou a trabalhar com materiais recicláveis e lixo eletrônico em uma escola pública da periferia paulistana, sem laboratório sofisticado nem kits disponíveis para todos os alunos. Os estudantes passaram a transformar esses materiais em objetos de aprendizagem, protótipos e soluções ligadas a problemas como monitoramento de córregos, economia de energia e acessibilidade.

Para ela, a experiência mostra que escala e impacto são coisas diferentes. “Impacto não significa necessariamente começar grande. Impacto significa produzir uma transformação relevante, documentá-la e criar condições para que ela possa ser compartilhada e ampliada.”

Agustín reforça o ponto. Uma prática não precisa alcançar milhares de estudantes para despertar o interesse do júri, mas o candidato deve conseguir mostrar o que mudou em consequência dela.

Também não basta apresentar uma prática inédita. “Buscamos experiências que respondam aos desafios específicos daquela escola, comunidade ou grupo de estudantes, com evidências de que realmente funcionam”, afirma Agustín.

Nesse processo, o contexto em que a iniciativa nasceu também importa. “Não esconda o território. O território é parte da solução”, recomenda Débora.

Ao falar de criatividade em escolas com poucos recursos, ela faz uma ressalva: “O professor não pode ser responsabilizado pela falta de recursos, mas pode e deve ser reconhecido como produtor de soluções.”

Prazo
As inscrições ficam abertas até 12 de outubro de 2026.

Idioma
O formulário está em inglês, mas as respostas podem ser preenchidas em português.

Comece pelo problema
Explique o contexto da escola, dos estudantes ou da comunidade e qual desafio levou à criação da prática.

Mostre a solução
Conte o que você fez e por que aquela resposta fazia sentido naquele contexto.

Apresente evidências
Inclua avaliações, evolução dos estudantes, produções, registros, dados de plataformas ou depoimentos que ajudem a demonstrar os resultados.

Mostre o impacto, não apenas o alcance
Um projeto pode ter começado em uma única turma. O júri procura entender a profundidade da transformação produzida.

Explique o que aconteceu depois
A prática foi incorporada pela escola? Compartilhada com outros professores? Replicada em outras unidades ou transformada em política pública?

Mostre sua contribuição para a profissão
Formação docente, apoio a colegas e compartilhamento público de práticas também entram na avaliação.

Não esconda os desafios
Tentativas, erros e aprendizados ajudam a mostrar como a prática foi construída. “Conte uma história, mas não fique apenas na história. Mostre evidências”, recomenda Débora.

Use sua própria voz
A candidatura deve refletir a experiência e a trajetória do educador. Segundo a Varkey Foundation, os textos também são analisados em relação ao uso de conteúdo gerado por inteligência artificial.

O que o júri procura nas candidaturas

Uma boa candidatura precisa transformar a história do projeto em informações que possam ser verificadas.

“Na Varkey Foundation, nos importamos com impacto real e concreto, que faça diferença na aprendizagem”, explica Agustín. “Por isso, para cada critério, procuramos algo que nos permita verificá-lo com evidências.”

Nos resultados de aprendizagem, podem entrar avaliações, progressão dos estudantes ao longo do tempo, dados de plataformas e depoimentos independentes. O candidato precisa mostrar não apenas que determinado resultado ocorreu, mas sua relação com o trabalho desenvolvido pelo educador.

O impacto para além da sala de aula também conta. O júri procura saber se a experiência envolveu a comunidade escolar, foi replicada em outras escolas ou alcançou outros grupos. Já a contribuição para a profissão docente aparece em ações como apoiar colegas, compartilhar práticas publicamente ou participar da formação de outros professores.

O compromisso do candidato também precisa aparecer na prática. “Compromisso não é algo que você declara; é algo que demonstra”, afirma Agustín.

Segundo ele, isso se revela na trajetória profissional — o prêmio exige pelo menos cinco anos de experiência — e no reconhecimento de quem acompanha o trabalho de perto, como estudantes, famílias, colegas, gestores escolares e autoridades.

A seleção passa por diferentes etapas, inclui uma academia de jurados com integrantes de diferentes partes do mundo e auditoria da PwC. As candidaturas também são examinadas em relação ao uso de conteúdo gerado por inteligência artificial. “Queremos ouvir a voz autêntica de cada professor”, diz Agustín.

Por que vale a pena se candidatar 

Para Agustín, professores que consideram o próprio trabalho pequeno demais para uma disputa internacional deveriam justamente aproveitar a candidatura para olhar com atenção para aquilo que já construíram.

“A quem tem dúvidas, eu diria: vá em frente, porque você não tem nada a perder. E, quando fizer isso, conte sua história de forma genuína e tente mostrar, com evidências, tudo o que conseguiu alcançar.”

Ele diz que a equipe da Varkey Foundation encontra com frequência professores que diminuem a importância do próprio trabalho. “Já ouvimos centenas de vezes professores explicarem, com humildade, que estão apenas fazendo seu trabalho. E é verdade. Mas o que queremos dizer a eles é que esse trabalho transforma vidas e merece ser compartilhado com o mundo.”



Você conhece um professor ou professora que merece reconhecimento internacional? Clique aqui e indique-o ao Global Teacher Prize!