Crédito: Gabriel Nascimento

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Evento discute caminhos para conectar empreendedorismo social e educação

Porvir, Oi Futuro e British Council promovem encontro entre representantes dos dois campos. Debate é ponto de partida para produção de conteúdos destinados a apoiar redes públicas e educadores

por Redação ilustração relógio 19 de fevereiro de 2020

A escola deve apoiar jovens a desenvolverem projetos de resolução de problemas sociais? O empreendedorismo social deve ser tema do currículo e ser incorporado em práticas pedagógicas? Empreendedores e representantes do ecossistema de negócios de impacto podem ajudar jovens a construírem seus projetos de vida?

Essas foram algumas das questões discutidas na quinta-feira (13), no encontro
“Empreendedorismo Social na Educação: Como Aproximar os Dois Universos”, realizado pelo Porvir, Oi Futuro e British Council, no Lab Oi Futuro, no Rio de Janeiro (RJ). Durante o evento, integrantes de secretarias de educação, do terceiro setor, da academia, além de educadores, empreendedores e jovens egressos do ensino médio, trocaram experiências e levantaram referências sobre o tema.

Tatiana Klix, diretora do Porvir, durante o Encontro Empreendedorismo Social na EducaçãoCrédito: Gabriel Nascimento

Tatiana Klix, diretora do Porvir, durante o Encontro Empreendedorismo Social na Educação

Esses debates vão subsidiar a produção de conteúdos, como um novo guia temático no Porvir, para apoiar redes públicas, escolas,  educadores e gestores educacionais a promover experiências pedagógicas que estimulem jovens a empreender socialmente. A exemplo dos guias Personalização do Ensino, Tecnologia na Educação e Educação Mão na Massa, o novo material apresentará conceitos, dicas e casos bem-sucedidos, que servirão de subsídios para implementação.

Por que agora? 

Muitas escolas já trabalham com projetos e práticas que estimulam os estudantes a resolver problemas e melhorar suas comunidades, mas regulamentações recentes como a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e o Novo Ensino Médio criaram uma nova oportunidade de incluir o empreendedorismo nas escolas. Entre outras mudanças, elas preveem que processo educativo deve ter foco no estudante, no desenvolvimento integral e na formação para a vida no século 21.

“As habilidades de todas as áreas de conhecimento da BNCC estão articuladas com questões ambientais, sociais e falam de uma corresponsabilização com o que é de interesse da sociedade”, disse Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare.

Dentro da estrutura do Novo Ensino Médio, Anna demonstrou como o empreendedorismo é um dos quatro eixos estruturantes dos itinerários formativos (parte do ensino médio que o aluno escolhe uma área para se aprofundar). Além desta opção, empreendedorismo ainda pode estar configurado como uma eletiva, para oferecer atividades complementares aos itinerários.

“Se empreendedorismo social é um assunto tão relevante e ganha cada vez mais peso nas discussões globais por conta do nível dos problemas socioambientais, então o currículo deve dar conta de formar essas pessoas. Não é uma questão de sensibilização ou de vontade. A ideia é que os estudantes saiam do ensino médio com ferramentas para realizar sonho, uma aspiração ou propósito”, afirmou.

Participantes do encontro sobre empreendedorismo social discutem soluçãosCrédito: Gabriel Nascimento

Além de palestras, o encontro teve grupos de trabalho para construção de referências

O empreendedorismo na educação

Um dos principais pontos debatidos no encontro foi sobre qual empreendedorismo a escola deveria tratar. Em pauta, estiveram a relação entre um negócio social, o trabalho e a renda, além do imperativo de potencializar a capacidade das próprias populações vulneráveis criarem soluções para transformar o mundo.

Lindsey Hall, presidente-executiva da Rio Organisation Ideas, entidade que apoia a criação de programas de empreendedorismo em escolas britânicas, define empreendedorismo social como atividade destinada a “fazer a diferença no campo social e ambiental, assim como investir a maior parte dos lucros no apoio à missão do projeto para garantir autonomia em relação ao estado”.

Helena Singer, líder da estratégia de juventude para América Latina na Ashoka, faz uma distinção: “Empreendedorismo é uma coisa, empreendedorismo social é outra”, disse, ao pontuar que só o último, o empreendedorismo social, tem uma preocupação explícita com a intervenção na sociedade. “A motivação do empreendedorismo social é a transformação do mundo. A do empreendedorismo é garantir a sobrevivência do negócio, explicou.

Importância da escola

A discussão do papel e da oportunidade que estão colocados diante da escola para a transformação social do país apareceram em diversos momentos do evento.

“A gente costuma ver as escolas como lugar de repetição do mundo e não deveria ser assim. Elas precisam ser os lugares de transformação e de criação de um novo conhecimento”, disse Helena Singer. Para alcançar esse objetivo, segundo ela, a sociedade e os professores devem reconhecer a capacidade do jovem para intervir na realidade, produzir conhecimento e cultura originais. “Se as escolas, equipamentos públicos mais bem distribuídos pelo país, assumirem o seu lugar como empreendimento social, temos uma potência enorme para construir o país que queremos”.

Raquel Souza, analista do Instituto Unibanco, trouxe a perspectiva dos estudantes ao apresentar para os presentes no Lab Oi Futuro sua pesquisa de doutorado sobre os desafios enfrentados por 40 jovens egressos de quatro escolas públicas da periferia da zona leste de São Paulo (SP). “A escola vive falando que prepara o jovem para o amanhã, para a cidadania e para o trabalho, mas pouco se pergunta o que acontece com eles depois que terminam os estudos”.

“Independente do que os jovens pensam sobre o futuro, eles precisam considerar o imperativo de continuar estudando. Podem sair da escola dizendo que nunca mais pisam em sala de aula e dois anos depois têm que lidar com uma sociedade que classifica e organiza a busca por trabalho a partir da certificação escolar”.

Segundo Raquel, alguns jovens saem da escola com imagem muito negativa de si, enquanto outros dizem que fazer o vestibular é difícil, porém possível, porque aprenderam o básico para continuar estudando. “Tudo isso depende da rede de suporte que o jovem possui e ter amigos que estão estudando a mesma coisa faz muita diferença”.

Para além dos estudos, essa é uma fase em que estão construindo sua identidade no mundo e entendendo sua relação com os outros, e passam a conviver com situações de preconceito e não aceitação à medida que acessam outros espaços da cidade. E, ainda por cima, precisam negociar a autonomia e a liberdade em relação à própria família. De acordo com a pesquisadora,  “se quisermos fazer uma escola que se conecta aos jovens, temos que contar a eles como o empreendedorismo social os ajuda a lidar com esses desafios”, disse.

O encontro Empreendedorismo Social na Educação realizado no Lab Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Espaço tem uma escultura de vaca no tetoCrédito: Gabriel Nascimento

O Encontro Empreendedorismo Social na Educação realizado no Lab Oi Futuro, no Rio de Janeiro.

Empreendedorismo para inclusão

A preocupação com a inclusão de todos os níveis sociais para tornar o empreendedorismo social uma oportunidade de formação e opção para o projeto de vida dos jovens foi lembrada por empreendedores sociais e egressos do ensino médio presentes ao encontro.

Em uma fala que traçou uma linha do tempo do empreendedorismo social no Brasil desde os anos 1980, com a campanha contra a fome organizadas pelo sociólogo Betinho, até os  tempos atuais, com fundos de investimento social privado, Adriana Barbosa, empreendedora que criou a Feira Preta, ressaltou que esse entendimento é importante para mostrar como o dinheiro está distribuído. “Não tem como passar o bastão para a juventude sem saber da construção que nos permite hoje falar de empreendedorismo social para atender a base da pirâmide”, afirmou.

“É preciso ser crítico em relação à forma com que o empreendedorismo social é comunicado porque ele segue a lógica da concentração do capital. Só alguns nomes do mercado conseguem acessar os recursos e não necessariamente eles vêm da base da pirâmide social. O que queremos passar para a juventude e como pensamos em um futuro com um verdadeiro processo de inclusão?”, indagou.

João Souza, empreendedor da aceleradora Fa.vela, de Belo Horizonte (MG), lembrou que é importante mostrar ao estudante que, mais que uma disciplina a ser escolhida, existe uma perspectiva profissional dentro do empreendedorismo social.

Um relato de uma jovem trouxe o exemplo de como isso pode acontecer e como a escola foi determinante para seu projeto de vida. Ex-aluna do Colégio Estadual José Leite Lopes/NAVE Rio, Iasmin Alves, atualmente dá os primeiros passos como empreendedora do Mais Torcedoras, uma plataforma que incentiva mulheres a irem a jogos de futebol.

“É possível ter um ensino médio que mostre ao aluno que o mundo é dele e a vida é para ser vencida”, disse a jovem. Para ela, o contato com o colégio não pode terminar com a conclusão do ensino médio, porque a proximidade com professores ainda é importante durante o início da vida profissional. “Esse processo todo começou porque escutei muito meus professores. No terceiro ano, como o colégio tem projeto de integração com o mercado de trabalho, eu pude participar de competições de empreendedorismo e procurar novas capacitações”.

Crédito: Vinícius de Oliveira

Encontro Empreendedorismo Social na Educação também teve momentos de descontração

Recomendações

A atividade final do encontro “Empreendedorismo Social na Educação” gerou uma série de recomendações de como implementar o empreendedorismo social no Novo Ensino Médio levando em conta o papel de educadores; o que precisa mudar nas práticas e nos espaços pedagógicos para que o interesse dos jovens seja atendido; os recursos e a infraestrutura necessárias; além de parcerias para implementação em redes e escolas.

Uma declaração de Katia Smole, diretora do Instituto Reúna e ex-Secretária de Educação Básica do MEC (Ministério da Educação), pouco antes, ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. Segundo ela, todos os grandes “temas do momento” tentam conquistar espaço nos currículos e tempo de aula. “Precisamos considerar a escola como um lugar de gente, que tem grandes questões, que precisa atender pais e que nem sempre têm a estrutura que deveriam ter. Meu pedido é que a gente julgue menos e adote a postura de dar às mãos para a escola”.

Outros pontos de atenção levantados pelos participantes dizem respeito à maneira com que o empreendedorismo social vai ser esclarecido para a comunidade escolar. Por que falar do tema agora? Como identificar essa proposta nas atividades que já são desenvolvidas em escolas públicas e privadas?

Por fim, Gustavo de Lima Cezário, do Sebrae, e Raimundo Xavier, do Projeto Social Ação Parceiros, de Belém (PA), provocaram os demais presentes sobre como o material a ser produzido vai chegar educadores de diferentes lugares e realidades. Tarefa para o próximo guia Empreendedorismo Social na Educação, que será publicado nos próximos meses no Porvir.


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base nacional comum curricular, competências para o século 21, empreendedorismo social, ensino médio, negócios de impacto social